ENTREVISTAS
Joana Machado
Crua
· 05 Abr 2006 · 08:00 ·
Num momento em que são várias as novas vozes que surgem no jazz nacional, Joana Machado já conseguiu conquistar um terreno só seu. No seu primeiro disco, CRUde, desenvolvido em parceria com o guitarrista Afonso Pais e acabado de editar pela Tone of a Pitch, encontrou o veículo certo para a afirmação da sua bonita voz. A cantora natural da Madeira, para quem a voz é apenas mais um instrumento, desvenda ao Bodyspace alguns segredos do seu trabalho e revela esperança para o futuro.

Como foi feita a selecção dos temas para o disco, alternando entre standards, temas brasileiros e originais?

Os temas que escolhi gravar são principalmente temas com que me identifico, seja com a peça em si ou com a linguagem muisical do seu compositor. Há algum tempo que venho a desenvolver a minha interpretação neste conjunto de peças e senti que tinha já um contributo pessoal e um entendimento profundo das suas estruturas. O Afonso Pais tratou criar um fio condutor com os arranjos que escreveu - personalizando os temas com o seu imaginário - e apesar das notórias diferenças de estilos, penso que se conseguiu criar uma linguagem comum a todos os temas.

Porquê o título pesado como CRUde, quando a música revela uma certa leveza?

Não entendo o que quer dizer com leveza. É um disco lírico e introspectivo, sem dúvida. Privilegiámos os tempos lentos e médios, foi o que idealizámos inicialmente.
O título é CRU. Porque é assim a minha forma de estar na música: audaz, fruto de muito trabalho e paixão, e sem conotação idiomática específica. Sincera acima de tudo. Como a Tone of a Pitch tem apresentado os seus discos em inglês (na maioria dos casos), eu quis que os textos estivessem em português e inglês, e com o designer gráfico estudou-se uma forma de o disco ter também um título bílingue. Então CRUde = cru em inglês, e petróleo bruto em português. É uma subtileza, uma dualidade.

Como compatibiliza o relacionamento artístico com o Afonso Pais (guitarrista e compositor no seu grupo), que é seu marido?

Entendemo-nos e respeitamo-nos profissionalmente, temos muita cumplicidade musical. Começámos a trabalhar juntos em 2000 com uma parceria composicional e muito mais tarde tornámo-nos um casal. Mais não digo.

No disco canta em inglês e português do Brasil. Não lhe interessa cantar no “nosso” português?

Para já não. Não tenho raízes na música tradicional portuguesa, sou da Madeira onde quase não há contacto com o fado, passei a adolescência a consumir música estrangeira. Realmente ainda não me dediquei a cantar em português de Portugal, o que não quer dizer que nunca o faça. A música brasileira tem uma riqueza rítmica e harmónica extraordinária, com claras influências do jazz (João Gilberto e Tom Jobim criaram essa ponte) e o sotaque proporciona uma grande diversidade de interpretações… Além disso há uma grande tradição de parcerias entre músicos e letristas com resultados magníficos: Jobim-Vinícius, Jobim-Buarque, Hime-Buarque, Lobo-Buarque, Guinga-Aldir Blanc, etc. Acho que o que mais me fascina na música brasileira é o formato “canção sofisticada”, muito rica harmonicamente, cheia de subtilezas rítmicas e letras sublimes. O nosso português é muito difícil de fazer soar ágil e musical (no jazz pelo menos), tem muitos ditongos fechados ôs e õs. No entanto sou portuguesa e influenciada pelo sítio onde vivo e onde tenho raízes. A minha música é também portuguesa e a minha forma de cantar reflecte o estado de espírito daquilo que me caracteriza como portuguesa.

O disco CRUde aposta muito no scat, poucas são as partes cantadas de modo tradicional. Mais do que as palavras, gosta de cantar os “sons”?

A música acima de tudo. Quando não tenho palavras, ganho mais um espaço criativo. As sílabas = forma de exteriorizar sons, são estudadas de forma a satisfazerem a intenção do tema e a facilitar a sua articulação rítmico/melódica. Muitas composições “modernas” não têm letra, não foram sequer gravadas com voz ou intencionadas para a voz, o que não implica que se eu as quiser cantar tenha que “desenrascar” uma letra. Para mim não faz sentido. Resumindo, sou um instrumento como outro qualquer, com limitações é certo, mas que ambiciona superar algumas dessas limitações e atenuar as fronteiras entre a música classificada como “cantável” e a música instrumental. Há cantores a fazer isso muito bem. Claro que é preciso ter outras competências que não apenas uma voz bonita, é preciso estudar harmonia profundamente, praticar leitura à 1ª vista, saber dezenas de escalas e a sua aplicação harmónica, desenvolver habilitações rítmicas, muito trabalho mesmo.

Como se vê no actual panorama do jazz português, ao lado de cantoras como Maria João, Jacinta ou Paula Oliveira, entre outras?

Penso que temos contributos muito diferentes, o que é óptimo. Não estamos a competir mas a coexistir.

Tal como assistimos actualmente a uma nova geração de cantoras de fado, existe em Portugal uma nova geração de cantoras de jazz?

Sem dúvida. Não só de cantores mas de músicos de jazz. O panorama está a crescer seriamente e com cada vez mais qualidade. Há muitos músicos extraordinários a surgir com trabalho original e diverso. Faltam oportunidades…

Quem são as suas referências internacionais do jazz vocal que actualmente mais respeita?

Luciana Souza (com quem tive o privilégio de estudar), Bobby McFerrin (o auge da voz-instrumento), Lizz Wright, Claudia Acuña. Do jazz actual ouço poucos cantores, prefiro ouvir secções rítmicas e ensembes liderados por sopros (Kevin Hays, Mehldau, Chris Cheek, Peter Bernstein, entre muitos outros).

Como decorrem as apresentações ao vivo?

É o melhor. Estamos a contribuir em tempo real para a música, há sempre surpresas e versões novas dos temas.

O que espera do futuro? Depois deste disco tem planos para o médio/longo prazo?

Espero poder construir uma carreira sendo fiel a mim mesma. Cantar, continuar a estudar música, superar-me.

Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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