Daniel Higgs / David Maranha + Gabriel Ferrandini
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
13 Nov 2010
Desde sempre a Galeria Zé dos Bois habituou o seu público à colisão de artistas que aparentemente deslocados, acabam por fazer todo o sentido numa casa também ela deslocada de premissas estanques. À partida nada poderia fazer sentido numa noite em que a bateria de Gabriel Ferrandini se encontra com o Hammond de David Maranha e estes cedem o palco à poesia hermética de Daniel Higgs, mas no final a conjectura resulta. Quanto mais não fosse por uma partilha sensorial num campo onde a música ainda existe enquanto necessidade vital.

É natural recorrer a uma expressão próxima do “encontro de gerações” quando se procura um ponto de partida para esta estreia do duo de Gabriel Ferrandini e David Maranha. De um lado, a efervescência de um dos nomes emergentes no panorama da música mais far out, do outro, a constatação de uma obra cujo valor residual tem vindo continuamente a ser posto em causa ao longo das últimas duas décadas. Margens que se dissipam na corrente de acontecimentos protagonizada pelos dois músicos portugueses. O já reconhecível drone massivo do Hammond de Maranha cedeu a um maior frenesim harmónico para dialogar de um modo imprevisível com a totalidade da bateria de Ferrandini. Assomo de precisão e de uma minuciosa capacidade de se assumir tão explosiva (mote lançado primordialmente por Ferrandini) quanto dinâmica, num poder de fogo assinalável que nunca descambou para o descontrolo. Prova da mestria de dois músicos singulares que assim redescobrem novos caminhos para si próprios enriquecendo com isso toda a música que gravita em seu torno.

Dono de uma barba notável, Daniel Higgs é, desde logo, uma persona singular de toda e qualquer música dos últimos 20 anos. Uma daquelas peças cuja idiossincrasia se pode assumir tão fascinante como repulsiva. A figura de Higgs é reflexo da sua obra. E essa obra pauta-se por habitar um limite onde a música se confunde com poesia, o canto com prece. Um todo de desarmante indefinição que se assume tão deslocado, como à experiência de assistir em carne àquela figura no Aquário da ZDB. É como se estivéssemos perante a música mais primitiva. De essência. Particularmente notório numa “primeira parte” para voz e harmónio, com Higgs a encadear três canções como se fossem uma só, jogando com as letras num mantra irresoluto sobre a (in)sanidade, Deus e uma terceira guerra mundial. Explorando as inúmeras possibilidades dos seus trejeitos vocais com espaço para a conversa casual em torno de assuntos tão mundanos quanto surreais. Dissipou aquela impenetrabilidade aparente da sua obra, com uma desarmante humildade, reflexiva de um patrão em paz com a sua obra. A “segunda parte” trouxe as melodias do banjo em formatos mais identificáveis, mas sem qualquer pretensão categórica, antes uma continuação lógica das suas premissas de sempre. Questões infindáveis que iriam culminar num pseudo-encore a capella de “Somewhere Over the Rainbow”. E com isso, encerrar um daqueles happenings para os quais a prosa analítica falha. Higgs encerra o seu próprio Mundo, e nada daquilo que faz poderá ser entendido como excentricidade gratuita. É o estranho pela naturalidade. Pela vivência. Vai para o caralho, Devendra.
· 03 Dez 2010 · 15:31 ·
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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