Joana Guerra
A Guerra é a Guerra
· 14 Mar 2012 · 19:23 ·
© Estelle Valente
Voz e violoncelo. Nada mais. Há uma voz doce que voa por cima de um violoncelo, violoncelo esse que alterna entre o pizzicato e o arco, desenhando leves tapetes instrumentais. As composições são originais. Rectifique-se: originalíssimas. Incomparáveis, senhoras do seu próprio mundo. É um universo único, herdeiro de uma certa folk sofisticada (as cantoras perdidas dos 60s tardios), que não tem vergonha de assumir as influências clássicas, que intercala e combina todas essas referências com naturalidade e segurança, transformando-as em algo novo, fresco, doce e bom. Ela canta em inglês, português e francês, mas isso pouco importa. Importa saber que é raro encontrarmos alguém com esta dose de talento. Se ainda alguém está com dúvidas, que vá googlar "Heartcrash". Ela chama-se Joana Guerra e, ainda sem qualquer disco editado, é já uma pequena estrela. O futuro está do lado dela e, se correr tudo bem, há-de ser grande.
Lembras-te como foi que começaste por te interessar pela música?

É um mal congénito. Não tenho lembrança de um momento ou de uma fase precisa na minha vida, mas desde sempre ouvi música com os meus irmãos mais velhos (com uma diferença substancial de sete e oito anos) que, por sua vez, também estudavam música.

Porquê a escolha do violoncelo?

O violoncelo? Hmmm... Quando tive de escolher um instrumento, tinha mais opções em mente: a guitarra e a flauta transversal. Mas gostaria mesmo de aprender um instrumento de cordas. Aboli o contrabaixo por ser demasiado grande e o violino por ser demasiado pequeno. Ficou o violoncelo. Não é lá muito poético, mas enfim, foi esta a minha linha de pensamento. E com um encorajamento extra de um professor de música, a coisa ficou mesmo decidida. E sem nenhum arrependimento!

© Estelle Valente

Quando começaste a compor os teus próprios temas?

Uma vez mais, por uma razão prática… terá sido pelo ano 2010 quando, por razões profissionais e académicas, tinha um horário impossível de ensaiar com os amigos músicos e de me comprometer com outros projectos musicais. Assim, senti que seria um bom momento para experimentar compor a solo. O resultado ia fazendo sentindo… et voilà, surgiu a primeira oportunidade de dar concerto a convite d´A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, para Setembro de 2011 em Évora, e aí foi estabelecida uma meta para preparar um repertório para concerto.

Tocaste com o Tiago Sousa em alguns espectáculos. O que retiraste dessa experiência?

É sempre bom ter a oportunidade de tocar com outros músicos. Especialmente, nesta altura que me apresento a solo, retiro cada vez mais prazer da experiência de tocar com outras pessoas. Acima de tudo, foi um bom momento para reflectir sobre aquilo que queria fazer na música e qual o lugar que gostaria de ocupar, ou seja, enquanto compositora e intérprete dos meus próprios temas.

Pergunta obrigatória: quais são as tuas referências? Consegues indicar alguns músicos e/ou compositores que influenciaram directamente aquilo que fazes agora?

Acho que é sempre uma pergunta difícil. Como disse acima, todo o movimento musical que os meus irmãos mais velhos acompanhavam na década de 90, do grunge ao rock, passando por outros interesses musicais como o jazz, os blues, o folk e a música erudita. Foram músicas e sonoridades que foram ficando, como referência “surda”. Mas para citar outros nomes: Shara Worden (de My Brightest Diamond), Lisa Gerrard, Joanna Newsom, Sonny Thet…

As pessoas começaram a falar de ti a partir do momento em que surgiram alguns vídeos na internet. Foi uma opção de marketing, como a Lana Del Rey (brincadeirinha)?

Ahhahahah. Boa piada! Não foi uma estratégia. Acabou por acontecer assim. Foi um outro músico que me deu a conhecer A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, projecto de Tiago Pereira. Um dia, contactámos e gravámos um vídeo que ficou mesmo muito giro. Como ainda não tinha músicas gravadas, os vídeos acabaram por ser o suporte optado para dar a conhecer aquilo que faço musicalmente.

Tens dado alguns concertos. Como têm sido as reacções?

As reacções têm sido muito encorajadoras. Na maioria, as pessoas parecem gostar e comover-se com o que ouvem. Isso faz-me muito feliz.

Sentes que as músicas têm ganhado vida por serem tocadas ao vivo, vão evoluindo, transformando-se em coisas diferentes?

Sem dúvida. Aliás, como ainda não tinha nada gravado em definitivo, pude ter a liberdade de trabalhar essa evolução natural das músicas. Agrada-me muito o sentimento de “metamorfose” que a experiência ao vivo exerce sobre as músicas. Não diria que se transformam numa coisa diferente porque se fosse modificar a essência e a base da música então já seria uma nova música a contar uma nova história.

© Estelle Valente

Para quando um álbum? Já tens material gravado?

Para breve… As músicas já estão todas gravadas. O disco está a ser produzido pelo Pedro Alçada, com quem criei uma parceria musical deveras importante.

Qual tem sido o papel do Jorge Nunes (S for Seward, programador, etc.) neste processo?

Ah, esse malandro… Sempre me apoiou imenso nesta aventura a solo, desde apoio moral ao apoio técnico. Um grande bem-haja! O Jorge é um amigo que conheci nos meandros musicais. Neste momento, temos um projecto de spoken word que se chama Tapete, com a slammer Raquel Lima.

© Estelle Valente

Com que músicos gostavas de colaborar um dia destes?

Nunca pensei nisso de maneira idealizadora. Os músicos que colaboraram nas gravações ou na composição de arranjos das músicas (o Boris das Duas Semicolcheias Invertidas e o guitarrista Nuno Lopes) são pessoas com as quais já tinha construído uma relação de confiança musical e pessoal. Mas não omito o prazer que seria cantar em dueto com o Camané ou a Lula Pena, por exemplo.

Quais foram os momentos, até este momento, em que mais sentiste que podias acreditar na tua música?

Em concerto com a reacção positiva das pessoas; a confiança do Pedro Alçada depositada no projecto; o apoio dos amigos/marretas que me deram na cabeça para gravar as músicas.

Quais são os teus objectivos para os próximos tempos?

Bem, antes de mais, ter oportunidade de editar o álbum. Se tudo correr bem, ou menos mal, tocar, tocar, tocar e quem sabe, um dia poder dizer que tenho uma só profissão: música.
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com