Melhores singles dos 00
· 04 Set 2009 · 01:00 ·
© Teresa Ribeiro

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The Avalanches Since I left You

À primeira audição a voz feminina soava incrivelmente a uma Kylie Minogue em MDMA à beira da perfeição. Mas ao pensar um pouco, não podia ser a bela australiana Kylie. Não, apesar de já ter surpreendido o mundo com um dueto fantástico com Nick Cave, ou com a primeira grande electro-transformação de uma diva pop (primeiro que a Madonna), não. Nunca esteve à beira, ou muito menos, chegou à perfeição. Ainda zonzo pela magia pop misteriosa deste single vem a descoberta que a única coisa comum é o facto desta canção provir da mente engenhosa de um colectivo de DJs tão oceânico como a Kylie. Colectivo de ex-noise punkers de Melbourne que soube como ninguém partir do legado estético-sonoro de uns irrepreensíveis e até à data irrepetíveis Saint Etienne dos dois primeiros álbuns de 90's. E o que parecia irrepetível repetiu-se. A capacidade de uma mescla pop electrónica de conto de fadas se apoderar como droga recreacional do nosso corpo a transbordar de coração em avalanches de sorrisos para aqui e para ali. MDMA sintetizado em CD, vinil e mp3. A ciência de com samples sintetizar o “feelin' good, great and even better”, a “paradisology”, ou que lhe quiserem chamar. Nuno Leal
The Rapture House of Jealous Lovers

Marco do revivalismo pós-punk dançável de início deste século, os nova-iorquinos The Rapture entraram a matar em 2003 com este single. Uma espécie de "House of the rising son" para os jovens do século XXI, histéricos e nervosos até à medula, mexendo furiosamente as ancas ao som do baixo proeminente na linha de Gang of Four a tomar conta da panóplia de batucadas em fundo, muito revivalista de uns Liquid Liquid. Ainda para mais tudo acompanhado por uma guitarra também muito Fire Engines, James Chance and the Contortions ou Mission of Burma, estando estes últimos sem dúvida presentes em cada poro da canção. Revivalismo total, de qualidade, de coisas boas algo esquecidas no passado, tão à frente do seu tempo que agora soam melhor que nunca. Quando é assim, merece o o seu espaço. Pode não ser o cúmulo da originalidade, mas este single, saído na ultra-dançável DFA, promete e cumpre. Agora o que irrita é haver gente que acha que isto é a invenção da roda. Grupos como The Rapture e outros, devem servir como trampolim para novas descobertas e não para activismo "geek" bacoco. Os miúdos não podem ficar só com isto. Se gostam, vão lá investigar finais de 70's e 80's para ver o que é mesmo bom. Nuno Leal
T.I. What you Know

Foram vários os momentos pós-King em que o rapper de Atlanta tentou emular a confiança de “What You Know”, mas nunca T.I. conseguiu repetir a proeza sem resvalar para uma arrogância dispensavelmente banal (T.I. Vs T.I.P. é prova disso mesmo). Revelando uma destreza assinalável numa entrega apropriadamente semi-cantanda, o auto-intitulado “King Of The South”, leva “What You Know” por intricados jogos de palavras e um uso cativante do melodioso e pausado sotaque sulista, enquanto as cascatas de sintetizador o transportam para esse mesmo estatuto. Revisitando “Gone” dos Impressions, DJ Toomp assina uma das melhores produções vindas do Southern Rap, sem que esta alguma vez eclipse a prestação do T. I.. Pelo contrário, as batidas densas de “What You Know” parecem apenas servir os propósitos do rapper. Que aqui apontam baterias para o panteão. E raros são estes casos em que toda a grandeza de um artista consegue ser tão bem consensada numa “simples” canção. Bruno Silva
The Streets Has It Come To This?

Mesmo que inevitavelmente associado à euforia grime, intimamente por via da “Nite Nite” com o Kano ou remix para “Get Out My House“, e numa questão genealógica pela partilha de códigos 2 Step e UK Garage, nunca coube a Mike Skinner fazer o contraponto branquelas das temáticas violentas ou territoriais que faziam o grosso da produção negra de E3. “Has It Come To This” não só marcou um passo evolucionário no UK Garage (pense-se também na So Solid Crew), como trouxe a todos os geezers uma voz com a qual se identificavam. Tardes ociosas de torpor pedrado em frente à consola, circular pela cidade em busca das melhores drogas, ténis/sapatilhas, desinteresse generalizado, o Original Pirate Material. A Londres multicultural século XXI vista pelos olhos cínicos de uma classe média profundamente branca (que viria a ser posteriormente imagem de marca para tantos pós-adolescentes como Lily Allen), teve no prodigío deste rapaz de sotaque cerrado e língua afiada o seu primeiro grande messias. Até hoje ainda ninguém conseguiu repetir a façanha de modo tão brilhante como em “Has It Come To This?” Bruno Silva
The Strokes Hard to explain

