Melhores singles dos 00
· 04 Set 2009 · 01:00 ·
© Teresa Ribeiro

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Jens Lekman Maple Leaves

Parte esmagadora das músicas de Jens Lekman procuram resolver um bloqueio com a intervenção de um sample majestoso, que repõe justiça no resultado e salva o dia do encalhado. Muitas vezes, um refrão de Jens Lekman é o empurrão que falta para que dois trapalhões acertem sintonias num beijo estupidamente bonito (parecido com aquele que une o polícia e a drogada em Magnólia). “Maple Leaves” é glorioso e apaixonante como uma reviravolta no marcador que deixa uma equipa sueca à frente de uma espanhola ou italiana (países sem a variedade de jovens talentos da Suécia). O rapaz perde-se em lamentos sobre mal-entendidos, mas a canção encontra-se na repetição de um arranjo de cordas que faz “pandam” com um break de bateria capaz de medir forças com o de “1 Thing” , da bombástica Amerie (também representada nesta lista). Ou seja, a Liga dos Campeões não seria a mesma coisa sem o hino que a acompanha, da mesma forma que Jens Lekman não apadrinharia beijos desajeitados sem estes pedaços de sinfonia. Miguel Arsénio
Jimmy Eat World A Praise Chorus

Joanna Newsom Sprout and the Bean

Apareceu quase como num sonho, entre fadas, elfos e duendes, com uma harpa entre mãos e uma voz que lembra aquela prima de seis anos a ensaiar para a aula de canto coral dos sábados de manhã. Mas é real. E dividiu opiniões como poucos. Há quem jure que é a forma mais directa de entrada no céu; outros, que é um passe para o inferno. Mas “Sprout and the Bean” é nada mais nada menos que uma delícia, de sensibilidades folk. Vinda dos Apalaches, apareceu logo ali depois da explosão do freak folk e quase era engolida por este mas The Milk-Eyed Mender provou ser tão mais do que isso – e sobreviveu, felizmente. “Sprout and the Bean” quis dar a cara por um disco de pulmões cheios, de brincadeiras pueris e memórias de episódios que gostávamos que tivessem acontecido nas nossas vidas. “Sprout and the Bean” é uma segunda oportunidade para se recriar uma infância dourada, mesmo que ficcionada, mesmo que impossível. André Gomes
Justice D.A.N.C.E.

Os enigmáticos franceses Justice (Xavier de Rosnay e Gespard Auge) fazem parte de uma geração que cresceu a idolatrar os Daft Punk. E nunca o negaram. Depois de se terem deixado levar pelo revivalismo nu-wave e punk-rock que caracterizou a música no meio desta década, desenvolveram uma sólida base de trabalho, reunindo as diversas sinergias do rock, da pop e da electrónica numa competente argamassa sonora que nunca tiveram receio de atirar à parede para ver se colava. "D.A.N.C.E." representa bem essa descomprometida agilidade em pegar nas coordenadas do french touch - nomeadamente na particularidade como o house soube imiscuir-se e enamorar-se pelo funk e o disco-sound - deixados como legado, juntando-lhes novas pulsações sonoras, enquanto um inesquecível coro pop nos relembra o quão essencial é nos soltarmos na pista de dança e nos deixarmos levar ao sabor do puro e personificado hedonismo. Como tal, "D.A.N.C.E." é um momento incapaz de nos deprimir, mesmo nos dias em que nos sentimos dispostos a tal. Rafael Santos
Justin Timberlake My Love

Future Sex/Love Sounds, o segundo álbum a solo do ex-'N Sync (tempos obscuros que parecem hoje uma impossibilidade face ao que Justin Timberlake fez depois) teve sete singles, um feito raro nos dias que correm, mas totalmente justificável, tal a qualidade global do disco (outra coisa rara, sobretudo no cenário pop e r&b). Timbaland, produtor que deteve durante algum tempo o toque de Midas, descreveu My Love, o segundo single do disco, como uma "balada rock-tecno". Não sabemos bem o que isso é, mas sabemos que a introdução com percussão e batidas entrelaçadas, os sintetizadores vaporosos, o beat pára-arranca (Timbaland no seu melhor) e a voz esplendorosamente pop de Justin Timberlake fazem de "My Love" um dos mais gloriosos momentos de 2006. E dos últimos anos. Pedro Rios
Kode 9 & Spaceape 9 Samurai

É um dos temas com que se deu a conhecer quando o dubstep ficou na moda. Mais um nome sonante num género marcante que soube colocar-se no patamar seguinte distinguindo-se da fórmula standard que ameaçava parasitar os mais sofisticados laboratórios subterrâneos. "9 Samurai" funciona como uma banda-sonora de um transe tribal urbano de sub-baixos acutilantes e cadências vagarosas e melancólicas. Um som soturno e claustrofóbico, algures entre o presente e o futuro, que não nega os ensinamentos do melhor dub da Jamaica, recuperando, sem consternações, as coordenadas deixadas pelos magmáticos Massive Attack, oxigenando-as com uma estética própria onde o negrume frio e alienígena se impõem como determinantes. E inspiração não lhe faltou para erguer um monumento à modernidade da música. Rafael Santos
LCD Soundsystem All My Friends

