Tributo a Scott Walker
Casa da Música, Porto
06 Out 2006
A ideia era boa, a concretização deixou muito a desejar. Dificilmente haveria uma melhor altura para homenagear um compositor tão pouco mainstream mas ao mesmo tempo tão influente como Scott Walker, e a iniciativa da Casa da Música e da editora Transformadores (partindo do álbum de tributo Angel of Ashes - A Tribute to Scott Walker) até tinha razões para dar certo. Mas inúmeros problemas de produção e de alinhamento dos artistas convidados deixaram a descoberto um evento pobre e algo desconexo. Os problemas começaram com uma sala a um quarto da sua lotação (15 euros sem que nenhum dos nomes internacionais fosse de “primeira divisão” é pedir muito) e prolongaram-se com convidados que pareceram por vezes mais interessados em mostrar a sua música do que em homenagear Scott Walker. Por fim, as projecções de imagens do músico que preenchiam o tempo (sempre injustificadamente longo) entre as entradas dos vários artistas tinham um visual próximo do amador.

Cada interveniente no espectáculo teve direito a três temas. O multi-instrumentista Aranos foi o primeiro a entrar em palco e a ideia de cantar “The sun ain’t gonna shine anymore” por cima de uma base totalmente pré-gravada não foi a melhor, porque a afinação vocal não é definitivamente o seu forte. Seguiu-se uma versão fantasmagórica de “The Escape” (do recente The Drift), ao violino, e “Sunset Beach's Crumble”, tema original do músico nascido na Bohemia, uns bons 15 minutos de experimentalismo, violino tocado ao vivo sobre trechos samplados. Momento seguramente dispensável atendendo ao contexto. Seguiu-se Sally Doherty, acompanhada por três músicas (piano e violino e violoncelo eléctricos). Começaram com um tema original, num registo jazzy, e seguiram depois para duas composições de Jacques Brel, “If You Go Away” e “Sons of”. Sally tem uma voz cristalina, o acompanhamento instrumental foi imaculado, mas o universo de Walker esteve um pouco distante. A primeira parte foi fechada por um Quinteto Tati reduzido a terceto, que apresentou a já tradicional “Rosemary”, seguida de “When Joanna Loved Me” (em intenso registo crooner de JP Simões) e “Next”, apresentada como “a violenta perda de virgindade de Jacques Brel num bordel ambulante”. Foi o único aparte de um JP discreto, o que significa que percebeu completamente o que é um espectáculo de tributo.

Na segunda parte, os Corsage (única banda “completa” da noite) deram um ar de pop-rock simpático: começaram com um medley que incluiu “Hero of the War”, tocaram um tema original, e passaram por “The Old Man's Back Again” e por Brel. Entretido, sem entusiasmar. Rose McDowall, personagem algures entre o gótico (como denunciava o vestuário) e o folk apocaliptíco, interpretou “Make it easy on yourself”, o original “Let There Be Thorns” e “Saturday's Child”, dos Walker Brothers, com o acompanhamento de um guitarrista e de um baixista. Denunciando pouco à vontade, não se pode dizer que tenha trazido um grande valor acrescentado. A fechar, Jorge Palma e Xana foram os que mais acertaram no cenário que criaram: intimista, num canto do palco, com um piano, uma mesa, uma vela, dois copos de vinho. Mas se Jorge Palma ao piano a interpretar “Two Ragged Soldiers” e os duetos “Amsterdam” (com Xana a cantar em francês e Palma em inglês, numa violenta cacofonia) e “Rosemary” fizeram sentido, já a inclusão de “Só” e de “Sempre Mais” (dos Rádio Macau) no alinhamento resultou no mínimo estranha no âmbito do que deveria ser um tributo. Para quem, ao que parece, terá decidido o que tocar na noite anterior, nem esteve mau: é engraçado ver dois amigos a divertirem-se em palco durante uns minutos, desde que sejam bons músicos.

Em jeito de conclusão, teria sido possivelmente mais interessante reunir apenas os artistas portugueses da compilação (de fora ficaram os Plaza, os Raindogs, os BCN e Flak) e dar-lhes tempo de ensaio de maneira a conseguir-se um espectáculo com um mínimo de consistência, mas por mil e uma razões isso terá sido provavelmente impossível. Ou seja, pode-se argumentar que a alternativa ao tributo que se viu era não fazer nada, e é de louvar que a Casa da Música se empenhe em ser mais do que uma sala de acolhimento. Só que certo mesmo é que este evento ficou uns furos abaixo da qualidade mínima que se pede à instituição.
· 06 Out 2006 · 08:00 ·
João Pedro Barros
joaopedrobarros@bodyspace.net

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