ENTREVISTAS
Filipe Felizardo
Conjecturas e refutações
· 10 Fev 2011 · 12:09 ·
© Sara Rafael
Primeiramente reconhecido por uma barba imponente e por um trabalho louvável enquanto artista plástico (são dele alguns dos mais belos cartazes feitos para a ZDB), Filipe Felizardo veio-se a revelar, acima de tudo, como um dos nomes mais interessantes da música mais exploratória feita por cá. Tendo tocado um pouco por todo o lado ao longo do ano passado, Felizardo tem vindo a maturar as premissas que se reconheciam em Övöo à frente de todos aqueles que se interessam minimamente. É sempre bonito assistir ao crescimento aqui e agora. Quando interessa. Em vésperas dos concertos de lançamento de lII = 207.8°, bII = ?56.3° em Lisboa este sábado no espaço Kolovrat 79 (com Wooden Wand) e, no dia seguinte numa matinée na Cooperativa Cultural Barreirense, Felizardo acedeu a conversar apaixonadamente do poço sobre as coordenadas que levam a um cold spot no Universo (atente-se no título do novo álbum), repetição e da coabitação entre o drone e os King Crimson. A convergir num Infinito, se possível.
Embora já tivesses passado por outros projectos, o teu nome enquanto músico começou a ser mais notório com os Häsqvarna. Fala-me de todo o o teu processo enquanto músico até lá, e de que modo é que a experiência em Häsqvarna serviu de alavanca para explorares algo a solo.

Os Häsqvarna resultaram de uma mão cheia de coincidências o Petrucci tinha estado fora de Lisboa por muito tempo. E quando voltou, para aí em 2006 estávamos os dois preparados para fazer música juntos com vista a criar uma paisagem sonora para um trabalho meu, uma enciclopédia para um local imaginário. A coisa nessa altura era um bocado mimética. música pretensamente grandiosa para imagens que se queriam também grandiosas. A composição era dos dois (e chegou a tentar ser mais, duas guitarras e duas baterias ), mas vinha de umas intenções minhas de, pela 1a vez na vida, estar a querer construir "peças". Daí para a cena a solo...o Petrucci ausentou-se de novo, e eu comecei a equipar-me com mais pedais. e a tocar sozinho, pois. Aí não tinha remédio senão finalmente jamar as tais peças que tinha na cabeça. A solução parecia ser pegar nos meus riffs e tentar levá-los para uma situação em que não fossem precisas duas guitarras. Até 2006..uma primeira banda, uma coisa de escola que deixa saudades a todos os envolvidos: o Bonanza. Eu, o Cláudio Fernandes, o Óscar Silva, o Ricardo Martins, e o Ruben Vilas. Uma tentativa e impingir stoner a nós mesmos. Todos, excepto eu, estavam ligados a bandas um pouco fechadas no dillinger escapismo. Depois disso, os My Legs, Señor. Entretanto, conheci o Petrucci. Tocámos um vez juntos e depois só nos vimos 3 anos depois. Na verdade, a cena tem sido essa, tocar 5 dias seguidos de ano a ano [risos].

E de que modo é que Övöo é reflexo dessas primeiras "peças". Houve um esforço consciente para apresentar uma obra acabada ou presidiu a tudo isso o risco da improvisação?

Bom, não sei muito bem quando decidi que improvisaria. O Övöo vem de um talvez longo fascínio com o drone.

Cagaste nessas peças, então?

Bom, ainda uso uns riffs...deixa-me pensar um bocadito. Acho que o que decidi para comigo é que tinha um leque de riffs à disposição e que eles, pela sua natureza me permitiam que os trabalhasse via repetição - numa de ver até onde é que eles vão: onde é que consegues apontar numa nota ou numa frase o sítio onde podes começar/inserir outra.

© Sara Rafael

E de onde é que vem esse fascínio pelo drone? e quando é que se tornou comum no teu trabalho a solo a sua exploração?

Já nos Häsqvarna havia intenção de deixar as notas soar - fossem elas quais fossem, graves ou agudas. Isso começou a ser premente no trabalho a solo no momento em que me soube capaz de fazer coisas que pudessem expor essas situações. É claro que sei o que gosto de ouvir. Nos outros! No meu trabalho, isso tem que ser uma coisa feita com conta peso e medida. Cada vez que pego na guitarra sei que é para criar coisas que estão na cabeça - ideias de riffs, ou uma nota bem recheada. Não quero dizer que estou a experimentar, mas o improviso veio de estar a pôr coisas em prática e esticá-las (via técnica, aparato), para ver até onde me consigo mexer.

