ENTREVISTAS
Camarão
Regresso ao futuro
· 13 Fev 2006 · 08:00 ·
© Diogo Valério
Na sua estreia a solo pela Loop Recordings, Alexandre Camarão mergulhou na sua colecção de discos e, consequentemente, estabeleceu contacto com um alargado legado de artistas que marcaram a música ao longo das décadas; partiu dele para atingir um propósito. Alice Coltrane, Balanescu Quartet, Fela Kuti, Deodato, Les Rita Mitsouko, Inner Life, Marc Moulin, Né Ladeiras, Phlip Glass, Stevie Wonder, Salsoul Orchestra ou Underground Resistance são nomes que constam da lista de dedicações de Remixes, um disco onde o título faz todo o sentido. A viagem é longa e eclética. Alexandre Camarão aventura-se confortavelmente por áreas como o disco, o funk, a soul, o afro-beat, o jazz ou até a música brasileira – terrenos férteis, portanto. E para isso, apesar do trabalho solitário em frente a um Mac, Alexandre Camarão fez-se acompanhar de um rol de artistas que facilmente podem dar umas luzes acerca daquilo que The Remixes é e pode ser: André Fernandes, Francisco Rebelo, Melo D, Kalaf, Marta Hugon ou Joana Ruival, entre outros. Remixes é um disco de viagem, em viagem. Um regresso ao futuro.

Para começar, há algum motivo especial para a mudança de Shrimp para Camarão? Que efeitos podem ter a "nacionalização" do nome?

A mudança está relacionada também com a mudança de editora e no fundo com alguma mudança na própria música. Em relação aos "efeitos" penso que há uma espécie de "começar de novo" que pode ser saudável e quanto à "internacionalização" do nome não há nada a temer: Camarão diz-se bem em todas as linguas!

Sabe-se que és um ávido coleccionador de discos… Assim de repente, e entre melómanos, quais são os discos da tua colecção que mais te orgulhas de possuir? Há alguns com estórias especiais?

Não sou assim tão ávido. De qualquer modo e sem referir nomes, orgulho-me muito da minha colecção de techno de Detroit (que não é grande mas tem aquilo de que mais gosto) e de alguns discos de jazz. Ok, refiro um nome: orgulho-me muito de ter o maxi Zimpó dos Mler if Dada, música com a qual ganharam o concurso do Rock Rendez-Vous.

The Remixes. Podes falar acerca do título do teu último disco e do seu significado?

The Remixes refere-se ao modo como as músicas do meu último disco foram criadas. O método de trabalho foi o mesmo que uso quando remisturo uma música, mas aqui com a diferença de que em vez de remisturar uma música para fazer outra, parti de várias para fazer uma. No fundo, peguei na minha colecção de discos e "remisturei-a" criando um disco novo que poderá de alguma forma ser o retrato da minha colecção.

Como foram os tempos de concepção de Remixes? Quanto teve de avanços, quando teve de recuos?


O disco começou a ser feito logo em 2002. Depois do disco Electric Sul, estive uns tempos de "quarentena" sem fazer música. Nesses meses, peguei pacientemente na minha colecção de discos e fui samplando algumas partes, construindo uma base de sons que mais tarde iria ser a matéria-prima do The Remixes. No inicio de 2003, alguns alunos meus, sabendo que eu fazia música, pediram-me uns "beats" para rimarem por cima. Fiz 4 músicas a partir dessa base de sons. O Nuno Rosa ouviu e aconselhou-me a mostrar as músicas ao Rui Miguel Abreu da Loop. Não o fiz logo e preferi então fazer mais músicas. Fui trabalhando em várias músicas (por volta de 30 ou mais) ao longo de 2003. Naturalmente que destas 30, ouve um conjunto que se começou a destacar. Apresentei então este conjunto de músicas ao Rui, que de imediato me convidou para as editar na Loop. 2004 foi um ano de definição do álbum onde começaram a entrar também os músicos convidados. A fase das misturas foi já no fim de 2004 e inicio de 2005. E o álbum saiu então em Maio de 2005.

Nos trabalhos anteriores (Kami'Khazz e Nylon) sentia-se mais uma direcção mais electrónica. Em The Remixes consegues um trabalho mais orgânico. Foi uma preocupação tua à medida que “The Remixes” se foi desenhando?

Foi simplesmente o resultado de um método de trabalho.

