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Queen
Queen / Queen II / Sheer Heart Attack / A Night at the Opera / A Day at the Races [Reedições]
· 20 Jul 2011 · 03:00 ·
Queen
Queen / Queen II / Sheer Heart Attack / A Night at the Opera / A Day at the Races [Reedições]
2011
Island


Sítios oficiais:
- Island
Queen
Queen / Queen II / Sheer Heart Attack / A Night at the Opera / A Day at the Races [Reedições]
2011
Island


Sítios oficiais:
- Island
Estão aqui os Queen que interessam. Muito.
É relativamente fácil ridicularizar os Queen. E também de os culpar por muita merda. Afinal de contas, dos Styx aos Muse vai todo um manancial de más ideias que poderão, de alguma maneira, serem direccionadas para o quarteto londrino. Está tudo naquela dimensão excessiva e inchada, exemplo de música no seu estado mais faustoso. A antítese do inconformismo do punk, do indie (na sua génese) e demais géneros respeitáveis (supõe-se) para muitos dos leitores deste espaço. Ou nem tanto, uma vez que a exuberância chegou também a um plano onde bandas como os Arcade Fire ou os Wolf Parade se tornaram exemplo de algo boçal (pegando em exemplos recentes). Mas isso seria como culpar os Flying Burrito Brothers pelos Kings of Leon, ou os Smiths pelos The National. E haverá sempre alguém como os Shudder to Think para contrariar esta ideia. No final, poucos parecem pilhar verdadeiramente os Queen.

Parte da explicação pode estar até na própria banda, desde sempre expedita a catalogações óbvias que os alinhassem com o prog, o metal ou o hard rock. Ou de um pout-pourri saudável na sua incoerência que se veio a revelar pernicioso com o tempo. Ou talvez seja, simplesmente, a sobrexposição à batida da “We Will Rock You” e ao coro da “We Are the Champions” (que só é tolerável aquando dos festejos de mais um campeonato para o Glorioso) a gerar, desde logo, uma repulsa, alimentada pelas enxurradas de Greatest Hits para a época natalícia. Olhando para trás, nada soa a Queen. E não sendo isso um valor em si mesmo, permite instigar a curiosidade perante uma obra que urge reconhecer de modo mais digno. E que está, quase toda, nestes cinco discos. Que fazem dos Queen uma banda do caralho. Sem medos :

Nascidos das cinzas dos psicadelismo dos Smile (onde militavam o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor), os Queen tiveram no exuberante Freddie Mercury o frontman necessário para encarnar todos aqueles excessos quase caricaturais (e prontamente assumidos pela banda) que fez deles um caso bem sui generis perante tudo aquilo que os rodeava. Tudo isso está desde logo, presente de um modo grosseiro na estreia homónima em 1973. Álbum contínuo com o proto-metal que bandas como Led Zeppelin, Black Sabbath ou Deep Purple tinham já perfeccionado, Queen é uma sucessão de ideias nem sempre delineadas mas já expostas com uma segurança admirável que faziam da sua bruteza a razão de ser. “Great King Rat” e “My Fair Lady” apontam já para o caminho para a complexidade vindoura sem uma coesão consequente mas reveladora de toda a ambição de um grupo marcado para a grandiosidade. Emaranhados de music hall, passagens de piano, harmonias vocais operáticas e riffs bombásticos. Peça central para malhas tão punchy como o petardo de “Modern Times Rock'n'Roll” (com voz do Taylor) ou o lamaçal bluesy de “Sons & Daughters” e que têm em “Keep Yourself Alive” o momento mais relembrado. Queen é, com todas as suas imperfeições, um disco de estreia mais do que digno que hoje, mais do que tudo, é revelador de que a pomposidade pode ser via para a diversão. E também o álbum mais óbvio para o fist pumping meio embaraçoso, mas sentido.

Queen II é a progressão natural dos esboços do ano anterior. Um mais do mesmo, onde mais é sinónimo de melhor e começam a ser condensadas de modo incisivo as fantasias dispersas da estreia. Aprenderam a fazer canções sem admoestar a bizarria ou o peso da estreia e fazem da experimentação uma razão de ser com premência. Maturar as estranheza para que todo o imaginário mítico (cavaleiros, orgres, fandas, etc.) seja apenas cenário para os overdubbings de guitarra e pianolas clássicas coabitarem. Nem tudo tem ainda o seu lugar, com “Father & Son” a não fazer muito sentido na sua indecisão entre dar as mãos ou usá-las para o air guitar e alguns floreados vocais a serem martelados pela muralha de guitarras a dentro sem grande pejo. Mas um pouco por todo o álbum discorrem já fluentemente o os constrastes em músicas como “The March of the Black Queen”, “The Fairy Feller's Master-Stroke” e, principalmente “Ogre Battle” (onde o estúdio assume um papel preponderante sem criar uma névoa melindrosa). “White Queen (As It Began)” e “Some Day One Day” assumem uma faceta mais plácida enraizada na folk britânica. É o álbum da revelação, que não obstante ser o mais exploratório lhes trouxe também um primeiro hit com a releitura de “Seven Seas of Rhye”. Os fanáticos sabem-no bem.

