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V/A
Bangs & Works Vol. 1 : A Chicago Footwork Compilation
· 07 Jan 2011 · 19:00 ·
V/A
Bangs & Works Vol. 1 : A Chicago Footwork Compilation
2010
Planet Mu


Sítios oficiais:
- Planet Mu
V/A
Bangs & Works Vol. 1 : A Chicago Footwork Compilation
2010
Planet Mu


Sítios oficiais:
- Planet Mu
Dança impossível escapa ao seu próprio nicho.
Numa altura em que a House nascida em Chicago nos anos 80 parece servir de padrão espiritual para músicos dispostos a recuperar a essência analógica das velhinhas TR-808 e TB-803, epitomizada em clássicos da Trax como “Your Love”, “Move Your Body” ou “No Way Back”, não de fazer todo o sentido que uma das criações obscuras da cidade comece a sofrer alguns focos de atenção. Depois de anos em que a cidade parecia ter adormecido à sombra do post-rock vai secretamente pavimentando um caminho que a possa levar de novo ao epicentro da música de dança. Para já, ainda está muito longe, não sendo muito provavelmente o Footwork o galvanizador da “revolução”. Mas, quem sabe?

Nascido no final dos anos 90 nos ghettos da cidade, a Footwork é uma cultura devedora de toda a música de competição pós-breakdance e que encontra hoje paralelo com géneros tão marginais como o Kuduro ou o Shangaan electro e cujo sentido primordial é sempre direccionado para a dança. Impulsionada por vídeos no Youtube (como começa a ser um hábito na realidade Web 2.0), tem vindo a causar algum espanto com os seus movimentos de pés de uma rapidez tão fluente (quase líquida) que parece contrariar as concepções da própria dança, e do corpo humano. A música, segue a mesma bitola de impenetrabilidade.

Um frenesim que ascende aos 160 bpm's, de padrões rítmicos nervosos e hesitantes, organizados de modo a criar uma dinâmica mais espaçada que permita o freestyle, em torno do qual se vão enredando sub-graves serpenteantes, vozes cortadas e toda uma miríade de samples. O todo acaba por revelar uma aura bastante abstracta, tão em consonância com as manobras da Planet Mu. Depois de ter editado os álbuns de estreia do wonder kid DJ Nate e de DJ Roc, abre agora uma panorâmica sobre os sons desafiantes desta música que se tem vindo a infiltrar de modo subcutâneo por entre as possibilidades de tudo aquilo que se abriga sobre a definição pós-Dubstep.

Apesar de ser música com uma função bem definida, esta compilação revela que dentro do paradigma (que se alicerça, acima de tudo, no tempo) existe um espaço de manobra que permite a singularidade dos seus nomes. Contando com alguns nomes já firmados em isolamento como RP Boo (“Baby Come On” é considerada a primeira malha Footwork), Traxman ou DJ Rashad, Bangs & Works procura revelar alguns nomes mais recentes, pouco enraizados na cena mas que tem assegurado a sua exposição a um nível menos localizado por via de plataformas como o Imeem. Putos como DJ Elmoe, Tha Pope, DJ Trouble ou o já citado DJ Nate, cujas virtudes em nada ficam a dever aos lords de Chicago.

A entrada com “Whea Yo Ghost At, Whea Yo Dead Man” de Dj Elmoe deixa desde logo vincada a ideia de que isto não é música para meninos, mesmo que sobre a a frase título repetida ad infinitum em fractais habite um sample vocal cândido. Uma agressividade latente, sublimada nos seus próprios propósitos (a destreza é a arma). Evidente em “Teknitian” de Dj Rashad ou “Total Darkness” de RP Boo, que acartam consigo todo aquele sentimento de ameaça que do jungle mais soturno passou a ser matriz para o Grime. Pelo meio, “Iz Not Rite” cria uma ligação umbilical à House, onda a diva se torna um mero fluxo condutor para ser recortado por apontamentos rítmicos. Não se trata de reverência, antes um contínuo. “The Comeback” e “Compute Funk” de Traxman são sucintas de uma linhagem pouco directa, mas presente, com códigos partilhados.

Pouco dado à sofisticação, o género permite que as ambiências mais plácidas de “2020” de Dj Spinn e “Eraser” de RP Boo (Warriors encontra “Live and Let Die”) coabitem com uma faceta próxima da apoplexia em “Star Wars” do DJ Killa E (quase Shangaan) e “Mosh Pit” do DJ Trouble, sem qualquer atropelo. Será, porventura, esse o problema da compilação e, em última instância, do próprio género, que derivado da sua faceta utilitária acaba por instaurar algum cansaço auditivo quando exposto em doses generosas. Trata-se de um refúgio, que consegue subsistir fora das arenas, sem momentos verdadeiramente dispensáveis isoladamente, e cujas propriedades são aqui postas a nú com todas as suas virtudes e defeitos. Por ora, aguenta-se à bronca e tem margem para manobras tão esquivas quanto os movimentos que insinua.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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