Começou por ser apenas uma das mais atípicas canções saídas do catálogo LCD Soundsystem, mas com o tempo foi-se consagrando como uma das músicas mais universais e consensuais do século XXI. O piano intensamente repetido vai subindo num crescendo que parece nunca acabar, o ritmo intensifica-se e James Murphy canta com sabor a nostalgia, até desembocar naquele verso final que nos deixa com pele de galinha, “where are your friends tonight?” passa repetido vezes sem conta dentro da nossa cabeça, vai enroscado em espiral até virar eco infinito. O segundo single de Sound of Silver teve direito a versões de Franz Ferdinand e John Cale e transformou-se num improvável hino. Sobre o passar do tempo, sobre olhar para trás, “All My Friends” é um épico pop, quase amargo, é uma imensa convulsão emocional, catarse sonora condensada em cerca de seis minutos de tensão absoluta. Nuno Catarino
LCD Soundsystem Losing My Edge

I was there é a frase mais escutada neste tema originalemente editado em 2002. É tudo treta, mas com um pingo de imaginação tudo é tolerável. Ele esteve lá - em espírito certamente - quando os Can se deram a conhecer em Berlim em 1968. Esteve lá quando Captain Beefheart formou a primeira banda. Esteve lá quando os grandes sound clashes varreram a Jamaica. Esteve com com Lerry Levan na mesma cabine de DJ no Paradise Garage. E foi dos primeiros a dar a conhecer os Daft Punk aos putos do rock. E a discografia (nada improvavel) do homem? De Pere Ubu, The Trojans, The Black Dice, Section 25 aos Human League, The Normal, Lou Reed, Scott Walker, Monks, Joy Division, Sun Ra, entre outros pesos pesados. Assim se apresentou ao mundo, este homem de falsa modestia que não se gosta de ver ao espelho (apesar do seu aspecto cool) e que acha que os outros têm melhores ideias que ele. Mas a julgar por este exemplar momento de “rocalhada” para quem não gosta de rock, James Murphy veio ao mundo com o seu LCD Soundsystem no momento certo. E sim, com ideias válidas e assertivas (como depois o seu álbum de estreia acabou por confirmar). "Losing My Edge" é parte essencial da intensidade de um homem que gostaria de ter estado em todos os momentos cruciais da história da música moderna. Não esteve, mas deu para enganar alguns ingénuos. Rafael Santos
Lil' Wayne A Milli

Será do beat do Bangladesh? De samplar e desacelerar a voz do Phife Dawg numa remistura obscuríssima do "Left My Wallet in El Segundo" dos A Tribe Called Quest até fazer com que parecesse dizer "a milli, a milli" durante uma canção inteira? Da batida propriamente dita? Ou será da voz mutante de Lil Wayne? Da letra que parece ser improvisada ou, no mínimo, fruto de uma mente alterada por estupefacientes? Da forma como estica o "a" quando diz "Gwen Stefani"? Não é de nada disso. É de tudo. Houve para aí mil freestyles por cima deste beat e nenhum se aproximou disto. O Swizz Beatz tentou replicar o sucesso dito no Blueprint 3 do Jay-Z, a pegar num bocado da "D.A.N.C.E." dos Justice e a cortá-la para soar assim, mas não chegou nem perto (li no outro dia que ele teve de vender a mansão dele não sei onde, a vida não lhe anda a correr muito bem apesar de se deitar todos os dias ao lado da Alicia Keys). Porque "A Milli" é única, brilhante, estranha, completamente inesperada, mutante, alienígena, drogada, genial, brutal, nojenta, tudo se lhe aplica. "A Milli" é tudo. Rodrigo Nogueira
Lily Allen LDN

Menina terrível da pop, entrou por aí dentro sem aviso, sem apelo nem agravo, mas com a força toda. De talentos vários (são públicos os seus dotes orais, entre outros), Lily Allen assinou em Alright, Still um belíssimo disco que teve em “LDN” um dos seus pontos altos. Tal como a própria diz na introdução ao videoclipe que serve a canção, gravado na Rough Trade em Londres, o que ela quer é algo entre o grime, new wave, dub, punk, drum ‘n’ bass, broken beat, soul e, dizemos nós, reggae. E “LDN” é um mash up de boa parte desses géneros e soa verdadeiramente fresco e livre, deliciosamente melódico ao deixar-se guiar por sopros e uma batida irrecusável. Impossível passar despercebida. Graças a esta e outras canções, Lily Allen fez do mainstream desta década um local mais divertido e interessante para se viver. E, se tudo correr bem, tratará certamente de repetir a dose na década que está para chegar. André Gomes
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