Lançado ainda em 1974, Sheer Heart Attack é, com espaço para discussão, a obra prima da banda. E, para o bem e para o mal, tem o solo interminável da “Brighton Rock”. Foda-se! Começar o disco como uma cavalgada daquelas e fazer disso uma mera reminiscência num conjunto de canções que seria perfeito, não fosse o alto quoficiente de parvoíce vaudeville da “Bring Back That Leroy Brown” (e apesar do breakdown ser uma maravilha), num limbo tão arriscado entre pompa e circunstancia é coisa de respeito. Mesmo quase-interlúdios como a lamechice para piano de “Dear Friends” ou o crescendo de “Lily of the Valley” acabam por assumir alto valor expressivo no confronto saudável com o estrilho trash de “Stone Cold Crazy” ou com a marcha malévola em direcção à luz de “Flick of the Wrist”. Tudo conflui num enredo de arranjos tão complexo quanto memorável. “In the Lap of the Gods” a fazer disso bandeira de modo quase intangível e “Killer Queen” a criar vício instantâneo naquele amontoar de vozes estridentes. Já para o final “She Makes Me (Stormtrooper in Stillettoes)” é uma pérola enevoada do Brian May que envergonha quase todos os shoegazers dos anos 90 a bater com a cabeça nas paredes para fazer com que ”dream” e “pop” colassem e “In the Lap of the Gods...Revisited” faz do estádio o seu palco antes disso ser sinónimo de azeite. A explosão final a deixar vislumbrar os passos consequentes.

A Night at the Opera é todo ele expansividade. Disco de topo da montanha que custou mais dinheiro a gravar do que qualquer outro até então, é geralmente reconhecido (em toda a sua grandiosidade) como o apogeu da banda. É também o que tem a “Bohemian Rhapsody”, o que acaba por auto-explicativo sobre a sua natureza. Celebrando o exagero sem o mínimo de indulgência, A Night at the Opera encontra o hedonismo no exagero com o humor necessário para não cair numa redundância balofa. Levando ao extremo lógico as premissas de Sheer Heart Attack, A Night at the Opera é em retrospectiva um disco menos intrigante na sua diversidade. Talvez seja a banda a assumir em demasia a sua consciência colectiva, ou algum conforto empolado, mas no seu todo A Night at the Opera é ligeiramente pastoso quando visto à luz da trajectória precedente. O que não deixa de fazer dele um clássico com razão de ser. “Death on Two Legs (Dedicated To...)” lança farpas ao antigo manager da banda com um stomp roqueiro inescapável e “Sweet Lady” atira com o glam rock para o espaço em sucessivas camadas de guitarra. “Seaside Rendevouz” e “Lazy on a Sunday Afternoon” são puro gozo vaudeville enquanto “Love of My Life” conseguiu aguentar-se bem a tantos anos de choradeira. “The Prophet” é magnânima, com uma passagem de voz filtrada por delay a desaguar num mid-tempo explosivo. Seria o épico do disco. Mas está aqui a “Bohemian Rhapsody”.

Para onde ir depois de tal ascensão? A Day at the Races é o paradigma da sequela inferior ao original, mas não é um desastre com as proporções catastróficas de Matrix Reloaded, Staying Alive ou Blueprint 2. Antes uma espécie de Predator 2 ou Harvest Moon. A ideia escancarada na capa e no título (a referenciar os irmãos Marx) está subjacente a todo o conteúdo musical em versão redux. “Tie Your Mother Down” é um rocker sem o entusiasmo dos primeiros tempos e “Millionaire Waltz” é um rehash da excentricidade de “Bohemian Rhapsody”. Até “Somebody to Love” acaba por ser um hit bastante incompetente mesmo com boa vontade. Apesar dos precalços, seria injusto não destacar alguns óptimos momentos acima de uma mediania generalizada : “You Take My Breath Away” é umas das mais bonitas (sim, bonitas) baladas do Freddie Mercury; “White Man” consegue ser tão pesada quanto qualquer coisa do álbum de estreia e “Drowse” é uma delícia psicadélica escrita pelo Roger Taylor que os Super Furry Animals devem ter ouvido. No final fica aquela sensação de preguiça de uma banda que encerrava aqui um ciclo.

Depois destes cinco álbuns seguiriam-se novos voos, mas posição dos Queen estava já cimentada. O baixo da “Another One Bites the Dust”, o camp de “I Want to Break Free”, a banda sonora de Flash Gordon ou os concertos megalómanos em estádio eram sintomas naturais de uma banda que tão cedo almejou ser maior do que a vida que acabou por perder o contacto com o pulsar da sua música. Um marasmo pretensioso que em boa parte é, mesmo, para esquecer. Estas reedições vêm repor a devida justiça para que o estatuto de grande banda faça todo o sentido.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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