ENTREVISTAS
Oneohtrix Point Never
Interstellar reverb
· 12 Abr 2010 · 23:54 ·
© Wajimacallit
Se, por um lado, não deixa de ser verdade que esta tendência recente para o aparecimento de cada vez mais projectos interessados em filtrar a sonoridade dos sintetizadores analógicos através da estética DIY vingente começa já a trazer alguns dissabores, não deixa de ser também facilmente constatável o papel de esteta de Daniel Lopatin em tudo isso. Longe do mero pastiche, Lopatin tem vindo enquanto Oneohtrix Point Never a musicar os sonhos difusos de qualquer pessoa que tenha crescido na década de 80. Entre referências subliminares à cultura popular, a conceitos pré-cognitivos ou ao conceptualismo low cost, tem vindo a trilhar um percurso personalizado cada vez mais notório. Numa pausa da tese de mestrado, conseguiu responder-nos a algumas perguntas, agora que se prepara para a estreia em palcos portugueses no próximo dia 24 de Abril na Galeria Zé dos Bois.
A tua música está definitivamente impregnada em sentimentos de nostalgia e evoca memórias refractadas da cultura popular dos anos 80. Tendo em conta esta ideia, qual a tua posição em relação à definição de Hypnagogic Pop?

Julgo que os críticos musicais são calados por fãs e músicos, mas não vejo necessariamente nada de hipócrita na música, está sempre ligado a modos de a pensar. Basta olhar para o design da tua loja de discos habitual. Os anos 80 foram um Renascimento tecnológico para as artes; tudo aquilo que a música de dança e pop é hoje reflecte as mudanças paradigmáticas dessa altura. O meu interesse na música dos anos 80 é bem menos nostálgico do que se poderia pensar; é mais antropológico. Aquilo que me entusiasma acerca da Hypnagogic Pop é o modo como ilustra que toda a música tem um potencial psicadélico, não apenas a “música psicadélica”

Quais são, então, as tuas influências principais? O que te levou até música inspirada pela kösmiche / new age / sci-fi?

Algumas das coisas de que gosto são discos de Jazz fusão com grande predominância de sintetizadores dos anos 70 e 80, Bach, DJ Premier, Sun Ra, Alice Coltrane, RZA, Peter Gabriel, JD Emmanuel, Nuno Canavarro, Cocteau Twins, Nic Raicevic, Oval, Sunn 0))), Haroumi Hosono. Adoro sintetizadores, por isso é natural que gravite em torno de discos orientados para eles.

A tua música é conscientemente desenhada para reflectir as ligações subliminares que se estabelecem entra a cultura popular e a mais underground.

Por vezes. Por outras tento fazê-lo propositadamente e falhei. É como tudo na verdade; tentas ao máximo fazer algo de que te possas orgulhar. Intelectualizá-la é usualmente um ponto de partida ou um um pensamento à posteriori, e pode frequentemente iludir. Mas, enquanto a estás a fazer, está apenas a fazê-la.

O teu projecto Games é particularmente enfático nessa ligação e mais próximo da estrutura de uma canção. Qual a motivação por detrás disto?

Games é uma equipa de produção. Queremos trabalhar com estrelas pop dar-lhes o tratamento Games. A motivação primordial é fazer a música mais viciante possível.

© NateDorr

O que acreditas que levou a uma mudança de paradigma de projectos de noise sem referências à cultura popular (e grande parte das vezes insurgindo-se contra esta) para toda esta celebração do seu lado mais trashy? Acreditas que poderá ser uma questão geracional?

Existia muito em jogo nos anos formativos do noise. Era uma guerra. Talvez ainda o seja, não faço ideia. Julgo que se deve ao aborrecimento. Muitos dos meus amigos cansaram-se de erguer o punho cerrado ao som de noise O TEMPO TODO. É agradável de modo doseado ou quando és um adolescente reprimido física e sexualmente. Mas a partir de um determinado ponto olhas em volta e vês que existem outras opções. Tecnicamente, não existe nada de errado com um género musical, mas o noise torna-se estranho para mim no seu modo didáctico de excluir tudo o resto. Incluir tudo é muito mais divertido.

Uma das definição que usei para a tua música foi pré-IBM, na medida em que parece preceder a construção em computadores, mas sendo ao mesmo obcecado com as suas possibilidades. Acreditas num vazio latente entre música mais analógica e aquela gerada por computadores?

Essa é uma bela definição, especialmente quando penso em faixas como “Pshysical Memory”, que é uma referência directa ao armazenamento de um disco rígido...mas, sim, mesmo quando estou “fora da rede” / a não usar sequenciadores mas, ainda assim, a trabalhar elementos de ritmo no tempo, sinto que estou a sugerir automatização sem que esta seja concretizada. Gosto de potencial e espaços intermédios e momentos de confusão dialéctica. Gosto de tudo aquilo que tem que ver com salas de espera ou purgatórios.

No processo de composição, tendes a procurar por um lado mais cerebral ou procuras uma certa ressonância emocional? Sentes que esta, está firmemente enraizada numa determinada conjectura?

Acho que são uma e a mesma coisa. Não sei onde um começa e o outro acaba. Não consigo discernir claramente aquilo que se está a passar comigo enquanto estou a compor. Estou apenas a experimentar e a divertir-me a ver se coisa resulta.

© HallieNewton

Betrayed in the Octagon, Russian Mind e Zones Without People parecem estar subordinados a um conceito particular. Poderias clarificar os conceitos de cada uma?

O primeiro disco (Betrayed in the Octagon era sobre o meu afastamento de música composta com a ajuda de muita edição de computador e começar a tomar contacto com a música de sintetizadores analógica enquanto experiência holística. Não queria que as tecnologias modernas mitigassem. Queria voltar atrás no tempo e entrar em contacto com os meus instrumentos antiquados como um modo de fazer reset a mim próprio. Os sintetizadores pelos sintetizadores. Octagon é uma suite de noise espacial que consiste em duas longas peças drone e alguns temas estranhos para a depressão cósmica. É também um álbum tributo ao John Carpenter e ao Danny Wolfers, que ambos uma grande influência.

Zones Without People continua onde Octagon acabou (tipo o segundo Halloween a dar seguimento ao primeiro), mas para mim é mais terreno. Utilizei conscientemente influências new age, noise e formatos mais académicos de música sintetizada como que para contar uma história pan-canónica da música de sintetizadores. ZWP ainda está algo entranhado no sentimento dos “sintetizadores pelos sintetizadores”, mas já luta para fazer colapsar todos esses géneros de música de sintetizadores numa só super viagem.

Russian Mind é acerca de integrar tudo aquilo que aprendi nas minhas viagens pelo tempo, e trazer de volta a edição em computador como um modo de chegar a termos depois de seis anos a fazer música. Para mim, é o mais pessoal, e surgiu de forma orgânica.

Sentes que estes discos podem ser unidos de modo coerente em Rifts? Como se partilhassem algum tipo de ligação?

Acho que essa ligação sou eu, o meu gosto e o modo como componho e edito.

Quais os teus próximos lançamentos?

Tenho álbum para sair na eMego em Junho chamado Returnal. E estou a compilar uma antologia de echo jams em CDR na Upstairs. Também devem sair entretanto dois splits de 7” e 12” com Gatekeeper e The Magic State.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com

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