Melhores singles dos 00
· 04 Set 2009 · 01:00 ·

© Teresa Ribeiro


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M.I.A. Boyz
Kala, o magnífico álbum de M.I.A. editado em 2007, elevou o produtor Switch a uma posição de destaque na cena electrónica internacional – está agora de regresso à ribalta com os alucinados Major Lazer, parceria com Diplo, produtor com características comparáveis e que também trabalhou com M.I.A.. "Boyz", um dos vários singles memoráveis de Kala, pega em várias músicas de dança de diversas latitudes, como a gaana e a soca, à luz do hip-hop e da canção pop. A voz travessa de M.I.A., embaixadora desta tendência global, que inclui os nossos Buraka Som Sistema, faz o resto. O que sai desse golpe de génio é um elogio à festa, um doce pop e a maravilhosa síntese que fez de Kala um dos discos mais idiossincráticos da década. Pedro Rios
M.I.A. Paper Planes
Entre Londres e o Sri Lanka, M.I.A. antecipou a alter-modernidade de Nicolas Bourriaud. Pela criativa fusão de géneros, por essa eliminação de fronteiras, pela junção de sons “do mundo” com electrónica das pistas de dança ocidentais, pela mistura do seu “hip hop criativo”, Mathangi Arulpragasam poderá ser facilmente enquadrada nessa visão do mundo que vê no caos do mundo contemporâneo uma oportunidade para a criação original. O terceiro single de Kala - produzido pelas mãozinhas sábias de Diplo e Switch - rebentou a uma escala global, sendo ainda exponenciado pelas imagens do filme Slumdog Millionaire, o “underdog” vencedor dos Óscares 2009. A canção é pura M.I.A. (primeiro verso: “I fly like paper, get high like planes”), a base rítmica é emprestada pelos Clash (sample de "Straight to Hell") e o refrão, feito de disparos e sons de caixas registadoras, é irresistivelmente viciante. Faixa obrigatória, na sua originalidade e excesso. Nuno Catarino
MGMT Time to Pretend
Os The Management conseguiram uma melodia tão contagiante como a Gripe A. Daquelas que se revelam em segundos, na brincadeira inicial incrivelmente simples de um teclado que se tornou êxito instantâneo em qualquer pista de dança ou concerto, como aconteceu numa das melhores actuações do Optimus Alive de 2008. E se há músicas bem-sucedidas que não lembram nem ao diabo (infelizmente a maioria), outras há que merecem todo o sucesso que têm pelo mundo. "Time to pretend" é uma delas. E foi a custo, com uma nova roupagem, um pouco menos electro que a original de 2005. Em 2008 lá chegou à fama, na sua condição totalmente infecciosa, que alastra dos pés à cabeça com postura de hino geracional. Uma canção destes tempos, algo mainstream, electro e rock q.b., pop a la Flaming Lips, e sobretudo uma letra meio ingénua mas muito honesta. Sim, porque às vezes apetece cagar mesmo para isto tudo, fazer música, ganhar algum dinheiro, encontrar umas modelos para casar, ir para Paris, dar no cavalo e foder umas estrelas. Auto-destruir-nos religiosamente segundo o gospel "Live fast, die young" e fingir que está tudo bem. Nuno Leal
Missy Elliott Get Ur Freak On
Da mera utilização das tablas ao pára-arranca delas, "Get Ur Freak On" é basicamente um dos momentos mais gloriosos de Timbaland. Eram tempos mais simples, em que o rapaz ainda era gordo e estava ocupado a inventar o futuro (não o faz para aí desde quando, 2006?). E a Missy, uma diva se alguma vez houve uma diva de rap/r&b no mundo, em grande forma por cima. É a voz versátil e elástica dela, mais que as palavras – como tanto na vida – e a batida estranha e polirrítmica que serve a dança. Era o futuro e ainda é estranho oito anos dpeois. Aparece por aí de vez em quando, e a reacção é sempre a mesma na pista de dança. Já para não lembrar que Timbaland era praticamente intocável em 2000/2001, com canções como esta, "Try Again" da Aaliyah ou "Ugly" do Bubba Sparxxx. Da mera utilização das tablas ao pára-arranca delas, "Get Ur Freak On" é basicamente um dos momentos mais gloriosos de Timbaland. Eram tempos mais simples, em que o rapaz ainda era gordo e estava ocupado a inventar o futuro (não o faz para aí desde quando, 2006?). E a Missy, uma diva se alguma vez houve uma diva de rap/r&b no mundo, em grande forma por cima. É a voz versátil e elástica dela, mais que as palavras – como tanto na vida – e a batida estranha e polirrítmica que serve a dança. Era o futuro e ainda é estranho oito anos dpeois. Aparece por aí de vez em quando, e a reacção é sempre a mesma na pista de dança. Já para não lembrar que Timbaland era praticamente intocável em 2000/2001, com canções como esta, "Try Again" da Aaliyah ou "Ugly" do Bubba Sparxxx. Rodrigo Nogueira
Nelly Furtado Promiscuos Girl
Sabíamos que ela era como um pássaro; o que não fazíamos a mínima ideia é que esta ave sabia e podia voar desta maneira, soltar-se das suas amarras e fazer música pop que deixasse marcas. Das canções inofensivas e doces do Rock FM, passou para as canções lascivas e abençoadas por Timbaland e, por isso, absolutamente recomendadas para a pista de dança. Fez-se mulher e a sua música ganhou corpo. Não é caso único em Loose mas “Promiscuos Girl” é o que se destaca mais; o jogo de ancas de Nelly no videoclipe da canção é tirado a decalque das movimentações sensuais sugeridas e proporcionadas pela produção entusiasmante do maestro Timbaland; a voz da luso-canadiana é cereja em cima do bolo, o estimulante que podia faltar para levar “Promiscuos Girl” para o nível seguinte. Nelly Furtado pode nem fazer mais nada na sua vida mas já conseguiu aqui o seu momento de ouro. Afinal há só vantagens na promiscuidade. André Gomes
