ENTREVISTAS
Mundo Segundo & Sam the Kid
Orgulho, pertença e comunidade
21 Mar 2019 17:21
Que Sam The Kid e Mundo Segundo são dois dos pesos pesados mais... pesados do hip hop português, não é novidade para ninguém. Que o projeto que têm em conjunto, que já lançou vários singles, o último deles, “Gaia Chelas”, tem sido um sucesso de visualizações e um fenómeno de aderência, também não será uma surpresa. Em entrevista ao Bodyspace, os dois rappers falam da ligação à comunidade de que são, com Samuel um dos marcos de Chelas e Mundo Segundo de Vila Nova de Gaia, mas também das novas tendências nacionais, o processo de criação e projectos futuros, em conjunto e paralelos.

A política vai pontificar no próximo tema, mas antes a reflexão é sobre orgulho, pertença e comunidade, os jovens valores que se vão mostrando em Portugal, a caminho de duas mixtapes distintas, uma para cada um, da reedição de “Pratica(mente)” e várias valências ao vivo, incluindo um concerto em Boston.
© Deck97
Como vêm o impacto que tem tido o novo single, “Gaia Chelas”?

Mundo Segundo (MS): Temos tido um bom feedback. A título de curiosidade, esta foi o primeiro tema que eu e o Sam gravámos os dois neste projeto que nos junta, mas entretanto ficou no disco rígido, enquanto não estava no ponto que queríamos, e foi sofrendo alterações até aprimorarmos a versão final. O feedback até está a ser bem melhor do que esperávamos, talvez porque já a gravámos há muito tempo e já estava intrínseca em nós, já não era surpresa. Tem sido mais do que positivo, estamos muito satisfeitos, pelo que temos recebido tanto da imprensa como dos ouvintes. O impacto que teve nos primeiros dias foi a prova disso.

Sam The Kid (STK): A reação foi muito maior do que estava à espera, porque eu e o Mundo tínhamos a noção que era uma música com que as pessoas estão familiarizadas, porque muitas vezes a cantamos ao vivo, já há alguns anos, daí até ter dado a dica ao Mundo: ‘Se calhar já é altura de ela sair, para as pessoas a consumirem em vez de um vídeo de um concerto no YouTube’. Apesar de ter alguns anos e as pessoas saberem disso, foi muito bem recebida. Na realidade, este projeto até podia ter começado há muitos anos atrás. Já éramos para ter feito um projeto ali no final dos anos 90, e ainda bem que não o fizemos, porque agora somos artistas melhores, mias focados, sabemos fazer melhor as coisas, e o impacto é muito maior agora ao fazer este projeto.



No seguimento dos singles que tinham sido lançados até aqui, a nova faixa é, como já contaram, uma faixa "antiga". O que é que há aqui para essa reação tão forte?

STK: É uma música que toca no sítio de onde nós vimos, fisicamente, mas também de onde vimos artisticamente. Foca-se um pouco no passado, de onde viemos. Na realidade, estou a tentar filosofar um tema bastante comum e banal. Aliás, já o fiz e o Mundo também, noutras rimas, apenas não usámos essas rimas e as colocamos numa música com este título. Mas [“Gaia Chelas”] não é ‘groundbreaking’ e super original, é o que faz sentido. Foi das primeiras músicas que gravámos para este projeto, e foi uma coisa natural, porque nós os dois somos bastante semelhantes em vários aspetos: Produzimos, rimamos, abraçamos sempre os nossos sítios, sabemos logo que o Mundo que é de Gaia, lembrando até as Nova Gaia Sessions no Hard Club, eu de Chelas, agora com a TV Chelas. Para algumas pessoas até pode ser cansativo, mas é sempre um exercício de vermos duas pessoas, e isso não se vê muito, de estes quilómetros de distância e estes dois artistas, a terem caminhos semelhantes mas paralelos. Isso torna a cena especial

Ambos sempre pautaram a carreira por uma reflexão sobre o sentimento de pertença e comunidade. Como é que olham para esse percurso artístico agora, em que essas questões vão sendo ameaçadas e questionadas?

