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Filipe Felizardo
Conjecturas e refuta√ß√Ķes


Primeiramente reconhecido por uma barba imponente e por um trabalho louv√°vel enquanto artista pl√°stico (s√£o dele alguns dos mais belos cartazes feitos para a ZDB), Filipe Felizardo veio-se a revelar, acima de tudo, como um dos nomes mais interessantes da m√ļsica mais explorat√≥ria feita por c√°. Tendo tocado um pouco por todo o lado ao longo do ano passado, Felizardo tem vindo a maturar as premissas que se reconheciam em √Ėv√∂o √† frente de todos aqueles que se interessam minimamente. √Č sempre bonito assistir ao crescimento aqui e agora. Quando interessa. Em v√©speras dos concertos de lan√ßamento de lII = 207.8¬į, bII = ?56.3¬į em Lisboa este s√°bado no espa√ßo Kolovrat 79 (com Wooden Wand) e, no dia seguinte numa matin√©e na Cooperativa Cultural Barreirense, Felizardo acedeu a conversar apaixonadamente do po√ßo sobre as coordenadas que levam a um cold spot no Universo (atente-se no t√≠tulo do novo √°lbum), repeti√ß√£o e da coabita√ß√£o entre o drone e os King Crimson. A convergir num Infinito, se poss√≠vel.
Embora j√° tivesses passado por outros projectos, o teu nome enquanto m√ļsico come√ßou a ser mais not√≥rio com os H√§sqvarna. Fala-me de todo o o teu processo enquanto m√ļsico at√© l√°, e de que modo √© que a experi√™ncia em H√§sqvarna serviu de alavanca para explorares algo a solo.

Os H√§sqvarna resultaram de uma m√£o cheia de coincid√™ncias o Petrucci tinha estado fora de Lisboa por muito tempo. E quando voltou, para a√≠ em 2006 est√°vamos os dois preparados para fazer m√ļsica juntos com vista a criar uma paisagem sonora para um trabalho meu, uma enciclop√©dia para um local imagin√°rio. A coisa nessa altura era um bocado mim√©tica. m√ļsica pretensamente grandiosa para imagens que se queriam tamb√©m grandiosas. A composi√ß√£o era dos dois (e chegou a tentar ser mais, duas guitarras e duas baterias ), mas vinha de umas inten√ß√Ķes minhas de, pela 1a vez na vida, estar a querer construir "pe√ßas". Da√≠ para a cena a solo...o Petrucci ausentou-se de novo, e eu comecei a equipar-me com mais pedais. e a tocar sozinho, pois. A√≠ n√£o tinha rem√©dio sen√£o finalmente jamar as tais pe√ßas que tinha na cabe√ßa. A solu√ß√£o parecia ser pegar nos meus riffs e tentar lev√°-los para uma situa√ß√£o em que n√£o fossem precisas duas guitarras. At√© 2006..uma primeira banda, uma coisa de escola que deixa saudades a todos os envolvidos: o Bonanza. Eu, o Cl√°udio Fernandes, o √ďscar Silva, o Ricardo Martins, e o Ruben Vilas. Uma tentativa e impingir stoner a n√≥s mesmos. Todos, excepto eu, estavam ligados a bandas um pouco fechadas no dillinger escapismo. Depois disso, os My Legs, Se√Īor. Entretanto, conheci o Petrucci. Toc√°mos um vez juntos e depois s√≥ nos vimos 3 anos depois. Na verdade, a cena tem sido essa, tocar 5 dias seguidos de ano a ano [risos].

E de que modo √© que √Ėv√∂o √© reflexo dessas primeiras "pe√ßas". Houve um esfor√ßo consciente para apresentar uma obra acabada ou presidiu a tudo isso o risco da improvisa√ß√£o?

Bom, n√£o sei muito bem quando decidi que improvisaria. O √Ėv√∂o vem de um talvez longo fasc√≠nio com o drone.

Cagaste nessas peças, então?

Bom, ainda uso uns riffs...deixa-me pensar um bocadito. Acho que o que decidi para comigo é que tinha um leque de riffs à disposição e que eles, pela sua natureza me permitiam que os trabalhasse via repetição - numa de ver até onde é que eles vão: onde é que consegues apontar numa nota ou numa frase o sítio onde podes começar/inserir outra.

E de onde é que vem esse fascínio pelo drone? e quando é que se tornou comum no teu trabalho a solo a sua exploração?

J√° nos H√§sqvarna havia inten√ß√£o de deixar as notas soar - fossem elas quais fossem, graves ou agudas. Isso come√ßou a ser premente no trabalho a solo no momento em que me soube capaz de fazer coisas que pudessem expor essas situa√ß√Ķes. √Č claro que sei o que gosto de ouvir. Nos outros! No meu trabalho, isso tem que ser uma coisa feita com conta peso e medida. Cada vez que pego na guitarra sei que √© para criar coisas que est√£o na cabe√ßa - ideias de riffs, ou uma nota bem recheada. N√£o quero dizer que estou a experimentar, mas o improviso veio de estar a p√īr coisas em pr√°tica e estic√°-las (via t√©cnica, aparato), para ver at√© onde me consigo mexer.

