ENTREVISTAS
Part Wild Horses Mane On Both Sides
O espírito das coisas
· 06 Out 2011 · 19:51 ·
Sorrateiramente, foram criando um culto em Inglaterra que começa agora a despontar um pouco por todo o lado. Pelo menos, por parte daqueles que se interessam por estas músicas que parecem florescer do nada. Duo quase místico na capacidade de imbuir estruturas freeform de um lirismo profundo, os Part Wild Horses Mane On Both Sides não perpetuam a Manchester da Hacienda ou dos projects operários, mas descobrem nos seus movimentos (de flauta, percussão e electrónica low-cost) uma outra cidade escondida sobre o betão. Numa altura em que Kelly Jones e Pascal Nichols se preparam para a sua estreia em Portugal no dia 7 de Outubro numa noite que se prevê mágica para o OUT.FEST, em boa hora trocámos uns mails com este último para sabermos quais os fantasmas que povoam o equipamento, a ausência de planos e que os Loosers são uns gajos fixes (isso já se sabia). Aproveitando a oportunidade para traduzir "amazing" pelo doce provincianismo de espectacular.
Para começar, aquela pergunta óbvia. Como e quando começaram a tocar como PWHMOBS?

Começámos a tocar juntos em 2006 e o nosso primeiro concerto como Part Wild Horses Mane On Both Sides foi no Verão de 2007.

Como é que têm visto as coisas em Inglaterra no meio mais far-out?

Vivemos em Manchester e organizamos concertos como Tubers Music. Há imensos promotores a fazerem boas coisas em bons espaços.

Houve algum tipo de planeamento quanto à orientação da banda?

Nenhum tipo de planeamento, apenas uma profunda abertura para a descoberta. Mesmo agora não temos bem ideia do que esperar da nossa música e do nosso equipamento. É isto que mantém a descoberta excitante e viva. Além disso existem sempre muitos outros elementos além da flauta e da percussão, como componentes electrónicos e voz.


Quais foram/são as influências primordiais?

As maiores influências são o nosso equipamento e a exploração das suas possibilidades.

Conhecem a bso do Eduard Artemiev para o Stalker? Uma das minhas primeiras impressões de PWHMOBS que tive foi de existir um certo paralelo com a banda sonora (e o próprio filme) na demanda por uma certa espiritualidade

Não, não conhecemos esse filme, mas vamos vê-lo em breve! Obrigado. Mas estás correcto no que diz respeito à presença de uma espiritualidade profunda.

Comparado alguns discos iniciais com o mais recente Low Fired Clay Escape parece ter havido uma certa direcção para algo mais denso. Acham que de algum modo isso foi progressivo?

Por vezes tocamos de modo completamente acústico, como no Sixth Samovar, por outras abraçamos a tecnologia como no Low Fired Clay Escape, dependendo do contexto e da circunstância. Na verdade não temos qualquer controlo até onde o momento nos leva quando estamos num “estado improvisacional”. Reagimos ao espaço, às pessoas, ao feeling, ao ambiente. Não creio que os discos revelem uma progressão numa determinada direcção, até porque temos várias edições diferentes lançadas ao mesmo tempo, a soarem bastante diferentes. Algumas com mais espaço do que outras.

Sentem que este último álbum lhes deu uma maior visibilidade?

Diferentes discos têm diferentes visibilidades. Esse em particular tornou-nos visíveis em espaços que não esperávamos. Temos muita sorte. É sempre difícil dizer se esse disco nos garantiu uma maior notoriedade, é apenas um tipo diferente de visibilidade. Tivemos algum feedback bem sustentado sobre o disco de amigos próximos que foram muito inspiradores.


Apesar de se tratar de música improvisada existe algum tipo de planeamento prévio antes de tocarem?

É usual discutirmos acerca de como nos sentimos, aquilo que se passa na sala do concerto, aquilo que comemos e, por vezes, sobre quais são as nossas intenções.

De algum modo este contínuo de gravações/concertos acaba por ir moldando essas intenções, não?

Gravar é um excelente método de documentar aquilo que estamos a fazer e uma boa maneira de revisitar algo que criámos para reflectir sobre isso e ver se somos capazes de combinar determinados momentos de modo a fazer um retrato total. Andar em digressão é incrivelmente inspirador pois permite-nos conhecer pessoas a fazer todo o tipo de coisas e a viverem de modo distinto. Inspiramo-nos em toda a experiência e não apenas na música, as pessoas, os espaços, lugares. Por sua vez, tudo isto vai afectar aquilo que produzimos em palco consciente e inconscientemente. Adoramos andar em digressão. Além disso também colaborámos com artistas como o Haris Epaminonda numa instalação na Tate Modern e na Schrin Gallery em Frankfurt e no filme da Veronica Ibarra. Estas experiências são extensões da criação de música/som de modo a atingir uma intuição mais profunda do mundo. A nossa música como complemento a filmes, objectos, imagens é um universo que esperamos navegar num futuro próximo.

Têm tocado muito fora de Inglaterra?

Tocámos maioritariamente na Escandinávia, Alemanha e França- Esta é a primeira vez que visitamos Portugal. Estamos mesmo entusiasmados com o facto de irmos, tocamos e conhecermos pessoas. Uma vez conhecemos os Loosers e eles eram espectaculares e muito simpáticos.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com

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