Este último disco conta com a participação de gente como André Fernandes, Francisco Rebelo, Melo D, Kalaf, Marta Hugon ou Joana Ruival. Como se foi fazendo a adequação de cada músico/vocalista aos seus respectivos temas?

Sempre com sessões de improviso numa espécie de "work in progress". As músicas foram apresentadas com as bases já definidas e os músicos iam improvisando por cima dessas bases. Era sempre tudo gravado, e depois eu fazia uma escolha das partes que me pareciam melhores. Voltávamos então a encontrarmo-nos e discutiamos as minhas escolhas. Voltávamos a gravar tendo em conta aquilo que eu tinha escolhido em conjunto com as novas sugestões dos músicos. E assim sucessivamente até chegar a um produto final.

Tens igualmente um projecto à parte disto tudo com a Marta Hugon. O que nos podes contar acerca disso?

Posso contar que é um conjunto de canções belíssimas e intemporais. Estamos numa fase de discussão de produção . Apenas posso adiantar que provavelmente vai ter um som mais acústico.

© Luis Carvalhal

Alice Coltrane, Balanescu Quartet, Fela Kuti, Deodato, Les Rita Mitsouko, Inner Life, Marc Moulin, Né Ladeiras, Phlip Glass, Stevie Wonder, Salsoul Orchestra ou Underground Resistance. Como é fazer música sob a influência de um legado destes?

É um exercício de liberdade criativa.

No press release que acompanha The Remixes pode-se ler que “o resultado é uma vigorosa viagem ao futuro definida precisamente por coordenadas arrancadas ao passado”. Como se gere estas viagens ao futuro e ao passado?


Da mesma forma que qualquer artista gere a sua visão criativa do mundo. Há sempre um passado que nos acompanha e que acaba por nos definir, e ao mesmo tempo acaba por traçar o nosso destino. Há no próprio acto de criação (pelo menos comigo) o desejo de criar algo de novo , não querendo com isso dizer algo de estranho. É natural que o nosso percurso de vida, e mais específicamente neste caso, a música que ouvimos durante a nossa vida, defina pontos de partida, que poderão , no desenvolver do processo criativo , chegar mesmo a desaparecer tranformando-se então nesse "algo de novo".

Enquanto que Electric Sul foi editado pela Nylon, este Remixes surge então na Loop Recordings. Achas que, tendo em conta o panorama nacional, seria possível “The Remixes” ter um outro selo que não o da Loop?

Sinceramente não sei, mas acho que este disco encaixa perfeitamente nos propósitos da editora, e sinto um grande orgulho em ter sido editado pela Loop.

Tens dado alguns concertos pelo país… de que forma se faz a transição da tua música do disco para os concertos ao vivo? Que papel tem o produtor DK?

Nos concertos que temos vindo a dar , curiosamente, pegamos no conceito original do disco (o das remisturas) para criar músicas novas. Há uma séria de bases que eu e o DK preparamos, em que recorremos a sons do The Remixes e voltamos a fazer uma remistura. Estas bases são depois tocadas ao vivo e de forma muito improvisada. Também estas músicas dos nossos concertos são um "work in progress". Desde Setembro de 2005 que iniciámos os concertos e é interessante verificar que no próximo concerto que dermos as músicas já vão ser muito diferentes em comparação com o primeiro concerto. Como é evidente, daqui irão surgir um conjunto de músicas novas. O DK assume um papel, nestes concertos, exactamente igual ao meu.

Lado a lado com a música, és igualmente um artista plástico. A capa de Remixes é mesmo da autoria. Que espaço têm as artes plásticas na tua vida e de que forma as relacionas com o teu trabalho na música?

Profissionalmente as artes plásticas têm sido (para já) postas num segundo plano comparativamente com a música. Pessoalmente, ocupam o mesmo espaço que a música no plano da criação. Parece-me que o meu trabalho nas artes plásticas está cada vez mais relacionado com a música, no sentido em que os métodos de trabalho são iguais. Isto é ainda mais evidente tendo em conta que hoje em dia , com as novas tecnologias, o processo de fazer música é muito visual. Para mim é quase impossível separar a música do visual e vice-versa. O meu trabalho nas artes plásticas recorre muito, também , à noção de "remistura" como ferramenta de aperfeiçoamento e procura de uma certa utopia. Talvez por, desde novo, gostar muito de ficção científica, em ambos os campos parece sempre haver uma busca e uma procura de uma ideia de futuro.

André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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