E esses "outros"? De que modo (enquanto ouvinte) é que influenciam o teu trabalho?

De uma maneira profundamente apaixonada, porque quando gosto, gosto muito. Houve um concerto important√≠ssimo antes da grava√ß√£o do √Ėv√∂o: o concerto do Lichens na zdb foi avassalador, na medida em que estive a ver como √© que algu√©m que opera num campo que me interessa consegue atirar-se de cabe√ßa para o som e, a√≠, esticar uma ideia. Por outro lado, vejo-me a bra√ßos com um gosto tremendo por coisas de dimens√£o √©pica. Est√°s a ver o que √© querer improvisar sobre drones com gosto por King Crimson?

Fodido. Mas não terão de ser campos diametralmente opostos. E gostar de King Crimson não faz (ou não devia fazer) mal a ninguém.

Na verdade, vem muita coisa de um fasc√≠nio por coisas pomposas, ext√°ticas. Popol Vuh e Barn Owl. Dois bons exemplos de coisas que gosto muito e bons exemplos do dilema que √© querer fazer objectos musicais monumentais, mas que vivem de uma conten√ß√£o e um trabalho minucioso. Talvez o improviso seja uma gest√£o de monumentalidade e min√ļcia.

Pegando naquela que parece ser uma palavra chave para o teu trabalho, como encaras a repeti√ß√£o? Enquanto s√ļmula da racionalidade ou uma via para um certo (digamos) descontrolo que possa abrir novas portas?

Tem que ser uma via para um certo descontrolo. Estamos a falar de entidades que evoluem - repetem-se e alteram-se. O acto criativo √© o estudo destas entidades imposs√≠veis, e quando √© bom, d√° molho. Quero dizer (depois de ter estado uns tempos a racionalizar demais): Acho que a repeti√ß√£o n√£o se enuncia obrigatoriamente em tudo. No meu trabalho, pode ser. √Č uma afinidade. Mas, quando est√°s a erigir estas estruturas, est√°s a loopar ideias na tua cabe√ßa, e o que p√Ķes c√° fora √© o momento em que essas entidades dispararam para algum lado. A repeti√ß√£o favorece o √≠mpeto. √Č um paradoxo, mas s√£o os paradoxos que fazem as ideias mudar.

Trata-se ent√£o de uma coisa processual. E o livre arb√≠trio? Acreditas nele na m√ļsica?

Bom...a solu√ß√£o que encontro para conseguir responder "sim e n√£o" √©-me muito querida. mas sei que √© rebuscada. Podemos pensar que a busca de uma frase "que fique bem com a outra" √© uma coisa condicionada por uma grelha plat√≥nica de entidades sonoros, que se interrelacionam e da√≠, que n√£o h√° livre arb√≠trio, porque estamos apenas a consultar uma tabuada de resson√Ęncias. Contudo, podemos conceber um desdobramento poli-dimensional desta tabuada e verificar que estamos a bra√ßos com uma infinitude de ac√ß√Ķes pass√≠veis de ser tomadas. E todas s√£o tomadas. A cena √© que dado o colapso constante do tempo e do espa√ßo, cada universo experi√™ncia apenas cada uma das solu√ß√Ķes. Portanto, sim, h√° livre arb√≠trio - numa escala confortavelmente macro.

O que leva, acto contínuo, à tuas conjecturas em torno do multiverso epistemológico que tens vindo a revelar no teu blog Into the Inbetweenness of Real Numbers

Sim. Isso tem sido um dilema, sabes?

Açambarcar toda essa conjectura ao abrigo de um denominador comum?

Pois. Vamos ver como é de futuro. Acho que tudo isso está a precisar de se reduzir a gestos fundamentais.

Este novo lII = 207.8¬į, bII = ?56.3¬į √© um desses gestos? Qual foi a sua g√©nese e concep√ß√£o?

Primeir√≠ssima inten√ß√£o: fazer um disco que consumasse um ano de guitarra depois do √Ėv√∂o e a√≠, verificar em que √© que param as modas, no que se refere ao que sei explorar na guitarra e reduzir formalmente essas conjecturas a um momento bruto. Na pr√°tica: pegar num grupo de ideias que tinha para a guitarra e criar uns quantos blocos que pudesse usar para construir uma pe√ßa inteira. Eu e o Cristiano (engenheiro de som da ZDB) grav√°mos v√°rios segmentos e depois junt√°mo-los de acordo com uma no√ß√£o (ba√ßa) de estrutura de modo a ver como √© que esses blocos se sobrepunham (i.e.: que harm√≥nicos de um segmento √© que enaltecem os de um outro)

Neste ponto, qual o papel dos concertos que foste tendo depois da edi√ß√£o de √Ėv√∂o at√© agora nesse processo, uma vez que tens tocado bastante?

