DISCOS
Katy B
On a Mission
· 30 Mar 2011 · 01:54 ·
Katy B
On a Mission
2011
Rinse / Columbia


Sítios oficiais:
- Katy B
- Rinse
Katy B
On a Mission
2011
Rinse / Columbia


Sítios oficiais:
- Katy B
- Rinse
Aguardado disco de estreia cumpre as expectativas sem desvirtuar uma personalidade reconhecível.
Na música de dança nunca existiu uma preocupação em assegurar às suas vocalistas um estatuto que fosse além do necessário sentido figurativo/decorativo. Com o protagonismo assente no papel do produtor a inviabilizar qualquer potencial de estrela que possa emergir de uma personalidade distinta, no meio do arsenal sónico que a sustenta. No caso britânico a questão é particularmente gritante, tendo em conta como a UKG e o 2-step dominaram os tops para fazer cair no esquecimento alguém como as Mis-teeq (Eye Candy tentou colmatar esta situação com a aproximação ao R&B a fazer de passadeira para o estatuto de Diva) ou mesmo a Shola Ama, deixando a lembrança do lado dos Artful Dodger. Do mesmo modo que “Unfinished Sympathy” será sempre uma canção dos Massive Attack, quando é o carisma da Shara Nelson que faz dela algo tão memorável.

Esta linha raciocínio poderá até encontrar com o R&B americano circa 99/03, quando o papel do produtor se sobrepunha grande parte das vezes às figuras que se serviam (não tirando qualquer mérito ao Timbaland ou aos Neptunes nesta mentalidade), mas hoje já começa a ser aceite o facto de que os melhores resultados surgem da simbiose e não de uma justaposição forçada de ideias. Atravessando novamente o Atlântico e reconhecendo a verdade que os últimos anos se viraram para uma abordagem predominantemente masculina por via do Grime (e mesmo que alguém como a Ny perspectivasse um sentido contrário, o R&G serviu quase sempre os propósitos do tecelão) e, mais concretamente do Dubstep (onde era exclusivo), não deixa de ser interessante como a UK Funky também não conseguiu encontrar vozes dominantes apesar dos indícios deixados pela Princess Nyah, Kyla ou, mais recentemente, pela Farah, com a Miss Fire a ocupar ambas as posições de modo igualmente interessante.

Obviamente, este sectarismo implícito trata-se de um certo conforto contextual necessário, que não faz sentido nesta era dominada pela transversalidade, mais ou menos, benigna de todas estas músicas, numa conjectura de nichos cada vez mais permeáveis. On a Mission é um objecto desta mesma realidade. Um valor residual, ao permitir que a Katy B se exponha sem a compartimentar num género específico, nem tentar fazer dela a “voz oficial” de um movimento que não existe. Em On a Mission todas as coordenadas servem os seus propósitos. Ou seja, será sobre ela que irá cair a responsabilidade dos falhanços (que existem), enquanto mediadora no processo que fez de uma má canção parte integrante de On a Mission. Tratando-se de alguém com o bom senso de citar a Teedra Moses, adivinha-se-lhe uma capacidade para aceitar as culpas com naturalidade.

Será também essa mesma capacidade de adaptação que lhe granjeará os maiores louvores, enquanto paradigma da capacidade de albergar, sob o comando de uma voz distinta, todos os géneros que flutuam pelo éter britânico. O caminho está pavimentado, com o êxito dos singles precedentes a instaurar algum conforto expectante, quanto ao sucesso comercial de On a Mission, acrescido de uma singularidade muito girl next door distante dos acessos de Diva que acabam por ser norma comum nestes casos. Reflexo de uma vivência de 21 anos enredada nestes meandros, que transparece numa entrega despida de acrobacias histriónicas, e lhe assegura uma empatia palpável.

