DISCOS
V/A
Shangaan Electro: New Wave Dance Music From South Africa
· 10 Nov 2010 · 12:36 ·
V/A
Shangaan Electro: New Wave Dance Music From South Africa
2010
Honest Jon´s / Flur


Sítios oficiais:
- Honest Jon´s
- Flur
V/A
Shangaan Electro: New Wave Dance Music From South Africa
2010
Honest Jon´s / Flur


Sítios oficiais:
- Honest Jon´s
- Flur
Capa que parodia Slipknot em versão low-cost esconde uma música bem mais infecciosa sem recurso à estalada.
Remetidos na actualidade para a província de Maputo em Moçambique e para a zona de Limpoto na África do Sul, o povo Shangaan foi, outrora, governador soberano da província de Gaza, até ser mais uma vítima do Imperialismo Português em 1895. A prisão do imperador Ngungunhane às mãos do Império Português marcou o final da glória do povo Zulu fundado por Soshangane, mas não foi impeditiva da perpetuação de uma cultura que, embora remetida a espaços geográficos extremamente delimitados, tem vindo a ser alvo de uma exposição bem mais alargada do que aquela que Joaquim Mouzinho de Albuquerque poderia esperar, depois da conversão do seu último bastião ao catolicismo. Se é verdade que os seus traços culturais mais profundos ainda são hoje desconhecidos, a música enquanto catalisador multicultural tem vindo a ser alvo de algum mediatismo adaptado à realidade Web 2.0.

Mini fenómeno viral do omnipresente Youtube, a música Shangaan tem vindo a despertar olhares curiosos para as suas frenéticas danças. Uma lógica de “partir o pescoço” que se celebra, adequadamente musicada por um som tão infeccioso quanto os nove de Iowa foram para os putos deslumbrados pelo embuste do Nu Metal. E sem precisar de recorrer a estratégias brutas de revolta inconsequente. Para o povo Shangaan este frenesim é uma necessidade vital. “Shangaan dancers, they dance, they can go on for almost an hour with that speed, without getting tired”. Insinua-se o movimento perpétuo. A catarse pela via da celebração eufórica.

Euforia assente na velocidade. ”You play it slow, they won't dance”. Com as batidas a ascenderem aos 184 bpm's, a música Shangaan pode parecer quase proibitiva num contexto de pista hedonista ocidental, no entanto e ao contrário do que se poderia pensar, nada existe de confrontacional neste registo. Os padrões rítmicos densos confundem, absorvendo essa rapidez de um modo que quase parece reiterá-la como um fim em si mesmo, enquanto descarta qualquer fricção entre eles, instalando um certo conforto paradoxal na repetição destes mesmos.

Originalmente assente numa instrumentação mais tradicional (baixo, guitarra, etc.), a nova música de Shangaan reinventa-se com recurso à electrónica rafeira. Alicerçada no primordial som da marimba hiper-cinética, para a imiscuir por entre vozes de pitch alterado, batidas aceleradas de média resolução e linhas de teclado em contracorrente facção MIDI. Impera uma pobreza de recursos física, cuja tentação poderia levar a apelidar de subprodução, mas apesar de se apresentar como um produto rarefeito (muito pela ausência dos baixos predominantes em quase toda a música de dança), existe um cuidado especial na construção deste esqueleto. Sustenta-se numa dimensão vaporosa, mas detalhada.

Compreendendo sete nomes vindos dos Townships sul-africanos dispersos por 12 faixas, esta compilação da Honest Jon's é a primeira e mais essencial mostra de uma música (re)nascida nos centros urbanos mas com o coração no Lipoto rural. Artistas desconhecidos de um fenómeno comercial ainda muito localizado mas com argumentos para poderem vir a crescer como objectos de culto em meios mais atentos. A abertura com “Ngunyuta Dance” de BBC é desde logo enfática daquilo que se irá passar ao longo do disco. Uma melodia quase idiota em corrida que nunca chega a lado nenhum e uma voz profunda em registo semi-spoken word que descarta o refrão em prol de coros metralhados disposto como um slogan que vira mantra em miniatura. Sem atropelos à boa onda.

Num som cujas premissas parecem estar tão fundamentadas de raíz, Shangaan Electro : New Wave of Dance Music from South Africa poderia correr o risco de resvalar para uma consistência uni-dimensional. É um facto que todas as malhas assentam arraiais numa instrumentação idêntica, mas dada a frescura de tudo isto, acaba por nem se revelar pernicioso. Trata-se de música de dança, no sentido mais verdadeiro da palavra, onde a repetição é via para a comunhão entre o corpo que não se cansa e uma mente ao abandono. Esbatem-se as diferenças, mas permanece um corpo de obra importantíssimo, cujo entusiasmo se revela sem parcimónia. É deixar-se levar.

Nota : As citações inclusas são da autoria de Nozinja, conceituado produtor sul-africano e mentor do Shangaan Electro.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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