MS: Sempre seguimos esse lado mais por representar a zona de onde vimos, é algo que faz parte do hip hop, ter orgulho e representar a zona, seja ao nível familiar ou amizades, como o próprio calão da zona, o estilo de rap que representa, e ‘Gaia/Chelas’ vai mais de encontro a isso. Desde os primórdios, na génese do hip hop, isso está bem presente, olhando para o Bronx, Queens, Los Angeles ou Staten Island. Todos estes sítios têm uma linguagem muito própria e um estilo muito próprio. É sempre importante manter essa ligação com a origem, e acho que as novas gerações continuam a fazê-lo. “2765” (Plutónio), ou o Holly Hood, ou o Dillaz. Há um conjunto de novos artistas que continuam a manter isso bem vivo. Eu acho que isso é algo que se vai transportar por muito tempo na cultura hip hop, porque faz parte. É também para as próprias pessoas que te conhecem desde miúdo, e conhecem o teu percurso, e tu como filho da terra não te esqueceste de onde vieste. Tem a ver com essa ligação, porque quem acreditam em ti são quem está mais perto, com quem cresceste e os da tua terra. Transportas isso com orgulho.

Essa dualidade vai continuar refletida nas próximas faixas?

MS: Sem dúvida. Vai ser o expor de duas perspetivas, dois sítios diferentes, com perspetivas diferentes mas também muito em comum. Nas músicas que temos feito, temos duas histórias, em ‘Também faz parte’ ou na ‘Brasa’, com o atirar de versos numa cadência muito próxima, e é quase inevitável, seja qual for o tema, que se aborde isso.



A reflexão social que imprimem nas letras é para continuar ou aumentar?

MS: Sim, sem dúvida. Já estamos a pensar no próximo tema para vir a público. E o próprio tema seguinte é um tema um pouco mais político, que não se tem visto muito nas novas estéticas. O próximo tema esse intuito político vai estar bem presente, e é algo que mesmo que não façamos diretamente, numa música direta, é sempre um ponto de vista presente, o de colocar as pessoas a pensar. No intuito de pensar por ti próprio, é mais nesse sentido, não para nos seguirem para sermos líderes, mas colocar a pensar e questionares as coisas.

STK: Sugeri-lhe essa música. Deixámos as coisas passar, já gravamos há alguns anos. A ideia é regravar, porque é sempre melhor, algumas músicas. Neste caso, da minha parte, quero regravar o meu rap, não reescrever. É altura de nos concentrarmos na produção, uns pormenores, porque como está é como se tivéssemos uma demo gravada. Nem sugeri a música pela temática, foi mesmo porque a música é boa. Acho até interessante não ser... imagina se tivéssemos isto na gaveta à espera do momento certo. Não há necessidade do oportunismo, é sempre atual. Não precisamos de um escândalo de nenhum ministro, porque há sempre um escândalo a acontecer. Prefiro lançar assim, aparentemente sem razão nenhuma, mas que não deixe de estar atualizado. Neste caso, não há nada desatualizado. Tenho uma música chamada ‘Abstenção’, que menciona o Cherne [alcunha de Durão Barroso], e eu já na altura me referia ao passado, agora seria um passado longínquo. Quando fazemos músicas e as temos na gaveta, é importante ver se há ali alguma coisa desatualizada. Lembro-me de um outro caso, em que um amigo escreveu uma rima que era para sair e que falava ‘és errático como o Éder’, mas antes da final do Euro2016. Depois do que aconteceu, ficava um bocado estranho (risos). Uma outra curiosidade, porque é engraçado: nesta ‘Gaia/Chelas’, digo lá uma rima, que é ‘ser um poeta do povo como o António Aleixo’. O Maze dos Dealema, para se ver como esta música já é tão antiga, lançou o álbum dele há um ano ou dois, e lá ele diz: ‘um poeta do povo como o Samuel Mira’, fazendo referência a esta música que ainda nem tinha saído. Ele estava a brincar com a rima.

Vês as novas estéticas do hip hop a refletir o lado mais político que marcou o género em Portugal?

STK: Já esteve mais visível. Continua a fazer-se, mas obviamente que as músicas mais populares não têm essas temáticas. Hoje em dia, o sucesso do pessoal que faz rap, as músicas mais bem sucedidas, temos que fazer um paralelo com a música pop, é igual. Porque é que a pop tem mais sucesso? Porque é para fazer o contrário, para as pessoas se esquecerem dos problemas e distraírem-se ou irem dançar, não pensar tanto. É isso que as pessoas querem, às vezes. No hip hop, não é exceção, porque há uma linguagem bastante pop, logo as músicas mais populares não vão ser exceção, vão ser músicas em que não é preciso pensar muito. Quanto à música de intervenção, podem surgir alguns casos que furem e sejam clássicos, mas mesmo assim há bastantes rappers... há um miúdo, o Estraca, que é da nova geração e toca muito nisso. Mas depois, quando queres abraçar três ou quatro músicas dessa vertente, tentam por-te logo dentro da caixinha. Ainda gostam de meter o Zeca Afonso nessa caixinha, por exemplo. É sempre um bocado ingrato pensar em intervenção, que o artista só fazia aquilo. Depois há também o risco de hipocrisia. Todo o gajo pseudo revolucionário tem sempre algo que o contraria, uma roupa de marca ou não sei quê (risos). É mais seguro não estarmos em nenhuma caixinha, e de vez em quando temos as nossas opiniões, porque as pessoas assim também não vão exigir coisas. A minha opinião em relação a esta música [que vão lançar], que fala sobre os políticos, não é porque eu sei algo e andei a estudar, é uma conversa de café de pessoas normais a queixarem-se destes gajos. Não é uma grande sabedoria sobre a cena, mas há direito a queixar-se.