E esses "outros"? De que modo (enquanto ouvinte) é que influenciam o teu trabalho?

De uma maneira profundamente apaixonada, porque quando gosto, gosto muito. Houve um concerto importantíssimo antes da gravação do Övöo: o concerto do Lichens na zdb foi avassalador, na medida em que estive a ver como é que alguém que opera num campo que me interessa consegue atirar-se de cabeça para o som e, aí, esticar uma ideia. Por outro lado, vejo-me a braços com um gosto tremendo por coisas de dimensão épica. Estás a ver o que é querer improvisar sobre drones com gosto por King Crimson?

Fodido. Mas não terão de ser campos diametralmente opostos. E gostar de King Crimson não faz (ou não devia fazer) mal a ninguém.

Na verdade, vem muita coisa de um fascínio por coisas pomposas, extáticas. Popol Vuh e Barn Owl. Dois bons exemplos de coisas que gosto muito e bons exemplos do dilema que é querer fazer objectos musicais monumentais, mas que vivem de uma contenção e um trabalho minucioso. Talvez o improviso seja uma gestão de monumentalidade e minúcia.

Pegando naquela que parece ser uma palavra chave para o teu trabalho, como encaras a repetição? Enquanto súmula da racionalidade ou uma via para um certo (digamos) descontrolo que possa abrir novas portas?

Tem que ser uma via para um certo descontrolo. Estamos a falar de entidades que evoluem - repetem-se e alteram-se. O acto criativo é o estudo destas entidades impossíveis, e quando é bom, dá molho. Quero dizer (depois de ter estado uns tempos a racionalizar demais): Acho que a repetição não se enuncia obrigatoriamente em tudo. No meu trabalho, pode ser. É uma afinidade. Mas, quando estás a erigir estas estruturas, estás a loopar ideias na tua cabeça, e o que pões cá fora é o momento em que essas entidades dispararam para algum lado. A repetição favorece o ímpeto. É um paradoxo, mas são os paradoxos que fazem as ideias mudar.

Trata-se então de uma coisa processual. E o livre arbítrio? Acreditas nele na música?

Bom...a solução que encontro para conseguir responder "sim e não" é-me muito querida. mas sei que é rebuscada. Podemos pensar que a busca de uma frase "que fique bem com a outra" é uma coisa condicionada por uma grelha platónica de entidades sonoros, que se interrelacionam e daí, que não há livre arbítrio, porque estamos apenas a consultar uma tabuada de ressonâncias. Contudo, podemos conceber um desdobramento poli-dimensional desta tabuada e verificar que estamos a braços com uma infinitude de acções passíveis de ser tomadas. E todas são tomadas. A cena é que dado o colapso constante do tempo e do espaço, cada universo experiência apenas cada uma das soluções. Portanto, sim, há livre arbítrio - numa escala confortavelmente macro.

O que leva, acto contínuo, à tuas conjecturas em torno do multiverso epistemológico que tens vindo a revelar no teu blog Into the Inbetweenness of Real Numbers

Sim. Isso tem sido um dilema, sabes?

Açambarcar toda essa conjectura ao abrigo de um denominador comum?

Pois. Vamos ver como é de futuro. Acho que tudo isso está a precisar de se reduzir a gestos fundamentais.

Este novo lII = 207.8°, bII = ?56.3° é um desses gestos? Qual foi a sua génese e concepção?

Primeiríssima intenção: fazer um disco que consumasse um ano de guitarra depois do Övöo e aí, verificar em que é que param as modas, no que se refere ao que sei explorar na guitarra e reduzir formalmente essas conjecturas a um momento bruto. Na prática: pegar num grupo de ideias que tinha para a guitarra e criar uns quantos blocos que pudesse usar para construir uma peça inteira. Eu e o Cristiano (engenheiro de som da ZDB) gravámos vários segmentos e depois juntámo-los de acordo com uma noção (baça) de estrutura de modo a ver como é que esses blocos se sobrepunham (i.e.: que harmónicos de um segmento é que enaltecem os de um outro)

© Paulo Gomes

Neste ponto, qual o papel dos concertos que foste tendo depois da edição de Övöo até agora nesse processo, uma vez que tens tocado bastante?

