John Talabot
fIN
· 09 Fev 2012 � 10:16 ·
John Talabot
fIN
2012
Permanent Vacation


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- John Talabot
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Aquele disco de dança de que todos vão gostar. E com razão.
Dado o fosso entre a música de dança mais mainstream - que vive actualmente sobre a tutela obnóxia de alguém como o David Guetta - e toda a presente rede de ligações no eixo Resident Advisor/Fact/XLR8R, parece algo natural que todos os anos um ou outro disco (que não do Villalobos ou do Lindström) salte para além dessa realidade, para chegar aos corações da inteligentzia indie. Falamos de álbuns como This Bliss do Pantha Du Prince ou From Here We Go Sublime de The Field que, na impossibilidade de chegarem ao tal meio termo (onde no final dos anos 90 encontrávamos uns Orbital ou Underworld, para aí) conseguem ainda assim uma exposição considerável. Mesmo que injustificada, tendo em conta tudo o que se passa no mundo dos 12”, mixes e radio sets mais ou menos marginais.

Tendo em conta o modo como os efeitos galvanizadores de ƒIN têm vindo a ser propalados, pode-se dizer que, de certo modo, estão reunidas as condições para em 2012 ser ele a ocupar essa slot habitual. Uma transversalidade que, neste caso, faz todo o seu sentido, não só pelo facto do Talabot ser bastante mais interessante do que grande parte desses nomes, como por - e apesar de algumas relações de parentesco mais ou menos distantes, como a óptima remix para Teengirl Fantasy – não habitar do lado da hipster house.

Para tal reconhecimento, em muito contribui o facto do músico sediado em Barcelona se ter dado a conhecer desde que abandonou anteriores pseudónimos (como D.A.R.Y.L., ainda a repisar no território da Kompakt) como alguém com uma linguagem vincada. Um MO reconhecível que sem procurar reinventar a roda trazia para a mesa de mistura/pista argumentos válidos para se imiscuir com toda a confiança nos mais diversos contextos. Com mais de uma dezena de grandes malhas (“Matilda's Dream” ou “Sunshine”) e remixes (de XX a Tahiti 80) a pavimentarem o caminho, Talabot chega ao seu primeiro álbum pelo percurso habitual nestes meandros já com todo um buzz meritório em seu redor para justificar o entusiasmo.

Expectativas insufladas a terem réplica devida, num disco que pega em todas as suas melhores ideias e as condensa ao abrigo da sua estética em algo profundamente coerente. O que constituirá talvez o maior motivo para que se levantem algumas vozes contra ƒIN, na medida em que não houve um esforço consciente pela parte do Talabot em expandir sobremaneira a "palete" sónica habitual – o que talvez tenha sido pelo melhor, quando (pegando num caso recente) comparamos o Nicolas Jaar de “A Time For Us” com o entorpecimento de Space is Only Noise. Uma crítica menor quando estamos perante um objecto tão fascinante e imediato quanto este.

Comparativamente ao passado recente, e pegando na tal ideia de condensação, em Fin os temas raramente se extendem para além dos cinco minutos, assentes numa primeira premissa – regra geral, uma linha melódica basilar - que se vai adensando de um modo natural às custas de camadas de loops em torno dessa estrutura. De construção graciosa, as malhas vão-se desenrolando sobre os seus próprios motivos com uma noção de movimento precisa. Neste ponto, o Alex McPherson na sua crítica no Guardian foi bastante perspicaz na comparação com Booka Shade. A nível formal, e apesar de diferenças notórias (uma maior rarefacção nos Booka Shade, por exemplo), existe um terreno comum que ambos calcorreiam com elegância, naquele processo inevitável de celebração crescente que faz de tudo isto música para dançar por fundamento.

Uma comparação tangente que pode até servir de referência para alguns dos ambientes do disco quando recordamos uma malha como “In White Rooms” à luz de ƒIN e paira uma certa euforia algo balear que não projecta descaradamente um imaginário estival. Uma nostalgia latente, de que “When The Past Was Present” serve como exemplo maior : a melodia central a exultar todo o momentum de braços no ar - que explode de modo grandioso lá para meio – com uma névoa de melancolia em fundo, como se toda a felicidade pudesse existir apenas nestes cinco minutos. Melancolia que toma contornos mais expressivos em malhas como “Depak Ine”, “El Oeste” ou “H.O.R.S.E.”, onde a luz se vai escapando por entre sons distantes sem nunca sucumbir ao peso dessa ameaça. Num contraponto com as vibrações mais veraneantes de “Last Land” e “Estiu”. “Oro Y Sangre” a balizar tudo isso (até porque é demasiado boa para não ser referida).

“Journeys” conta com a voz de Ehki dos Delorean (amiguinhos de Barcelona e tal), mas no campo das malhas vocalizadas são as colaborações com Pional que ficam para a posteridade. “Destiny” arranca com uma marimba distante para conduzir a voz sobre um ritmo house em slow motion sem cair na tendência male-diva de uma Hot Creations. A fechar o álbum, “So Will Be Now” baixa o pitch à voz de "Just My Imagination" dos Tempations, repetindo a parangona até se desvanecer com a entrada do sintetizador. Encerramento perfeito para um daqueles discos sobre os quais escrever tão em cima do acontecimento poderá ter efeitos nocivos com o tempo, dado o fascínio imediato que exerce. Talvez seja por ainda estarmos no início do ano, quando ainda pouco se passa, mas as inúmeras virtudes de ƒIN são inescapáveis. Se nos lembrarmos dele daqui por uns meses, é sinal de que estes dias passados com o disco em repeat foram muito mais do mera tesão de mijo. Parece seguro afirmar que sim.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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