ENTREVISTAS
PCF Moya
Frango e a Guitarra
· 17 Fev 2006 · 08:00 ·
O Barreiro, cidadela-dormitório nos arredores sul de Lisboa, é uma terra famosa por possuir um parque empresarial degradado. Durante os tempos do antigo regime florescia naqueles terrenos uma indústria rentável, mas a revolução de 1974 trouxe a decadência a um espaço que actualmente se encontra num estado de elevada poluição. Inesperadamente, ou não, têm surgido desta cidade alguns dos mais interessantes projectos nacionais de nova música rock: Goodbye Toulouse, Frango, Fish & Sheep, entre outros, produzem alguma da mais urgente música do momento. Rui Dâmaso, guitarrista do trio free rock Frango, embarca em explorações caseiras - uma guitarra e os seus efeitos - e numa estética marcadamente lo-fi apresenta-se com o nome PCF Moya. Depois de um primeiro disco - Surgeon Surgeon - via Searching Records, acaba de ser agora editada uma nova gravação através Merzbau: o EP Untitled/God Slot. Fingerpicking, Barreiro, free improv, Sporting e lo-fi - PCF Moya em discurso directo.
Antes de mais, qual é a origem e a explicação para o nome PCF Moya? Quase parece um clube de futebol...

Sou do Sporting, nunca iria inventar outro clube. O nome vem de umas brincadeiras rebuscadas com a minha árvore genealógica.

Porquê a utilização de um simples intrumento, a guitarra, com efeitos?

Uso o que tenho. Não é propriamente um ponto assente que utilize sempre a guitarra. Daqui por uns tempos vai sair, em princípio, um EP pela Test Tube em que só usei microfone e pedais, por exemplo.

A estética lo-fi está muito presente, no disco ouve-se a respiração, pequenos ruídos, até tosse. PCF Moya será sempre um projecto “caseiro” ou imaginas trabalhar num estúdio com acesso às mais avançadas tecnologias de gravaçao?

As gravações para esse disco foram absolutamente lo-fi; nessa altura andava sempre com um gravador de voz, daqueles de cassetes, tanto que até se ouve a fita a rodar ao longo do disco todo. Não fazia questão que ficasse com um som tão podre, mas era o que havia na altura. Nos Frango também tem sido assim, até agora: basicamente, como se trata de improvisação, o som fica nas mãos da tecnologia disponível no momento. Gostava de ir para estúdio no caso de querer gravar composições, sobretudo se tivesse uma ideia muito precisa do som que pretendia obter. Talvez um dia. De qualquer maneira posso-te dizer que o lo-fi não é um statement estético, é o resultado lógico de um método de trabalho mais ou menos desorganizado, do facto de as sessões de improvisação raramente serem planeadas com antecipação, e de não prestar a devida atenção a detalhes que poderiam contribuir para melhorar um pouco o som.

A devoção pelo deus Fahey é assumida? Dos novos discípulos faheyianos - Ben Chasny, Jack Rose, Glenn Jones, James Blackshaw - com quem mais te identificas?

Musicalmente não me coloco nem perto desse campeonato. Toda essa gente tem uma competência técnica na guitarra que está completamente além das minhas capacidades. Gosto imenso da música que fazem, mas não é isso que eu procuro fazer, pelo menos hoje em dia. No máximo talvez denote algumas afinidades com o último período do Fahey, mais esparso e meditativo. Eu toco poucas notas, e devagar. Se tivesse que escolher nomes com os quais encontre afinidades diria mais Loren Mazzacane Connors, Tetuzi Akyiama (mais pelo tema dele na Wooden Guitar, que é absolutamente incrível), também o primeiro álbum a solo do David Grubbs, que é brutal, e claro, o Steffan Basho-Junghans, que é um mestre. E acho que os Labradford também estão presentes em muitas das coisas que faço sozinho.

O disco Surgeon Surgeon por vezes faz lembrar as experimentações caseiras de Vincent Gallo. Qual é a tua relação com este artista?

É inexistente - nunca vi nem ouvi nada feito por ele. Mas sei quem ele é.

Podemos fazer alguma ligação da tua musica a Derek Bailey ou à gente da livre improvisação, que explora a guitarra por técnicas não ortodoxas?

Acho que sim. O Derek Bailey foi uma grande descoberta para mim, durante uns tempos andei obcecado, não só com a música dele mas sobretudo com o que a abordagem dele representou para mim. A influência da livre improvisação prende-se sobretudo com a questão da liberdade idiomática que representa, e que é apelativa para que um gajo como eu, nunca tendo aprendido música ou guitarra da forma convencional, se possa libertar desse constrangimento e seguir em frente, descobrir uma linguagem ou uma técnica através da qual se possa expressar.

Este projecto solo funciona como escape das actividades dos Frango? São projectos complementares?

Claro que são. Já há muito tempo que vou fazendo coisas sozinho, desde que comecei a tocar, mas só nos últimos tempos é que comecei a achar que há coisas que valem a pena ser mostradas. Há espaço para tudo o que envolva fazer música, é uma coisa que se complementa a si própria.

Podemos dizer, depois do out.fest e da emergência de várias bandas locais, que o Barreiro/Margem Sul é actualmente um pólo de criatividade musical alternativo ao eixo Bairro Alto/ZDB?


No Barreiro há uma meia-dúzia de pessoas que fazem coisas mais “experimentais”, digamos assim. De resto é completamente dominado pelo metal, pelo rock n´roll, pelo metal, pelas covers de metal, etc. Não sei como é o panorama em outros sítios da margem sul, tipo Almada, mas deve ser o mesmo, talvez um bocado de hip-hop, também. Mas não é uma questão de se ser alternativo ao eixo Lisboa, acho que contribuímos para ele, com as nossas particularidades suburbanas.

O que esperas da actuação na Galeria Zé dos Bois com Harris Newman?

Que apareçam amigos, para apaziguar o stress de ir tocar sozinho. E acho que o Harris Newman é lá da pandilha de Montreal, por isso vai ser fixe falar sobre uma série de coisas de que gosto ou já gostei bastante.

Quais são os planos para futuro? Há mais gravações e concertos na calha?


No dia do concerto sai um EP pela Merzbau, do Tiago Sousa, com a gravação do concerto no out.fest e mais duas cenas gravadas em casa no verão passado. Também vai sair o tal EP pela Test Tube, e tenho sempre imensos planos para mais edições, este ano ainda devem sair mais coisas. Em relação a concertos, está planeada uma noite com os One Might Add e os Fish & Sheep, para o mês que vem, e também vou abrir aí para os CAVEIRA um dia destes, vai ser esperto.
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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