DISCOS
Kingdom
That Mystic EP
· 09 Set 2010 · 11:33 ·
Kingdom
That Mystic EP
2010
Night Slugs


Sítios oficiais:
- Kingdom
- Night Slugs
Kingdom
That Mystic EP
2010
Night Slugs


Sítios oficiais:
- Kingdom
- Night Slugs
Tiros certeiros para o cérebro sem perder de vista a noção que o corpo é uma coisa muito bonita.
Com o epicentro da música de dança londrino a deixar de lado os clashes de outrora para se assumir cada vez mais como uma confluência das mais variadas estéticas, seria inevitável que essa transversalidade entre géneros firmados como o Dubstep ou a UK Funky e criações obtusas como Global Bass ou Dubbage viesse a assumir-se também num plano físico. Com a Rinse a assumir o protagonismo que sempre lhe foi devido, também editoras como a Hyperdub se vão desembaraçando timidamente da sua própria estética (Cooly G ou o recente 12” de Ill Blu) para darem espaço a linguagens menos reclusas.

Neste ponto, a Night Slugs será o primeiro exemplo acabado desta mesma polinização. Iniciando as suas actividades com noites periódicas homónimas onde o mulherio mais lascivo coabitava em dança esquiva com os thugs de E3 ou toda uma miríade de hipsters (do esquelético de boné de basebol ao vestidinho classy da rapariguinha cocainada), tem vindo a assumir-se como uma das editoras mais fulcrais para a compreensão dos caminhos mais estimulantes pelo urbanismo electrónico. Para que o mapa não se esgotasse neste centralismo londrino, foi necessário fretar voos low-cost para destinos como a África do Sul ou Estados Unidos numa de apanhar o pulso àquilo que de mais estimulante tem ocupado as pistas.

Neste ponto, a edição de That Mystic pela editora de Bok Bok e L-Vis 1900 tratou-se de uma manobra mais do que acertada com destino à globalização. Assomo de sensibilidade R&B filtrado pelos tiques da UK Garage, “Mind Reader” foi um fractal lúdico sem perda de interesse racional. Referência factual de como géneros tão demarcados geograficamente podem coabitar naturalmente no cérebro de um gajo vindo de Nova Iorque e com historial no subdesenvolvido US Garage.

Dado o facto de existir um apelo claramente cerebral na música de Kingdom que o afasta do hedonismo da efervescência da UK Funky, That Mystic poderá também ser alvo de recepção calorosa de um grupo de connoiseurs da música de dança para quem esta se esgota num contínuo Post-Dubstep (Silkie, Jam City, etc.), pouco dados às acrobacias rítmicas de nomes como Devine Collective ou Screama (já o Lil Silva ou o Roska saltam essa intransigência idiota com relativa facilidade). Um escape viável, para mentes capazes de absorver carinhosamente objectos inúteis como Contact, Love, Want, Have de Ikonika.

Embora não exista ao longo de That Mystic nada tão relevante como “Mind Reader”, esta sexto EP da Night Slugs consegue ainda assim mostrar uma identidade vincada sem resvalar para o auto-egocentrismo da descoberta ou experimentação lacónica. Talvez o som mais comedido de That Mystic tenha sido uma opção estética de bom senso, não fosse cair numa hiperactividade inócua. A realidade pode, por vezes, estimular nessa mesma pacatez. “Fogs” constitui a peça central deste mosaico equilibrado e o seu momento mais austero. Partindo de uma toada algo soturna onde um subtil kick grime 4/4 serve de base rasteira para um sample de “Sweet Dreams” da Beyoncé e notas esparsas de sintetizador a atirar para o épico baratinho. Kingdom nunca deixa que o ambiente se imponha, antes deixando-o desvanecer constantemente com recurso à entrada de vários elementos melódicos (aquele arabesco em reverse ou o 8-bit em contratempo dub) e rítmicos (tarola half-step versus break muito TR-808).

Esse lado algo taciturno/misterioso é, aliás, uma das marcas do EP, mas Kingdom sabe deixar os temas respirar o suficiente para que a diversão seja sempre um dos objectivos finais. “That Mystic” a abrir, é disso reveladora, nunca deixando que um elemento melódico assuma o protagonismo ameaçador, para que um novo actor entre em cena como a Cassie de “Me and U” sob a forma de uma voz transmutada. Samples que em “Bust Broke” se apresentam plenos na sua soulfullness, num paralelismo natural com a melodia sintética e batida escorregadia, como que a vislumbrar o céu. Até “Pang” desvirtua o seu lado Dubstep para algo muito mais interessante. E mesmo que “Seven Chirp” pareça incorrer em tácticas IDM de sampling metafísico, existe sempre um pulso firme que impede o vazio no momento certo.

That Mystic é um objecto consciente das suas capacidades. Cartão de visita coerente de um universo referencial que atinge uma identidade particular sem impor algum tipo de ascetismo e que vem confirmar a Night Slugs como plataforma essencial na redefinição daquilo que é ou não aceitável numa pista de dança.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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