DISCOS
Astronauta Desaparecido
Sound & Fury [Reedição]
· 13 Set 2018 · 16:45 ·
Astronauta Desaparecido
Sound & Fury [Reedição]
2018
A Besta
Astronauta Desaparecido
Sound & Fury [Reedição]
2018
A Besta
Um OVNI da música experimental portuguesa.
Astronauta Desaparecido surgiu como projecto musical promovido por dois irmãos, Rui Eduardo Paes e Carlos Paes. O primeiro - REP - é um reconhecido jornalista ligado à divulgação e crítica musical e musicólogo, com extensa obra publicada, ocupando actualmente o lugar de editor do site Jazz.pt. O segundo - CP - é designer e infografista no Expresso, faz fotografia e tem desenvolvido trabalho musical de forma continuada: depois dos Napalm Climax e dos Duplex Longa nos 80's e 90's, nos últimos anos tem tocado com o Presidente Drógado e os Mind Reset.

Em 1991 o Astronauta Desaparecido editou o seu único registo sonoro, "Sound & Fury", em formato cassete, publicado pela editora Tragic Figures. Na altura da sua edição, sem a possibilidade de disseminação das plataformas online, este OVNI musical terá passado despercebido, tendo a sua divulgação ficado limitada a um pequeno nicho. Objecto obscuro e difícil de encontrar, este disco é agora reeditado em CD e formato digital, quase trinta anos após a sua gravação.

Este disco mostra o duo a explorar uma música experimental, em aproximação ao industrial, por vezes soando quase a metal mais pesado, por vezes explorando uma toada mais atmosférica/ambiental, mas sempre com uma atitude hardcore/punk. Como ferramentas de trabalho, o duo serve-se sobretudo dos dispositivos electrónicos acessíveis na época (1991), ou seja, gravadores de cassete, gira-discos, rádio e aparelhos de televisão, além de outros instrumentos mais "musicais": drum machine, processadores de som, percussão, flautas e vozes.

A dupla trabalha processos de corte, colagem e combinação de camadas a partir de "found sounds", sons recolhidos de diversas fontes que são trabalhados e processados. Deste processamento de som, resulta uma amálgama sonora suja, agressiva. Apesar das ferramentas limitadas, o duo embarcou na utilização pioneira da electrónica, marca fundamental no seu processo criativo. O título do álbum rouba William Faulkner, e além da literalidade (a exploração do som e particularmente a fúria sonora), a multiplicidade de vozes de Faulkner encontra aqui réplica, na diversidade de elementos sonoros que são sobrepostos em camadas.

Os fãs de experimental/industrial, que certamente terão passado ao lado desta pérola de música desafiante e inclassificável, têm aqui a possibilidade de descoberta. Quase três décadas depois, o Astronauta reclama o seu lugar na história da música experimental portuguesa, a par de grupos que definiram a cena experimental portuguesa, como Telectu, Plexus, Osso Exótico ou os fundadores da improvisação livre. Passados todos estes anos a fúria continua viva.
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com
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