DISCOS
Prurient
Bermuda Drain
· 08 Set 2011 · 09:48 ·
Prurient
Bermuda Drain
2011
Hydra Head


Sítios oficiais:
- Hydra Head
Prurient
Bermuda Drain
2011
Hydra Head


Sítios oficiais:
- Hydra Head
O condão de fazer da devastação cyberpunk uma ideia menos ofensiva do que seria previsível.
Há não muito tempo, antes das cascatas do Juno e da reapropriação não-irónica das memórias mais cheesy, existia o ruído. Repudiando toda e qualquer afinidade para com a cultura popular, o Noise made in USA refugiava-se num vazio de referências com recurso a uma militância DIY que tinha no confronto, no alto volume e numa profunda fisicalidade a sua raison d`être. Os Wolf Eyes chegaram ao semi-estrelato e os Black Dice andavam à porrada com o público. Discos como Psychic Secession ou Slow Globes eram amplamente citados e gente rude como Sick Llama ou Hair Police podia aparecer ao lado de comunidades como o Jewelled Antler ou NNCK sem entrarem em rota de colisão. E do esgoto de cd-r's e cassetes vinham coisas boas. E muita merda subpar. Inevitavelmente, essa postura fechada acabou por levar um certo esvaziamento criativo, e apesar de luminários como Tusco Terror e Jason Crummer, anda tudo muito mais manso e a sonhar com o passado. Compare-se a Not Not Fun dos primeiros Robedoor ou Changeling com a retromania evidenciada na entrevista para a Wire.

No epicentro de toda essa sujidade desde sempre gravitou um sujeito de Brooklyn com um conhecimento enciclopédico do metal mais insular e tendência para o niilismo de nome Dominick Fernow. Enquanto Prurient, assumia a performance de tronco nu com o mínimo de recursos (microfone e amplificador, muitas das vezes) como via para a catarse num turbilhão de feeback. Desse primitivismo documentado em discos como Body Language ou The History of AIDS (muitos deles editados na sua Hospital), Fernow foi traçando uma evolução que deixou marca em Black Vase e foi continuamente lapidada para algo menos gratuito e, regra geral, mais interessante.

Hoje, Fernow é uma espécie de ícone subterrâneo (como se tal fosse possível) que toca teclas nos Cold Cave e fez uma mix para a Fact, mas ainda assim não deixa de se revolver no lamaçal black metal de Ash Pool ou Vegas Martyrs. Um reconhecimento merecido, portanto, de um gajo que acaba, com todos estes desvios por encarreirar sempre pelo lado negro da força. Um terror omnipresente que revela em Bermuda Drain de modo mais parcimonioso e harmónico, mas igualmente intenso. Com a sombra do, cada vez mais omnipresente, John Carpenter a pairar sobre a desolação de Pleasure Ground filtrada pelas memórias da música Industrial que Fernow fez questão de deixar claras na tal mix (Suicide Commando, Dopplereffekt, NIN = tudo merda, na verdade).

Bermuda Drain é um disco de arquitectura precisa. Descaindo mais para os lados da devoção rafeira ao legado Carpenter/Goblin que nomes como Xander Harris, Spare Death Icon ou mesmo Umberto têm vindo a revelar do que da violência power electronics. Mesmo a berraria surge em diálogo com um backdrop instrumental relativamente plácido, apenas pontualmente invadido por erupções de ruído brando. Impera o spoken word como guia narrativo de deambulações curtas por terras de ninguém. “Many Jewels Surround the Crown” escancara com os propósitos de Bermuda Drain, vis a vis com a ameaça stalker que o ambienta um pouco por todo o lado. Com a sequenciador a servir como dorsal (será isto a verdadeira Downward Spiral?) para um encaixe harmónico de tons menores e surtos de estática que nunca sucumbe ao peso de uma batida que vem do poço. Em menos de três minutos.

Reflexo de um disco que tem na estruturação das suas músicas uma mais valia que o distancia de um mero exercício de estilo faccioso. Para o bem e para o mal, Bermuda Drain é feito de detalhes e concepções estritas, que não sendo canções seguem uma lógica de progressão linear e concisa. Que beneficia claramente os momentos mais contidos de Bermuda Drain. Tanto o tema título como “Palm Tree Corpse” e “Myth of Sex” se revelam peças de forte apelo imagético que nunca sucumbem à opressão e onde o rigor minimalista é rampa para uma evasão errante com ecos dos Coil de Musick to Play in the Dark. Já desastres como “A Meal Can Be Made” e “There Are Still Secrets” são incursões pelos territórios insuportáveis da EBM e da cold wave que relembram o efeito pernicioso de Die Form e Nitzer Ebb e teriam lugar em espaços como o Metropolis e o Transmission (aviso aos wanderers de Lisboa). “Let's Make a Slave” é melhor pela sua persistência em não atirar com estas referências assim à cara podre. E por ter uma melodia bem mais aceitável.

Bermuda Drain é um disco no seu tempo, de alguém que sempre se situou num arco de evolução personalizado sem alinhar com banwagons de curta duração, mas permeável alguns dos seus efeitos. Por vezes nefastos, mas cultivados com uma intransigência que faz de Bermuda Drain um disco aceitável mas ocasionalmente embaraçoso. Piadas como a witch house fizeram da distopia um sentimento recorrente, que permite alimentar todo o buzz em torno do disco. Daqui a uns anos já ninguém se lembra, mas por agora têm de se aguentar à bronca. Com isso em mente, Bermuda Drain é capaz de ser das poucas coisas minimamente relevantes a aparecer vestida de negro.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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