Como é o ano de 2019, tanto para o projeto em comum como nas carreiras fora dele?

MS: Vamos ter algumas datas a partir de fevereiro/março, e depois algumas Queimas. Vamos estar em Loulé em abril, em auditório, e uma primeira parte com Napoleão Mira, no Auditório de Loulé, depois vamos a Espanha para viagens de finalistas, e vou acompanhar o Sam numa participação especial num evento em Boston, em maio, nuns prémios para portugueses nos Estados Unidos, com dois ou três temas interpretados por orquestra, temos uma porrada de coisas já marcadas até agosto. A nível de estúdio, a qualquer momento pode acontecer alguma coisa. Não fazemos a típica promoção de avisar as pessoas. Lançámos e comunicamos que já saiu. Temos ido ao contrário do que o mercado hoje em dia pede, do massacrar o público. O nosso intuito é surpreender as pessoas com algo, para as deixar admiradas ‘como é que o pessoal não comunicou?’. É certo que iremos lançar alguma coisa ainda este ano, mas não vamos anunciar até aqui.

STK: Este projeto partiu de um convite para uma batalha de instrumentais e depois passou para andarmos na estrada a tocarmos as nossas músicas, de forma bastante natural, e íamos fazendo músicas muito a conta gotas. Temos algumas na gaveta, se calhar vamos lançando duas por ano. Para mim, é a maneira mais inteligente, obrigar as pessoas a não descartarem logo as coisas. Quando dás 30 cenas às pessoas, parece que não dão o devido valor, e também falo como consumidor. Parece que quero consumir tudo, ouço na diagonal e pronto. Mas se calhar com pouco, tenho de me contentar e ouvir mais vezes. Por outro lado, permite-nos ter o projeto com outra longevidade. Se tivéssemos feito álbum, já nos pediam o segundo e o terceiro há muito tempo. Existe também o fator estratégico de as músicas todas terem vídeo. Com um álbum, se calhar nem todas tinham. Assim têm, e também sabemos que resulta muito mais, há uma diferença de feedback muito maior. Mas não é só por aí, gosto bastante de vídeo, era das cenas que me cativaram nos anos 90, é uma cena criativa do trabalho, não só do negócio e etc, mas não nego que seja um fator benéfico também.

MS: Nos Dealema, temos três datas exclusivas com formato banda, em ‘power trio’, com a Pérola Negra Band, e vamos levar o conceito para mais três cidades. A solo, estou na fase final de uma compilação como produtor, a primeira desde 2000 ou 2001, que se chamava ‘Rocka Forte’. Desta vez, é um conceito diferente, totalmente produzida por mim, e todos os temas terão quatro pessoas ou mais, DJ’s ou MC’s. É para sair no segundo semestre deste ano, tenho tudo engatilhado mas ainda quero perder tempo com a mistura.

STK: Em termos de edições, tenho um trabalho como produtor, ‘Classe Crua’, em que faço os instrumentais e entro em algumas músicas, com o Bomberjack, não há data mas sai este ano. Planeio reeditar o Pratica(mente) em vinil, porque quero que isso culmine na altura que eu este ano vou dar um concerto a solo, grande. Não posso levantar muito o véu, mas é uma coisa que não acontece há muitos anos, eu dar um concerto sozinho. Fez-se aqui uma luz para um evento sozinho, e reedito o Pratica(mente). Quanto ao TV Chelas, é expandir, mas nas calmas. Ocupa muito do meu tempo, faço isto praticamente sozinho, tirando o Três Pancadas. Vamos expandir o podcast, e este ano vamos andar na estrada, vamos fazer coisas ao vivo, depois uma residência bimensal num sítio que é o Parque, Dia TV Chelas, com Três Pancadas envolvido, e temos mais datas para o fazer pela estrada. Estou a produzir bastante para outros projetos, queria começar uma segunda compilação, fazer mais músicas sozinhas, e há uma coisa que está atrasada, que é a mixtape de Orelha Negra, porque álbum saiu há dois anos e normalmente lançávamos ano seguinte.
Simão Freitas
spfreitas25@gmail.com

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