ENTREVISTAS
Feromona
Da benzodiazepina fez-se feromona
· 03 Out 2004 · 08:00 ·
O rock-zoófilo-urbano está aí para durar. O único rótulo que falta à caderneta da imprensa musical britânica tem nos Feromona os seus fundadores. Após anos a fio de arte e ensaio entre as fileiras de diversas bandas da microscópica cena musical de Mafra (com os Crise de Fígado à cabeça), os irmão Diego e André Armés (voz/guitarra e bateria, respectivamente) unem esforços com o baixista Cristóvão D'Almeida de maneira a levarem a bom porto o fervilhar criativo que expiram a cada música em palco. Neste convento há lugar para o impulso primário do punk, assim como para a digressão experimental, a ponderação vive paredes-meias com o non-sense Monty Python, a femme-fatale partilha a penthouse com o cadáver de Steve Mcqueen. Os Feromona ainda não conhecem norte. Acabará por ser a feromona a regular o ciclo menstrual das freiras, à semelhança da direcção musical que mais cedo ou mais tarde se há-de impor. Mas já dizia Lemmy: "The chase is better than the catch". Diego Armés dá-nos as coordenadas.
Resume o percurso dos Feromona até aqui.

Eu e o André voltámos a fazer umas jams juntos, só nós os dois, numa garagem. Não tocávamos um com o outro havia algum tempo e notámos que as coisas estavam a sair particularmente bem. Achámos que devíamos aproveitar para arrancar com algo mais sério, partindo de determinados pressupostos. Falámos com o Cristóvão, explicámos-lhe a intenção e a essência da ideia. Ele gostou, ensaiámos, gravámos umas músicas... até que, um ano e meio depois de nos termos fechado no estúdio, nos estreámos no palco (Agosto, no NetjazzCafé - Chapitô) já com material de alguma forma consistente e que corresponde, em larga escala, à ideia primária da banda.

Os erros cometidos no passado foram essenciais à maturação? Acreditas que este podia ser o teu primeiro projecto?

Não considero que tenham existido "erros", propriamente ditos. Houve uma aprendizagem. Obviamente, este poderia ser o meu primeiro projecto... mas, para isso, teria que ter começado a tocar só com vinte e tal anos. Aos dezasseis ou dezassete a forma como olhas para a música e para os fenómenos que a rodeiam é completamente diferente. Hoje preocupo-me muito mais com a essência. Na altura ia directo ao resultado final. [risos]

Todo o material em reportório é relativamente recente ou há por aqui pérolas repescadas?

Há pérolas, mas são raras. "Better Again", que chegou a ser tocada em Shave, é a única que se mantém, embora devidamente reformulada e actualizada. Existe ainda "Homicide", que é uma música de gaveta. Curiosamente, são temas que começam a ficar descontextualizados num alinhamento que, apesar da diversidade, considero coerente. Surgem um pouco como excepções...

Costuma ser a música a impor-se à letra, ou é o contrário que acontece?

Nunca aconteceu a letra impor-se à música. Mas também não acontece o contrário. O normal - e nem sempre é assim - é que a música sugira determinado ambiente ou acontecimento ou história... conjugando a sugestão da música com o nosso padrão, a letra surge. Quando a música já tem a letra, é a letra que orienta a música - procede-se antão aos ajustes. Por exemplo, se a letra pede tensão, damos tensão à interpretação musical; se é alegria, o ajuste vai nesse sentido. Mas sempre sem tocar na essência das melodias, fica tudo na execução. Há excepções, contudo. "Paquiderme Magrinho", por exemplo, foi uma música começada pelo título. Fizémos uma melodia que não desvirtuasse o título e lhe desse vida. Depois eu fiz a letra. No final, nem precisou de grandes arranjos, foi tudo muito conceptual.

"Baton Original" é para já cartão de visita. Perfila-se um novo tema para o substituir? Será cedo demais para isso?

O Baton foi gravado em maqueta tínhamos nós dois meses de ensaio e seis ou sete temas (alguns deles já descartados) em alinhamento. É um bom tema e, para já, vai manter-se como cartão de visita - tem videoclip, levou pós-produção... Além disso, as pessoas já começam a habituar-se a esse som... Mas, num futuro próximo, é natural que a "Balada do Encore" ou o "Mustang", até mesmo o "Paquiderme Magrinho", venham a tomar o seu lugar.

Optar pela língua portuguesa para dar voz às vossas músicas é algo ponderado racionalmente, ou surge espontaneamente?

De início, a intenção era fazer uma coisa poliglota, temas para todos os povos. Portanto, não se pode dizer que a opção "português" tenha sido programada. Acontece que acabámos por concluir que a qualidade das letras em português era esmagadoramente superior às outras. Foi uma opção e, aos poucos, o número de temas em português têm vindo a ganhar o seu espaço no set. Chegará o dia, penso eu, em que só teremos músicas em português e instrumentais. Mais a Latina Woman, claro, que é o nosso lado bem-disposto e é em inglês. Rudimentar, mas é inglês na mesma. [risos] Claro que isto sou só eu a falar, as coisas mudam e a evolução de Feromona tem sido muito empírica: experimentamos uma coisa; se resulta, óptimo, se não resulta, refazemos a experiência a partir de outra perspectiva. Isto, respeitando sempre a intenção fundamental: divertirmo-nos, criarmos novidade com qualidade e gostarmos mesmo do que andamos a fazer.