Os concertos foram, de certeza (e eram, na minha expectativa e ansiedade), ocasi√Ķes de conjectura. Oportunidades para esticar a corda do material do √Ėv√∂o e testar novas facetas de truques antigos. E claro, impor novas influ√™ncias. Ou ver se "ah, afinal consigo fazer isto!"

Actividade essa que te tem levado a tocar com mais malta, como os ACRE (com Pedro Sousa e Gabriel Ferrandini) ou num caso mais específico com o Luís Lopes para um filme sobre lutas de grilos. De que modo é que estes "desvios" acabam por ser escapatórias para campos onde também venhas a sentir o tal "ah, afinal consigo fazer isto!"?

Bem, esses "desvios" despoletaram muita coragem para o trabalho solo. No caso de ACRE: tinha escarrapachada na cara a oportunidade de improvisar com uma bateria e um sax tenor. O que √© que um gajo faz nessa altura? Expor ideias √© uma das hip√≥teses, na pr√°tica. E depois ser confrontado com o ter que criar ideias na hora. A coisa n√£o vive peremptoriamente de um regime pergunta/resposta, mas tocar assim imp√Ķe uma aten√ß√£o e uma bravura para com as tuas ideias e as dos outros. Estranhamente, quando comecei a tocar com eles foi o momento em que decidi criar partituras gr√°ficas para o meu trabalho a solo. E da√≠, racionalizar atitudes bem abstractas. No caso dos duelos de guitarra (com o Lu√≠s Lopes) a atitude era a mesma: estar √† procura de ser capaz de ouvir um eterno presente. E manter a coisa intelig√≠vel (ressonante, v√°), o m√°ximo de tempo poss√≠vel. Contudo, esse duelo est√° enraizado numa ideia que tem como base a viol√™ncia e o duelo gratuito. Neste caso, a experi√™ncia foi ext√°tica e aterradora, porque efectivamente a premissa estava a ser posta em pr√°tica. Noutras vezes em que fiz duelos de guitarras, a ideia era mais confort√°vel porque partia da explora√ß√£o do pathos das guitarras.

Já que referiste o lado gráfico, e porque se trata de uma parte extremamente importante em toda esta conjectura, qual o papel dele enquanto mediador no processo musical? Precede-o? Ou é consequência dele?

Precedeu-o. Quis partir de uma lista de procedimentos que racionalizasse um processo explorat√≥rio. Ou seja, quis criar uma partitura em que estava a dizer: "ok, √© assim que ages de modo a que te vejas obrigado a atentar nos momentos em que a ideia vai evoluir". Tenho que dizer que √© tudo muito bonito, mas corre o risco de ser muita parra e pouca uva - a partitura l√° est√°, como lista de procedimentos. Ficou enunciado. Mas colapsar esse cont√≠nuo (que se quer sempre indigesto) numa √ļnica lista de procedimentos √© bem capaz de ser uma grande estupidez, porque empobrece a cria√ß√£o num historicismo muito perigoso. Vamos ver. Ainda sou um bocado imberbe nessas coisas.

Neste momento, resvalou-se para um diálogo inconclusivo, em torno de matérias tão dignas e intrigantes quanto a metodologia, o infinito e o Netori/The Hashigakari Chord de Catherine Christer Hennix, mas que iria dispersar em demasia esta entrevista do seu cerne. Adiante:

Tendo em conta essa transversalidade, a auto-edição é uma escolha ou uma necessidade?

√Č uma escolha e, para j√°, uma necessidade. Sem bem que quero reeditar este disco numa editora. Pelo menos, penso que pode ser uma boa arma de arremesso.

Depois do boom que se sentiu circa 2004/5 em Portugal por for√ßa de bandas como Loosers, Frango ou CAVEIRA, o ritmo de edi√ß√Ķes parece ter abrandado. Como v√™s esse panorama actualmente?

Acho que isto est√° muito bonito. A s√©rio. H√°, para mim, um sem n√ļmero de projectos bons e novos que est√£o a marcar 2010 e 2011. Pega no Rescaldo como bom exemplo do que est√° a passar, por exemplo.

E l√° fora?

Err...mais ou menos. Acho que se calhar não tenho estado muito atento. Sigo com fervor as coisas dos Barn Owl, e descobri há pouquíssimo tempo o Jefre Cantu Ledesma.

Alguma epifania mais ou menos recente?

Estou agora a ler o Oswald's Tale do Norman Mailer. Gosto muito deste registo jornal√≠stico dele. √Č o livro mais politizado que alguma vez li. O concerto do Tetuzi Akyiama tamb√©m foi uma epifania. E o do senhor Daniel Higgs. Outras coisas bonitas: descobrir que existe no universo um cold spot. Um s√≠tio onde...n√£o h√° universo.


Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
10/02/2011