Os concertos foram, de certeza (e eram, na minha expectativa e ansiedade), ocasiões de conjectura. Oportunidades para esticar a corda do material do Övöo e testar novas facetas de truques antigos. E claro, impor novas influências. Ou ver se "ah, afinal consigo fazer isto!"

Actividade essa que te tem levado a tocar com mais malta, como os ACRE (com Pedro Sousa e Gabriel Ferrandini) ou num caso mais específico com o Luís Lopes para um filme sobre lutas de grilos. De que modo é que estes "desvios" acabam por ser escapatórias para campos onde também venhas a sentir o tal "ah, afinal consigo fazer isto!"?

Bem, esses "desvios" despoletaram muita coragem para o trabalho solo. No caso de ACRE: tinha escarrapachada na cara a oportunidade de improvisar com uma bateria e um sax tenor. O que é que um gajo faz nessa altura? Expor ideias é uma das hipóteses, na prática. E depois ser confrontado com o ter que criar ideias na hora. A coisa não vive peremptoriamente de um regime pergunta/resposta, mas tocar assim impõe uma atenção e uma bravura para com as tuas ideias e as dos outros. Estranhamente, quando comecei a tocar com eles foi o momento em que decidi criar partituras gráficas para o meu trabalho a solo. E daí, racionalizar atitudes bem abstractas. No caso dos duelos de guitarra (com o Luís Lopes) a atitude era a mesma: estar à procura de ser capaz de ouvir um eterno presente. E manter a coisa inteligível (ressonante, vá), o máximo de tempo possível. Contudo, esse duelo está enraizado numa ideia que tem como base a violência e o duelo gratuito. Neste caso, a experiência foi extática e aterradora, porque efectivamente a premissa estava a ser posta em prática. Noutras vezes em que fiz duelos de guitarras, a ideia era mais confortável porque partia da exploração do pathos das guitarras.

Já que referiste o lado gráfico, e porque se trata de uma parte extremamente importante em toda esta conjectura, qual o papel dele enquanto mediador no processo musical? Precede-o? Ou é consequência dele?

Precedeu-o. Quis partir de uma lista de procedimentos que racionalizasse um processo exploratório. Ou seja, quis criar uma partitura em que estava a dizer: "ok, é assim que ages de modo a que te vejas obrigado a atentar nos momentos em que a ideia vai evoluir". Tenho que dizer que é tudo muito bonito, mas corre o risco de ser muita parra e pouca uva - a partitura lá está, como lista de procedimentos. Ficou enunciado. Mas colapsar esse contínuo (que se quer sempre indigesto) numa única lista de procedimentos é bem capaz de ser uma grande estupidez, porque empobrece a criação num historicismo muito perigoso. Vamos ver. Ainda sou um bocado imberbe nessas coisas.

Neste momento, resvalou-se para um diálogo inconclusivo, em torno de matérias tão dignas e intrigantes quanto a metodologia, o infinito e o Netori/The Hashigakari Chord de Catherine Christer Hennix, mas que iria dispersar em demasia esta entrevista do seu cerne. Adiante:

Tendo em conta essa transversalidade, a auto-edição é uma escolha ou uma necessidade?

É uma escolha e, para já, uma necessidade. Sem bem que quero reeditar este disco numa editora. Pelo menos, penso que pode ser uma boa arma de arremesso.

Depois do boom que se sentiu circa 2004/5 em Portugal por força de bandas como Loosers, Frango ou CAVEIRA, o ritmo de edições parece ter abrandado. Como vês esse panorama actualmente?

Acho que isto está muito bonito. A sério. Há, para mim, um sem número de projectos bons e novos que estão a marcar 2010 e 2011. Pega no Rescaldo como bom exemplo do que está a passar, por exemplo.

E lá fora?

Err...mais ou menos. Acho que se calhar não tenho estado muito atento. Sigo com fervor as coisas dos Barn Owl, e descobri há pouquíssimo tempo o Jefre Cantu Ledesma.

Alguma epifania mais ou menos recente?

Estou agora a ler o Oswald's Tale do Norman Mailer. Gosto muito deste registo jornalístico dele. É o livro mais politizado que alguma vez li. O concerto do Tetuzi Akyiama também foi uma epifania. E o do senhor Daniel Higgs. Outras coisas bonitas: descobrir que existe no universo um cold spot. Um sítio onde...não há universo.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com

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