Outkast Hey Ya!
Uma vez um amigo, bêbedo, disse-me que "Hey Ya!" não era nada. "Isto não é nada. É sempre a mesma melodia, não muda nada, nem sequer é rap. Rap é ritmo e poesia. Isto não é nada disso." Errado, João, rap não vem de "rhythm and poetry", vem do verbo "to rap". E quando o Tom Jobim escreveu um samba de uma nota só em que só mudavam os acordes à volta? Onde é que estavas tu a dizer que aquilo não é nada? É, sem qualquer sombra de dúvida, uma das grandes canções pop dos anos 2000, especialmente pela sua transversalidade. Não há quase ninguém que não goste, tirando um ou dois amigos bêbedos. Ainda hoje parte qualquer pista de dança ao meio. Experimenta. "Shake it like a Polaroid picture?" Já não há Polaroids, mas a incitação à dança fica para sempre. Não é nostalgia, é ser brilhante. Rodrigo Nogueira
Panda Bear Bros
"Bros" representa anos de alento para o benfiquista desgraçado: o Porto podia até ter Lucho González e Lisandro López, mas o Benfica tinha Panda Bear. Lisboa foi, aliás, a cidade que assistiu ao crescimento de Person Pitch em tempo real e “Bros”, apesar da forte concorrência, é O single que melhor salienta as qualidades do álbum (e aquele que coincidiu com o seu lançamento). Maravilhado pelo alcance da música house e decidido a explorar o potencial da mixtape como fio condutor, Noah Lennox activa o “vai e vem” de motivos vários (entre o étnico e o festivo), sustendo depois a dança (e a colagem) com categórica utilização do eco e do delay. E o maior milagre de “Bros” é nunca parecer difícil ou excessivo durante os seus doze minutos e meio. Com uma visão desigual, Noah Lennox descobriu a ciência exacta para um hino de isolamento que parece abraçar o mundo inteiro. Miguel Arsénio
Panda Bear I'm Not
Porra, caia-me algo em cima se os segundos iniciais de "I’m Not" não são o pedaço musical mais bonito da década. Se não são, pelo menos andam lá perto. "I’m Not" é um dos mais brilhantes momentos do brilhante Person Pitch, obra-prima da aventura a solo de Noah Lennox dos Animal Collective. Faz-se de quê? Uma voz em loop, desligada da origem, transformada em drone, uma batida mínima, Lennox contido, a sussurrar, engolido pelo eco. Traz à memória o que há de mais líquido nas produções dub e as propriedades terapêuticas do som em repetição contínua, matéria em que Person Pitch é um autêntico tratado (é fascinante a forma como Noah Lennox emprega a técnica do sampling como um produtor de hip-hop num contexto onde ela habitualmente não entra desta forma). Seja nos Animal Collective, seja com Person Pitch, Lennox é uma das figuras fundamentais da música na década de 2000.Pedro Rios
Radiohead Pyramid Song
Ao dobrar o milénio, quase de rajada, os Radiohead editaram dois álbuns seminais para a década que agora corre para o final. Não precisamos de esperar dez anos para o perceber, foi claro logo ali naquele momento. A viragem sonora, corajosa, não podia ter merecido outro tratamento do que um grande aplauso, ainda que se tenham perdido alguns fãs pelo caminho. De Kid A não saíram singles, mas do irmão – não muito gémeo – saltou “Pyramid Song” para mostrar os seus atractivos de forma piramidal. “Pyramid Song” é uma canção no fio da navalha, perigosíssima – espécie de kit salva vidas que em caso de má utilização pode ser fatal. Ainda está para chegar um redemoinho de bateria tão perfeito como aquele que, aos dois minutos passados, abre a canção para encantos ainda maiores. É um crescendo; um imenso crescendo que acontece quase sem se perceber, colhendo beleza às mais pequenas minudências – escrever canções assim não é para todos. E quando chegam as cordas já o ar se tornou quase irrespirável. André Gomes
Sonic Youth Incinerate
Esta década não sobreviveria sem estas guitarras. Não senhor. Podem não ser tão vanguardistas como nos anos 80 mas soam igualmente essenciais, importantes para distinguir e apartar o trigo do joio e dizer não à banha da cobra – ela anda por aí. Depois do menos conseguido Sonic Nurse, “Incinerate” liderou Rather Ripped com valentia e conseguiu o merecido airplay nas rádios americanas e um lugar especial no coração para quem ainda gosta de guitarras em 2000. O último disco dos Sonic Youth a ser lançado com o selo Geffen Records não contou com Jim O'Rourke mas, segundo o próprio Thurston Moore, é feito de “super canções”. Percebemos o que quer dizer, porque os Sonic Youth desta década aprofundaram conhecimentos no que ao formato canção diz respeito embora nunca tenham deixado de parte as bases da sua fundação: o experimentalismo. E “Incinerate” é um excelente exemplo dos Sonic Youth que namoram a canção mais de perto sem esquecer o que os tornou seminais no passado. André Gomes

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