The White Stripes Seven Nation Army

Transformada em cântico para várias claques, "Seven Nation Army" permanece como um dos bizarros singles de sucesso da década. Em plena euforia de regresso do rock’n’roll, os White Stripes, um duo impecavelmente vestido, com um vocalista (Jack White) óptimo, apareceram com uma canção que é só uma linha de guitarra (que cumpre também as funções de baixo), entre o mínimo e pouco mais que mínimo, e uma bateria básica. É tão simples e despretensiosa que não devia funcionar, e muito menos devia ser um êxito, mas a sua força reside precisamente nessas características – afinal de contas, as mesmas que fazem do rock’n’roll uma música ainda excitante, tantos anos depois da sua fundação. Ao mesmo tempo, e pelas mesmas razões, é um dos momentos pop da década, como prova a sua adopção pela massa futebolística. Pedro Rios
Ty Closer

Acompanhado por Maceo, dos suprageniais De La Soul, o rapper britânico Ben Chijioke (a.k.a. Ty) criou um single que é mel. Lançado para promover o seu terceiro longa-duração (com o mesmo nome), o tema tem a coolness de quem acaba de dar um mergulho na água morna de uma piscina num dia de calor abrasivo. “Some days I think I’m getting closer, sometimes I think I’m getting closer, somehow I think I’m getting closer”, diz o refrão, e cada vez mais Ty se vai aproximando de um climax que não chega (nem é preciso, fica óptimo assim mesmo). A estrutura rítmica é leve, mas eficaz, abrindo espaço para as letras que vão encaixando com a eficácia de peças Lego. A produção (sóbria, concisa e sofisticada) confirma a máxima “less is more” - às vezes as melhores ideias são as mais simples. Com uma impecável descontração, Ty assina um belíssimo tema onde o hip-hop navega em toda a segurança pelas ondas mais calmas. Nuno Catarino
Vampire Weekend Mansard Roof

Era provavelmente Janeiro de 2008. Os Vampire Weekend ainda não tinham álbum e tinham apenas lançado dois singles em vinil de sete polegadas, mas o burburinho era tanto que a Rough Trade só deixava comprar um por pessoa. Pus a tocar "Mansard Roof" no Mini-Mercado. As pessoas dançaram como não tinham dançado quando, uns meses antes, experimentei "A-Punk" noutro bar. Ricardo Manaia, um dos sócios do bar e DJ de todo o tipo de música de dança e de rua como DJ Manaia, ao ouvir a batida da canção, vira-se para mim e pergunta: "O que é isto? Isto é kuduro. Quero." É essa batida, que dizem existir dentro de todos os africanos, tocada por miúdos brancos com gosto por música erudita, que os mostra como algo diferente do Graceland do Paul Simon, mas que existe exactamente no mesmo contínuo. Por falar nisso, a reacção das pessoas foi mais ou menos a mesma que qualquer faixa desse álbum espoleta. Rodrigo Nogueira
Vincent Gallo Honey Bunny

Yeah Yeah Yeahs Maps

Em 2003, com tanta submissão ao pós-punk e revivalismos vários, os Yeah Yeah Yeahs apareceram como uma brisa fresca numa travessia pelo deserto; e “Maps”, como uma canção incrivelmente honesta e contra-corrente, demasiado simples para ser verdade. Já tínhamos levado na cara com a brutalidade dos EPs Yeah Yeah Yeahs e Macine - sobretudo em “Art Star” –, o que desconhecíamos era este lado delicado e terno de Karen O e companhia. Há muito mais por onde celebrar em Fever to Tell, o disco de estreia, mas “Maps” é de uma elevação diferente; estas guitarras reluzentes e fúria contida deixam cicatrizes muito facilmente. Escrita sobre o relacionamento entre Karen O e Angus Andrew (dos Liars), “Maps” conseguiu a proeza de obter o galardão de melhor canção alternativa de amor de sempre, atribuído pelo NME. Catalogações à parte, esta canção é de deixar as pedras da calçada alagadas de lágrimas doces. André Gomes
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