Melhores singles dos 00
· 04 Set 2009 · 01:00 ·
© Teresa Ribeiro

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Blur Out of Time

Se a saída do guitarrista Graham Coxon era o sacrifício necessário para que os Blur atingissem o estado de graça que singularizou Think Tank, nas suas romarias étnicas e electrónicas, tal ruptura sucedeu-se então com o timing ideal. Com 13, os Blur davam por concluídos todos os objectivos possíveis no campeonato brit-pop. Na sequência disso, Think Tank é um disco de “desampara-me a loja, pois estou de partida para um novo despertar no norte de África”. E o mérito desse êxodo encontra-se em toda a parte de “Out of Time”: no arranjo sinfónico (a cargo do Grupo Regional de Marrakech) e na desbunda de deserto mantida pelos próprios Blur. “Out of Time” representa, no trajecto dos Blur, o single que deixa cair a pele brit-pop para revelar uma outra apta a usufruir de novos horizontes musicais (desde aí multiplicados por Damon Albarn). Livres de perseguirem os riffs enérgicos de Graham Coxon, os Blur pacificaram a canção até ao ponto de “Out of Time” parecer gaze para a alma. Miguel Arsénio
Buraka Som Sistema Sound of Kuduro

Momento máximo da mais excitante banda portuguesa neste momento, "Sound Of Kuduro" é também aquele que melhor capta a estética de um grupo com pontos de contacto com as movimentações que gente como M.I.A. (que participa no tema), Diplo e Switch têm vindo a operar. Falamos de música feita por ocidentais interessados em apropriar-se das fervilhantes cenas locais de vários pontos do mundo (o kuduro, o baile funk, a soca, por exemplo) para criar música urbana filha do hip-hop, que trata os géneros como plasticina, num saudável desrespeito pelo instituído, o bom gosto (construção artificial mais aborrecida do mundo, felizmente a cair em desuso num cenário musical mais dado a confusões, trocas e misturas). "Sound of Kuduro" tem a hiperactividade dos retorcidos ritmos do kuduro, uma M.I.A. autoritária no refrão e um imparável Puto Prata. Ingredientes mais do que suficientes para elevar os Buraka Som Sistema a sensação internacional. Pedro Rios
Buraka Som Sistema Yah!

Burial Distant Lights

Hoje é um dos mais aclamados estetas do dubstep e uma figura proeminente e essencial do underground londrino, mas quando o ep Distant Lights foi editado em 2006, William Bevan – verdadeiro nome do misterioso vulto – era um solitário desconhecido em busca da verdade interior num mundo pré-apocaliptico. Sem grande consciência da singularidade da sua música e do impacto que acabou por ter - mesmo fora do círculo dubstep -, Burial (a par de Kode 9) é um nome incontornável na segunda metade de uma década que, que no que à música electrónica diz respeito, pouco primou pela verdadeira inventividade. Nesse aspecto, "Distant Lights" é um extraordinário apontamento sonoro, exemplificando a terceiros os mecanismos elementares aptos a despertar a atenção do melómano, criando, quase em simultâneo, um culto capaz de idolatrar quem até há bem pouco tempo se recusava dar a cara com receio do "vedetismo". Rafael Santos
Devendra Banhart A Sight to Behold

O single de um herói. A figura por trás de uma das melhores coisas que aconteceram neste jovem século – o renascer da folk americana, na sua vertente mais freak e psicadélica, livre de clichés world “trade” music. O herói da badalada “New Weird America” que me revelou um dos melhores segredos que já me contaram – que existe alguém como Vashti Bunyan. Além de ter namorado a Natalie Portman. Mas de volta a “A Sight to Behold”, eis um instantâneo clássico folk eterno. Canção armada até aos dentes numa ponte entre a viola dedilhada de Devendra, com as cordas de uma orquestra de abismo e uma letra desencantada que encontra abrigo sob a alçada de Michael Gira e da sua editora, de onde este single saiu. É como se Gira, o velhinho deus masoquista maltratado renascesse noutra voz, noutro corpo, encarnado em Devendra. Por fim, o patinho feio cabecilha dos magníficos Swans encontrou em Devendra o tal jovem deus como reza o nome da sua editora Young God. Nuno Leal
Dizzee Rascal Fix Up, Look Sharp

