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PCF Moya
Frango e a Guitarra


O Barreiro, cidadela-dormit√≥rio nos arredores sul de Lisboa, √© uma terra famosa por possuir um parque empresarial degradado. Durante os tempos do antigo regime florescia naqueles terrenos uma ind√ļstria rent√°vel, mas a revolu√ß√£o de 1974 trouxe a decad√™ncia a um espa√ßo que actualmente se encontra num estado de elevada polui√ß√£o. Inesperadamente, ou n√£o, t√™m surgido desta cidade alguns dos mais interessantes projectos nacionais de nova m√ļsica rock: Goodbye Toulouse, Frango, Fish & Sheep, entre outros, produzem alguma da mais urgente m√ļsica do momento. Rui D√Ęmaso, guitarrista do trio free rock Frango, embarca em explora√ß√Ķes caseiras - uma guitarra e os seus efeitos - e numa est√©tica marcadamente lo-fi apresenta-se com o nome PCF Moya. Depois de um primeiro disco - Surgeon Surgeon - via Searching Records, acaba de ser agora editada uma nova grava√ß√£o atrav√©s Merzbau: o EP Untitled/God Slot. Fingerpicking, Barreiro, free improv, Sporting e lo-fi - PCF Moya em discurso directo.
Antes de mais, qual é a origem e a explicação para o nome PCF Moya? Quase parece um clube de futebol...

Sou do Sporting, nunca iria inventar outro clube. O nome vem de umas brincadeiras rebuscadas com a minha árvore genealógica.

Porquê a utilização de um simples intrumento, a guitarra, com efeitos?

Uso o que tenho. Não é propriamente um ponto assente que utilize sempre a guitarra. Daqui por uns tempos vai sair, em princípio, um EP pela Test Tube em que só usei microfone e pedais, por exemplo.

A est√©tica lo-fi est√° muito presente, no disco ouve-se a respira√ß√£o, pequenos ru√≠dos, at√© tosse. PCF Moya ser√° sempre um projecto ‚Äúcaseiro‚ÄĚ ou imaginas trabalhar num est√ļdio com acesso √†s mais avan√ßadas tecnologias de grava√ßao?

As grava√ß√Ķes para esse disco foram absolutamente lo-fi; nessa altura andava sempre com um gravador de voz, daqueles de cassetes, tanto que at√© se ouve a fita a rodar ao longo do disco todo. N√£o fazia quest√£o que ficasse com um som t√£o podre, mas era o que havia na altura. Nos Frango tamb√©m tem sido assim, at√© agora: basicamente, como se trata de improvisa√ß√£o, o som fica nas m√£os da tecnologia dispon√≠vel no momento. Gostava de ir para est√ļdio no caso de querer gravar composi√ß√Ķes, sobretudo se tivesse uma ideia muito precisa do som que pretendia obter. Talvez um dia. De qualquer maneira posso-te dizer que o lo-fi n√£o √© um statement est√©tico, √© o resultado l√≥gico de um m√©todo de trabalho mais ou menos desorganizado, do facto de as sess√Ķes de improvisa√ß√£o raramente serem planeadas com antecipa√ß√£o, e de n√£o prestar a devida aten√ß√£o a detalhes que poderiam contribuir para melhorar um pouco o som.

A devoção pelo deus Fahey é assumida? Dos novos discípulos faheyianos - Ben Chasny, Jack Rose, Glenn Jones, James Blackshaw - com quem mais te identificas?

Musicalmente n√£o me coloco nem perto desse campeonato. Toda essa gente tem uma compet√™ncia t√©cnica na guitarra que est√° completamente al√©m das minhas capacidades. Gosto imenso da m√ļsica que fazem, mas n√£o √© isso que eu procuro fazer, pelo menos hoje em dia. No m√°ximo talvez denote algumas afinidades com o √ļltimo per√≠odo do Fahey, mais esparso e meditativo. Eu toco poucas notas, e devagar. Se tivesse que escolher nomes com os quais encontre afinidades diria mais Loren Mazzacane Connors, Tetuzi Akyiama (mais pelo tema dele na Wooden Guitar, que √© absolutamente incr√≠vel), tamb√©m o primeiro √°lbum a solo do David Grubbs, que √© brutal, e claro, o Steffan Basho-Junghans, que √© um mestre. E acho que os Labradford tamb√©m est√£o presentes em muitas das coisas que fa√ßo sozinho.

O disco Surgeon Surgeon por vezes faz lembrar as experimenta√ß√Ķes caseiras de Vincent Gallo. Qual √© a tua rela√ß√£o com este artista?

√Č inexistente - nunca vi nem ouvi nada feito por ele. Mas sei quem ele √©.

Podemos fazer alguma ligação da tua musica a Derek Bailey ou à gente da livre improvisação, que explora a guitarra por técnicas não ortodoxas?

Acho que sim. O Derek Bailey foi uma grande descoberta para mim, durante uns tempos andei obcecado, n√£o s√≥ com a m√ļsica dele mas sobretudo com o que a abordagem dele representou para mim. A influ√™ncia da livre improvisa√ß√£o prende-se sobretudo com a quest√£o da liberdade idiom√°tica que representa, e que √© apelativa para que um gajo como eu, nunca tendo aprendido m√ļsica ou guitarra da forma convencional, se possa libertar desse constrangimento e seguir em frente, descobrir uma linguagem ou uma t√©cnica atrav√©s da qual se possa expressar.

Este projecto solo funciona como escape das actividades dos Frango? S√£o projectos complementares?

Claro que s√£o. J√° h√° muito tempo que vou fazendo coisas sozinho, desde que comecei a tocar, mas s√≥ nos √ļltimos tempos √© que comecei a achar que h√° coisas que valem a pena ser mostradas. H√° espa√ßo para tudo o que envolva fazer m√ļsica, √© uma coisa que se complementa a si pr√≥pria.

Podemos dizer, depois do out.fest e da emergência de várias bandas locais, que o Barreiro/Margem Sul é actualmente um pólo de criatividade musical alternativo ao eixo Bairro Alto/ZDB?


No Barreiro h√° uma meia-d√ļzia de pessoas que fazem coisas mais ‚Äúexperimentais‚ÄĚ, digamos assim. De resto √© completamente dominado pelo metal, pelo rock n¬īroll, pelo metal, pelas covers de metal, etc. N√£o sei como √© o panorama em outros s√≠tios da margem sul, tipo Almada, mas deve ser o mesmo, talvez um bocado de hip-hop, tamb√©m. Mas n√£o √© uma quest√£o de se ser alternativo ao eixo Lisboa, acho que contribu√≠mos para ele, com as nossas particularidades suburbanas.

O que esperas da actuação na Galeria Zé dos Bois com Harris Newman?

Que apareçam amigos, para apaziguar o stress de ir tocar sozinho. E acho que o Harris Newman é lá da pandilha de Montreal, por isso vai ser fixe falar sobre uma série de coisas de que gosto ou já gostei bastante.

Quais s√£o os planos para futuro? H√° mais grava√ß√Ķes e concertos na calha?


No dia do concerto sai um EP pela Merzbau, do Tiago Sousa, com a grava√ß√£o do concerto no out.fest e mais duas cenas gravadas em casa no ver√£o passado. Tamb√©m vai sair o tal EP pela Test Tube, e tenho sempre imensos planos para mais edi√ß√Ķes, este ano ainda devem sair mais coisas. Em rela√ß√£o a concertos, est√° planeada uma noite com os One Might Add e os Fish & Sheep, para o m√™s que vem, e tamb√©m vou abrir a√≠ para os CAVEIRA um dia destes, vai ser esperto.


Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com
17/02/2006