ENTREVISTAS
Rosie Thomas
Canções em suspenso
· 29 Mar 2006 · 09:00 ·
Muito mudou a vida de Rosie Thomas nos últimos tempos. Para bem, entenda-se. If Songs Could Be Held, o seu último registo, gravado com a presença do sol na Califórnia, é o primeiro disco onde a cantautora se aventura a fazer música com outras pessoas fora do seu circuito de família e amigos. Como resultado, neste seu terceiro disco, parece ter acontecido aquilo que ninguém – nem mesmo a própria – imaginava ou previa: a menina reservada e prudente dos dois primeiros discos é agora uma mulher crescida. Saiu do quarto cor-de-rosa de outrora para caminhar mais vezes pelas ruas e pela vida real e veio contar-nos o que viu. Presentemente, quando regressa à sua infância fá-lo mais adulta do que nunca, quando olha para o futuro parece mais confiante do que sempre. Actualmente, para Rosie Thomas, o retorno ao passado parece ser por vezes uma forma de melhor antecipar o que está para vir; não teme o tempo, as pontas soltas, o amanhã nem mesmo a morte. Em Nova Iorque, onde se encontrava para conduzir um novo projecto desvendado na conversa que se segue, Rosie Thomas respondeu a algumas questões que era obrigatório e legitimo serem colocadas nesta altura da sua vida. Uma vida que, submetida e dedicada ao songwriting, já não é segredo para ninguém.

O que é que se lembra dos dias em que começou a escrever canções sozinha?

Lembro-me de me sentir verdadeiramente livre para escrever sobre fosse o que fosse, nada me prendia. Era mais complicado na altura escrever porque estava a adquirir um sentido do mundo e eu ainda não tinha a certeza sobre aquilo que eu queria dizer exactamente ou o que eu queria contribuir ainda como escritora de canções. As canções que eu escrevi na altura, comparadas com as de agora, eram muito diferentes apenas porque a minha vida era diferente na altura, mesmo assim escrevia de uma forma muito similar à forma que eu escrevo agora. Foram precisas essas canções do início para eu chegar onde estou agora. Foram precisas essas canções do início para me ajudarem a tornar uma melhor escritora. Escrevi toneladas acerca do amor e uma tonelada acerca de sonhos e aspirações, tinha 14 quando comecei a escrever e escrevi muito acerca daquilo que me iria tornar porque essa era a primeira resposta que eu estava desesperadamente a tentar encontrar na altura… estava ainda a tentar encontrar o meu lugar na vida e eu acho que agora encontrei-o finalmente.

O que é que nos pode contra acerca da sua experiência com os Velour 100? Gostou de trabalhar com uma banda?


Conheci o Trey Many através de amigos mútuos. Sabia que eles estavam à procura de uma cantora feminina na banda deles e eu fui a uma audição para ele no apartamento dele algures nesse verão e comecei a andar em digressão com eles nesse Outono. Adorei trabalhar com uma banda inteira, foi libertador para mim porque tudo aquilo que eu tinha de fazer era cantar. Foi uma óptima mudança para mim e foi tão divertido. Ainda sou muito amigo daquele pessoal, por coincidência, o Trey é o meu booking agent neste momento.

É difícil para si lidar com temas tão complicados como os amor, a introspecção, a decepção e a vida? Por vezes as suas letras parecem quase cartas escritas a um amigo ou a um membro da família…


De forma nenhuma. Eu escrevo da forma que eu quereria falar com um amigo. Escrevo de uma forma muito aberta e honesta. Sinto que se não o fizesse não teria razão alguma para ser uma escritora de canções. É muito importante para mim como escritora e como pessoa que eu me exponha a minha própria às pessoas, que eu me permaneça vulnerável em admitir a minha luta. Acho que é importante porque eu penso que é aquilo que todos nós precisamos de ouvir na maior parte das vezes para nos lembremos às vezes do quão humanos todos nós somos e de quão destroçados podemos ser também.

Último disco foi o primeiro a contar com músicos de fora do meu círculo de amigos. Como é que se sentiu?


Gostei muito. Gostei muito porque foi desafiador e trouxe-me para fora da minha zona de conforto e eu preciso de ser despedaçada por vezes para crescer e descobrir novas coisas acerca de mim mesma e ao faze-lo dessa forma ajudou-me a encontrar novas coisas acerca de mim, musicalmente, também.

Mudou-se para Pasadena na Califórnia para gravar o seu terceiro disco. Achou que uma mudança de cenário dar-lhe-ia aquilo que precisava para atingir o objectivo? Como é que estava a Califórnia?

Adorei. O trânsito era uma chatice mas adorei porque o sol brilha realmente lá e nos meus dias de folga podia ir ver o oceano… isso foi muito bom.

O disco foi gravado por Mike Busbee e também contou com a ajuda do arranjador de cordas Josh Myers e de Dino Meneghin. Quer-me parecer que todos eles têm grande crédito neste disco. Como é que foi trabalhar com todos eles?