A opção por uma production team assente no DJ Zinc e no Geeneus (que já tinham trabalhado com ela nesse clássico que é “As I”), com uma presença pontual do Benga em “Katy on a Mission” e dos Magnetic Men em “Perfect Stranger”, tratou-se também de uma manobra de bom senso. Carregando consigo um legado respeitável com passagem pelo Jungle/Drum & Bass, pelo ponto de viragem da UKG para o Grime (Pay As U Go Cartel), ou mesmo pela Deep-House, sem o dispersar por inúmeras entidades. Permitindo um extrapolar de ideias que não caia na chuva de efeitos de produção características de alguns desfiles de estrelas, antes na confluência interna destas mesmas para um resultado que perpetua em disco o hardcore continuum como visto pelo Simon Reynolds sem forçar as canções por aí adentro.

Apenas a Ms. Dynamite aparece para conferir a “Lights On” um contraponto mais aggro perante a mesma euforia transbordante que foi peça obrigatória em quase todos os sets que interessaram no ano transacto. Próxima da UK Funky, de onde emergiu gloriosamente através de malhas como a já referida “As I” ou da “Tell Me”, encontra aqui um contínuo ainda mais entusiasmante com “Why You Always Here” na senda de todo o potencial veraneante da refix de “Goodlife” dos Inner City, sob o qual palpita subliminarmente um ressentimento amargurado. Tangencialmente, “Power on Me” abre o álbum naquele ponto em que a identidade Funky House se reconhecia na remistura do Dennis Ferrer para “The Cure and the Cause”, deixando incorrer a sua pulsação truncada num crescendo menos devastador e elegante, mas em tão tenso quanto uplifting.

Um cordão umbilical premente na lógica linear de uma “Movement” que discorre sobre o encontro e desencontro debaixo da bola de espelhos como analogia para uma relação. Um habitat que serve também de pano de fundo a “Katy on a Mission” ou “Lights On” e acaba por espelhar de modo fidedigno as angústias, esperanças e indecisões da Katy B, num plano tangível. A normal confusão de sentimentos traduzida em palavras simples, mas devidamente detalhadas para não resvalar para uma dimensão unívoca. Adoptando esse mesmo turbilhão para uma catarse celebratória que não necessita da xaropada confessional para se sentir. E todo aquele wit de quem sabe o que está a dizer.

“Go Away” revela uma faceta mais vulnerável, naquele que será o primeiro caso de uma balada de alicerces post-dubstep, e soando muito melhor do que esta descrição possa implicar. Impera a ausência que serve de matriz para o deslocamento cool de “Disappear”. ”I woke up one day to find that i have disappeared.”. O que acontece, em parte, em “Broken Record”, sujeita a um instrumental demasiado exuberante para aproveitar todas as qualidades já apontadas, do mesmo modo como “Perfect Stranger” tentou incluir à força a euforia electro de encontro ao amen break dentro de uma canção, num exercício estiloso que traz flashbacks daquele pout-pourri em torno do Big Beat que urge esquecer. Constituirão, a par do R&G sôfrego de “Easy Please Me” os momentos a dispensar de um disco que volta a celebrar a sua natureza hedonista com “Hard to Get”.

Peça Deep-House de teclados loungy que tem o descaramento de importar sopros de uma Ibiza às voltas com as inclinações para o jazz maneirinho, mesmo antes desta tendência se tornar papel de parede. Vai-se desvanecendo sob uma lista de agradecimentos sinceros, para reaparecer nova malha (faixa bónus como era norma há 6 ou 7 anos atrás?) não muito distante da rarefacção misteriosa de uns Kentphonic com o sentido rítmico de uns Crazy Couzins. Poderia ser uma afirmação de identidade mais viável do que “Katy on a Mission” não fosse o álbum já ter dado mostras significativas disso mesmo. Ou a insinuação final de que este é um disco de dança. Com rosto.

Estando todas as expectativas tão oscilantes desde que a Rinse anunciou o seu lançamento em meados do ano passado, On a Mission afigurava-se sempre como um enigma alimentado a uma escalada de sucesso meritória, mas nem sempre justificada. Longe de ser perfeito, mantém, por agora, imaculada a imagem de uma nova persona no panorama britânico mais aceitável do que aquilo em que o James Blake se tornou. Num universo aberto a colaborações, a sua imagem irá ser sedimentada numa agenda que se espera cada vez mais preenchida. Respeite-se a artista e cá estaremos para as receber com On a Mission em fundo.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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