Embora não seja a sua faixa mais contundente no encapsular das coordenadas grime, no que este tem de mais vital, “Fix Up, Look Sharp” constitui a primeira investida do rapaz do canto em desvios rasteiros ao género. Em retrospectiva, a maior acessibilidade de “Fix Up, Look Sharp” por comparação com as batidas gélidas e cascatas de sintetizadores de Boy In the Corner, mostrava já que os limites para Dizzee não se ficavam pelo emular angustiante do lifestyle londrino. Pavimentando o caminho para algo como "Dream" ou "Pussyhole". É precisamente esta abertura de espírito que mais facilmente se retém, quando de encontro à percussão pesada e discurso serpentilíneo do puto maravilha, “Fix Up, Look Sharp” se torna o single de maior sucesso do seu álbum de estreia. Levaria ainda algum tempo a ser tão bem sucedido comercialmente, mas, mesmo mantendo todas as suas qualidades como mc, nunca “Dance Wiv Me” ou “Bonkers” passariam de malhas inúteis quando comparadas com o groove old school que exala de “Fix Up, Look Sharp”. Bruno Silva
Gnarls Barkley Crazy

Foi o fenómeno de 2006, a música repetida até à exaustão. A voz do “bucha” Cee-Lo Green juntava-se ao tapete sonoro criado pelo “estica” Danger Mouse. Nessa altura Mouse já se tinha feito notar com o excelente The Grey Album (mashup do White Album dos Beatles com o The Black Album de Jay-Z) e a expectativa quanto a este projecto era grande. “Crazy” foi uma bomba: alcançou um airplay gigantesco, foi a música que passou em todo o lado, de bares a supermercados. O excessivo airplay acabou por funcionar contra a canção: o desgate terá transformado um single quase perfeito num objecto absolutamente irritante, podendo ainda hoje ser escutado em toques polifónicos. Apesar do seu tempo de vida ter sido limitado (ou melhor, encurtado por circunstâncias externas aos criadores), uma lista dos melhores singles não podia deixar de fora uma das canções mais eficazes e marcantes da última década. Nuno Catarino
Hot chip Ready for the floor

Piada tão fácil e tão estúpida que é inevitável fazê-la: preparou toda a gente para a pista. Toda. A transversalidade de "Ready for the Floor" é também impressionante, quer se fosse pouco atento à música pop da altura ou não. É muito estranho pensar que o single saiu em Janeiro de 2008, porque parece ter feito parte das nossas vidas desde sempre. É daquelas canções que pedem um singalong e abraçar amigos enquanto se finge com os lábios que se está a cantar "you're my number one guy" (atenção, homofóbicos, a frase foi originalmente dita por Jack Nicholson a fazer de Joker no Batman, por isso não devem ter medo). A (óptima) remistura dos Soulwax tornou-a ainda mais pronta para a pista, mas isso não era de todo necessário, eram nerds a tomar conta da pista de dança sem qualquer medo da pop e de levar uma canção pop simples para sítios inesperados. Rodrigo Nogueira
Jamie Lidell Multiply

A coisa andava fora de moda, mas Jamie Lidell não se preocupou muito com isso. Repescou a soul directamente do baú dos 70s e criou um dos mais apetitosos discos dos 00s. A cereja no topo do bolo era o tema homónimo, “Multiply”, com direito a single e a uma merecida exposição massificada. Apesar da estrutura simples, é uma canção de contornos clássicos, aveludada, com o ritmo funk a puxar pelos músculos de todos aqueles que ouvem a canção. Estávamos em 2005 e os putos descobriam através de um inglês branco de ar “geek” que afinal havia música perfeita para dançar e engatar miúdas. Entretanto haveriam de surgir na cena internacional figuras como Sharon Jones e até mesmo Lee Fields, justificadamente “the real deal”. Mas, para um branquelas, Lidell até não se safou nada mal, tendo sido o responsável por um anormal crescimento da taxa de natalidade nos países da OCDE no ano de 2006. Nuno Catarino
Jay-Z 99 Problems

Só Rick Rubin é que podia ter feito isto. Em plenos anos 2000, voltar ao rap, produzir uma canção que soa a quase todas as suas produções dos anos 80 só que ainda mais violenta e rock, e partir a década ao meio. Especialmente a de Jay-Z, numa década com tantas e tão boas malhas (de "Big Pimpin'" a "Roc Boys", passando por "I Just Wanna Love U (Give it 2 Me)", "D.O.A." e quase todo o Blueprint). Mas se há algo que um guru místico de barba pode fazer é isto e fê-lo com "99 Problems". A origem do sample não é nada inovadora no rap, é "Big Beat" do Billy Squier, gente como Run DMC e Dizzee Rascal usaram (e muito bem) a batida, é a maneira como a corta que torna tudo especial. É uma canção rock ,mas uma canção rock muito diferente de "Big Beat". Versa sobre os tempos de Jigga como dealer de crack, rouba o refrão ao Ice-T, uma estrofe inteira ao Bun B dos UGK, e tem o Vincent Gallo no vídeo. É preciso pedir mais? Rodrigo Nogueira
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