Óptimo. Estar perto de tanta gente talentosa foi emocionante. O Mike ajudou-me a construir as minhas canções para um lugar para o qual eu nunca teria consigo leva-las por mim própria. As partes de cordas do Josh fizeram-me chorar na primeira vez que as ouvi, eram exactamente aquilo que eu tinha esperado que elas viessem a soar. O Dino teve tanto bom gosto nas partes de guitarra que quase se sentia como se nós tivéssemos vindo a tocar numa banda juntos desde há muitos anos…

If songs could be held parece um pouco mais aberto e menos intimista do que os seus antecessores. Estou a pensar em “Pretty Dress”, por exemplo. Concorda?


Sim e não. Tentei escrever de forma diferente desta vez, não tão pessoalmente porque eu já tinha feito tanto disso nos primeiros dois discos. No entanto, também descobri que mesmo a escrever de forma mais ficcional isso vinha de mim da mesma forma. Todos os pensamentos vinham da mesma forma do mesmo pensamento ou da minha interpretação de como eu vejo as coisas.

Acha que alguém que ouça o seu disco possa pensar que decidiu levar as coisas para um lugar completamente diferente? Tinha essa intenção?

Não sei se iria tão longe ao ponto de dizer que o acho assim tão diferente dos primeiros dois discos. Eu esperaria que alguém que tivesse ouvido os meus primeiros dois discos e depois o terceiro fosse capaz de ver o crescimento pelo qual passei nos últimos três anos ou assim. Este disco tem definitivamente mais precisão e foi produzido mais profissionalmente do que nos primeiros dois discos, o que era aquilo que eu queria. Queria fazer um disco clássico que tivesse um certo valor de produção que os dois primeiros discos não tinham.

Imagino o seu dueto com o Ed Harcourt como um momento especial para si. Qual é a história particular com essa canção?

A canção que eu e o Ed cantamos juntos era uma canção antiga que o meu pai me costumava cantar a toda a hora por isso era realmente muito especial para mim. Não podia pensar em ninguém mais perfeito para a cantar comigo do que o Sr. Harcourt, a voz dele é tão bonita e aconteceu que ele estava em digressão pelos Estados Unidos na altura e por isso correu tudo de forma tão perfeita tê-lo a cantar nessa canção.

A imprensa compara o seu novo disco a uma "tarde chuvosa de verão numa garrafa" e “melancolia de domingo de manhã”… É essa a forma como vê o seu próprio trabalho?

Se eu tivesse uma citação para o meu trabalho eu diria isto: A janela para o coração de um doente mental.

Qual considera ser o disco que melhor a representa como pessoa?

Joni Mitchell, Blue,

O que é que está a ouvir neste momento? Quais são os discos que gosta de manter por perto neste últimos tempos?

O novo disco da Cat Power, Norah Jones, Rufus Wainwright, Rogue Wave, Damien Jurado, Tori Amos. Iron and Wine, The Postal Service, Talk Talk, Sparklehorse, Stevie Wonder, Sufjan Stevens, Denison Witmer, Aretha Franklin, the Roots, The Be Good Tonyas, The Jackson 5.

O que é que faz mais nos seus tempos livres?

Organizo muito. É estranho… estou constantemente a ver as coisas e a deitar coisas fora… tento ser o mais imaterialista possível acerca da vida. Não possuo qualquer outra mobília além de uma cama que me foi dada há dois anos… quanto menos tenho, melhor me sinto. Tenho trabalhado na finalização do documentário da Sheila e a preparar-me para o editar em breve. Coso cachecóis e sacos nos meus tempos de inactividade para vender nas digressões… a minha companhia de costura chama-se Sing-A-Long e coser é terapia para mim, gosto muito de o fazer. Escrevo tanto quanto possível e passo tempo com os meus amigos mais próximos tanto quanto possível também.

No seu website escreveu em Janeiro que iria para Nova Iorque em breve para gravar algumas canções com alguns bons amigos. O que é que nos pode contra acerca disso? Em que é que está a trabalhar neste momento?

Estou neste momento no apartamento do Sufjan Stevens em Brooklyn. Estamos a trabalhar em novas canções e a escrever juntos. Começamos este projecto há um ano atrás e escrevemos três canções na altura, espero escrever mais um par delas juntos enquanto estou aqui e lança-las como um EP. Estou a tentar colaborar tanto quanto posso com outras pessoas ultimamente, ajuda-me imenso a manter-te apaixonada e eu cresço imenso no processo.

Disseram-me que a Sr. Sheila Saputo voltou. É verdade? O que é que ela esteve a fazer este tempo todo?

Sim, ela voltou! Ela foi fazer acampamento espacial durante uns tempos e depois sujeitou-se a três operações a laser aos olhos, todas provaram ser insucessos. Ela tem ido a toneladas de audições e trabalhado no seu filme no último ano ou assim. Acho que ela pode vir a acompanhar-me na minha próxima digressão, promovendo o seu novo documentário em que ela tem trabalhado tão duramente.

Os títulos dos seus discos são sempre tão ilustrativos e inspirados. Como chamaria ao seu próximo disco se tivesse de escolher um título hoje?

Chamar-lhe-ia Anatomy of a Nervous Breakdown.

O que é que aconteceria se as canções pudessem ser seguradas?


Provavelmente haveria mais casos de escoliose e dores nas costas porque as canções são bastante pesadas!

André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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