ETC.
DVD
Live At Reading
Nirvana
· 07 Abr 2011 · 08:38 ·
Live At Reading
Nirvana
2009
DGC Records
Live At Reading
Nirvana
2009
DGC Records
Um dos maiores concertos dados pela banda encontra o seu espaço em DVD, sem que se note alguma vez que o mito se perdeu. Dedicado a fãs, não-fãs e/ou fãs em potência.
A primeira vez que vi o vídeo para "Smells Like Teen Spirit" na então imprescindível MTV tinha sete, oito anos. Passaram-no imediatamente antes de "Self Esteem" dos Offspring e creio que de um episódio de Beavis & Butthead. Como é normal, naquela altura a malta nascida no pós-86 pouco ligava à música, preferindo orientar os seus interesses para os jogos de bola na rua até que se acendessem os candeeiros (melhor que qualquer relógio), para as Mega Drives e Master Systems onde o Sonic era uma presença constante, para o Buereré aos Sábados de manhã e, com a distinta ajuda dos rapazes mais crescidos, para as primeiras revistas onde senhoras sorridentes agarravam em pilinhas. Isso das guitarras ficava geralmente para os irmãos ou irmãs mais velhos; as nossas canções eram as do Eurodance trauteável ou a cassete dos Onda Choc. Não se sabia o que era flanela, ou grunge, ou Nirvana; gritava-se num inglês infantil with the lights out it's less dangerous, mas apenas porque era hilariante. Não tinha o sentido de hino que veio a ter - para nós - muito mais tarde.

Não me lembro do anúncio da morte de Kurt Cobain. Lembro-me perfeitamente da de Ayrton Senna, por exemplo. Mas não da morte que marcou um fim, que deixou um vazio nas cabeças dos então adolescentes. É-me estranho que hoje, ao ouvir os Nirvana dezassete anos após a morte de Cobain, esse vazio se encontre presente, não sendo eu adolescente ou prestes a sair da adolescência. Comecei a ouvir música seriamente (isto é: a expandir horizontes, a aprofundar conhecimentos, a caçar novidades) precisamente aos dezassete. Poderia julgar este sentimento um reflexo da tendência em pensar que os anos da nossa infância foram os melhores das nossas vidas, e que por isso há que os revisitar, ou emular; mas, dada a importância dos Nirvana na história da música, sinto que isso seria menosprezá-los.

Fora da busca por uma explicação para esse sentimento está a música. Live At Reading documenta um dos concertos mais míticos da banda de Seattle, um ano antes de Kurt Cobain ter tentado a sua auto-destruição com In Utero - e falhado miseravelmente, já que o álbum vendeu 180,000 cópias na primeira semana do seu lançamento -, dois anos antes de o ter conseguido via suicídio. Um DVD onde a tal geração de que falava antes, que é a minha, pode testemunhar in loco que os relatos da energia do trio em cima de um palco não eram infundados; basta ver e ouvir, logo após a entrada cómica em palco de um Cobain em cadeira de rodas, o impulso de "Breed" (provavelmente, uma das melhores aberturas de um concerto - e de um disco, na sua edição em CD - de sempre), com Antony Hodgkinson a dançar como um idiota enquanto na voz de Cobain ressoa um honesto I don't care. Basta ouvir os rasgos eléctricos de "Aneurysm" e "Sliver", presenciar o primeiro grande acesso de entusiasmo do público aos primeiros acordes de "Come As You Are" e o seu seguimento quando acompanham Cobain em "Lithium", o lado maníaco de uma canção como "Tourette's" (this song is called "The Eagle Has Landed" and it's for all you bootleggers), a sabotagem feita a "More Than A Feeling", perdão, "Smells Like Teen Spirit", que adquire um novo solo de guitarra muito mais desconexo, e daí em diante por "Negative Creep", "All Apologies" (dedicada à filha de 12 dias e à mulher, presenteada a pedido com um Courtney we love you!), ou "Stay Away" até ao final caótico de "Territorial Pissings", quando as colunas são deitadas abaixo, a câmera faz zoom in à guitarra de Cobain notando-se espirros de sangue nas cordas e no ar fica apenas a electricidade juntamente com a sensação de que tanto nós em nossa casa como cada um dos que ali estiveram há 19 anos acabaram de presenciar um dos marcos históricos que tornou os Nirvana em monstros do rock, no mesmo panteão de Jimi Hendrix (aceno óbvio, através do hino norte-americano). Mas, como que para lembrar que esses monstros são também gente, o DVD termina com a cena memorável de Cobain com um jovem fã portador de leucemia, entre autógrafos, presentes e elogios. Assim sobrevivem os mitos.

Mesmo para não tem em 1991 o seu ano, os Nirvana serão sempre mais que uma banda, apesar do que possa ter dito o Sr. David Meadsa. Mesmo sabendo que não se pode recriar ou reviver a história, e que os Nirvana continuarão para sempre naquele plano inalcançável do what if..., que é o que inevitavelmente continua a angariar fãs por todos os cantos da melomania e não só. O espírito adolescente atravessa década após década, independentemente das variações mutáveis da causa I Hate Myself And Want To Die. Hoje como no passado como o será no futuro, esta música será a voz de uma geração.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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