Tèm alguma banda portuguesa como referência?

Sim, temos referências. Embora não possamos considerar "influências". Ornatos Violeta surgem à cabeça, mas não descarto o Jorge Palma ou os GNR. Talvez, no fundo, tenhamos um pouco de cada um deles, misturado pela nossa perspectiva. Daí a diversidade.

Qual das duas facetas te agrada mais explorar em palco: a dita convencional ou a experimental?

No palco, o experimentalismo dá mais gozo, a adrenalina sobe, diverte-me mais, dá-me mais prazer. Por outro lado, no modo convencional é óptimo quando percebes que o público está a apreciar aquilo em que andaste a trabalhar durante meses a fio. É gratificante. Dá-te um prazer menos "radical", é diferente. Mas talvez seja mais reconfortante. Bom mesmo é aplicar as duas fórmulas. Isso sim, satisfaz plenamente.

Que diferenças encontraram do NetjazzCafé para o Santiago Alquimista?

Todas, menos os BIs dos elementos da banda e algumas pessoas do público. No Netjazz era a estreia de Feromona em palco. E primeira vez só há uma. Os nervos são maiores que tu, estás ansioso pela reacção das pessoas, suspeitas da tua própria capacidade para fazer aquilo que sabes que és capaz de fazer. Safámo-nos, contudo. Até nem correu mal. No Alquimista foi outra coisa. As condições eram fantástias, o som era muito bom, a sala é lindíssima, o palco é espaçoso... No Netjazz é um bocadinho apertado. Todas estas condições dão-te uma confiança muito maior em cima do palco. E isso reflecte-se na interpretação dos temas. Superas-te, inevitavelmente. Correu tudo na perfeição, sem gaffes, com espírito, com segurança, com presença... Foi um bom concerto.


Tocam uma versão de "Happily Divided" dos Sebadoh. Há outra música da banda de Lou Barlow que gostassem de interpretar?

As versões que temos nasceram de brincadeiras. Quando estamos a aquecer, nos ensaios, vamos tocando o que costumamos tocar em casa. Calhou certo dia tocar esta de Sebadoh, gostámos do som, achámos que encaixava no set. Ficou. Nunca fizémos uma versão programada. Tentámos, mas não resulta. Portanto, não está nos nossos planos outra versão de Sebadoh. Mas, se tivesse que escolher uma, seria o "Forced Love", também do Bubble & Scrape.

Tocam também uma música que faz parte de uma banda-sonora. Esclarece-nos.

Isso foi logo no início. Tínhamos começado a ensaiar há duas ou três semanas. Uma amiga minha estava a fazer uma curta-metragem e convidou-me para compôr a banda sonora. Aceitei o convite e mandámos-lhe uma maqueta com três temas (dois deles foram cortesia): "Nave", "Shaka" e "Baton Original". A "Nave" foi a escolhida. Mas ainda não vi a curta-metragem, não sei como é que ficou o trabalho final.

Costumam surgir ideias a partir de jam sessions, ou o vosso método de composição não passa por aí?

O método também passa por aí. Músicas como "Gastrofusão", "Crocodilo" ou "Paquiderme Magrinho" nasceram e foram inteiramente compostas em estúdio, por todos em simultâneo. Vários temas surgiram assim.

A composição fica exclusivamente a teu cargo, ou rege-se pela democracia?

Não é exclusivamente minha. Há coisas compostas por mim, em casa, que depois são arranjadas e adaptadas em estúdio. É como se eu escrevesse um argumento e, no estúdio, todos juntos, fizéssemos o guião para o filme, adaptando a história. Depois existem ainda os filhos da jam session, de que já falei na pergunta anterior. Além disso, poderão existir outros sistemas... Mas nós vamos pela necessidade. Até agora não foi necessário.

Porquê Feromona?

Benzodiazepina era demasiado comprido e difícil de decorar.

Fala-nos um pouco do teledisco "Baton Original". Conceito e execução.


Conceito é o mesmo de sempre: experimentar. Neste caso, experimentar fazer um home-movie de Feromona que pudesse vir a ser útil. A execução foi ainda mais simples. O Cristóvão trouxe uma câmara e duas cassetes. Fomos filmando, uns bocados cada um, como nos apetecia. Depois o próprio Cristóvão pegou naquele lixo todo, seleccionou, cortou, colou, limpou... Montou a música e agora parece mesmo um videoclip.

Acreditas no Benfica de Trapattoni?

Não.

Contaram com um DJ a preencher os intervalos do vosso espectáculo no Santiago Alquimista. [o grande DJ Arsénio, o nosso enfant terrible do gira-discos] Portou-se bem?

Sim, não deu muito nas vistas, que era o que se pretendia, dado que as estrelas éramos nós. As músicas que escolheu tinham nível, enquadraram-se no espaço e no cariz do evento. Também não dei por pregos nas passagens, por isso, deve ter estado bem.

Objectivos a curto prazo.

Fazer mais concertos, especialmente em boas salas. Sair de Lisboa e tocar também em outros centros onde a cena musical esteja animada. Gravar uma maquete nova, que esta está desactualizada. Mas, para isso, precisamos de um patrocínio. O Bodyspace é endinheirado?...
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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