DISCOS
MC Bin Laden
É Grau EP
· 19 Jul 2017 · 18:03 ·
MC Bin Laden
É Grau EP
2017
True Panther Sounds


Sítios oficiais:
- MC Bin Laden
- True Panther Sounds
MC Bin Laden
É Grau EP
2017
True Panther Sounds


Sítios oficiais:
- MC Bin Laden
- True Panther Sounds
'Tá tranquilo, 'tá favorável.
"Isto é o nosso punk rock", diriam os GY!BE se tivessem nascido numa favela do Rio de Janeiro.

Antes que as cabecinhas conservadoras venham amolar o juízo de quem profere tal declaração (se é que tal gente ainda existe no sacrossanto ano de 2017), notem o seguinte: tal como o punk, o baile funk foi criado por um grupo de respeitáveis marginais a quem a sociedade decidiu não dever porra nenhuma; tal como o punk, o baile funk é construído a partir de uma base mínima - os três acordes substituídos por um único ritmo ou sample -, permitindo que qualquer pessoa, em qualquer lugar, possa compor as suas próprias canções sem rodeios ou vergonhas; tal como o punk o foi, o baile funk é odiado por inúmeros seres que se esquecem de que, muitas vezes, estamos neste mundo apenas para beber umas jolas e passar um bom bocado.

E, tal como o punk, o baile funk já esteve muito na moda. Recuemos até aos primeiros anos do milénio, quando em certos e determinados liceus deste Portugal existia quem cantasse - e exaltasse - a genialidade de temas como "Eguinha Pocotó", de MC Serginho, "Cerol Na Mão", do Bonde Do Tigrão, ou "Atoladinha", que não merece link próprio e sim o da explicação do enormíssimo Tom Zé. Passam-se alguns anos e o baile funk chega ao circuito indie, através dos serviços de curadoria prestados por M.I.A. e Diplo e pela variante burguesa assinada pelos Bonde Do Rolê. Eis-nos agora, no final da segunda década do novo milénio, e o género volta a ressurgir de forma ainda mais assombrosa e sonoramente minimal. A culpada? A Internet, pois claro.

Foi através da Internet que muitos dos novos nomes do baile funk se tornaram populares na enorme favela global, até porque muitos deles se tornaram verdadeiros memes vivos, autores de chavões que entram no grande glossário da língua portuguesa e são proferidos por milhares de pessoas, incluindo as que nunca os escutaram. Mas tornaram-se populares, também, por um outro motivo: agora é possível traçar um paralelo do género com o footwork, muito mais consagrado crítica e mediaticamente. Por outras palavras, agora já todos gostam - inclusive aqueles que, em tempos idos, jamais pegariam numa canção do género, nem sequer com pinças.

Isto para falar, finalmente, de MC Bin Laden, aquela que parece ser a primeira grande estrela pop saída do mundo do baile funk. Porque, lá está, viralizou na Internet, com "Tá Tranquilo, Tá Favorável" e sua dança estupidamente gloriosa. E porque teve a sorte de, em poucos anos, passar da cena paulista para os grandes palcos internacionais pela mão de um senhor chamado Skrillex e por um omnipresente Diplo. E porque o ouvimos e o repetimos, e o ouvimos novamente, e isto faz-nos rir, faz-nos dançar, sorvemos avidamente da simplicidade da coisa como sorvemos aquando dos Ramones ou dessa boy band chamada Sex Pistols. É a epítome da música popular - pop do povo e para o povo, sem grandes produtores ou liricistas a construí-la em laboratório.

É Grau, EP que contém seis dos seus singles mais famosos lançados ao longo dos últimos anos, é a sua primeira porta de entrada no mundo discográfico norte-americano, já depois de ter sido convidado a actuar no MoMA. Não resultará enquanto disco, mas sim enquanto best of de um nome que pouco mais tem a provar que não a sua alegria de viver - porque a Internet não morre, e os memes também não. Dentro de meio século, alguém ainda se lembrará que durante alguns anos, na segunda década do novo milénio, estivemos todos tranquilos e favoráveis. Alguém se lembrará que MC Bin Laden deu, sem espinhas, o melhor concerto que Portugal viu em 2016. Alguém se lembrará que "Vai Virar Puteiro", que há mais de 40 moto acelerando a marginal e que "BOLOLO" não consta de porra de dicionário nenhum.

"Isto é o nosso punk rock, pois claro. É o momento em que a favela desce o morro pintada de ouro e invade a cidade num enorme arrastão musical, tendo como objectivo inspirar o mundo da mesma forma que o punk o inspirou, possibilitando novas linguagens, novos talentos ou novas revoluções ideológicas. Porquê? Porque qualquer idiota podia fazer esta merda, e seria igualmente fascinante, seria igualmente uma expressão cultural do indivíduo de uma determinada casta ou faixa etária. É um anti-disco, porque mais do que isso é um mito, é algo que procuramos que seja palpável mas que ainda não conseguimos compreender por faltar anos e anos de evolução ao nosso cerebelo. É algo que, se o mundo o ouvisse, terminaria com todas as guerras pelo simples facto de que é bastante difícil disparar uma arma com o polegar e o mínimo esticados.

É Grau é o segundo melhor EP da história da humanidade. O primeiro: O Juno-60 Nunca Teve Fita.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
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