ENTREVISTAS
Le Parody
De sample em sample, viajando pelo mundo
· 02 Jun 2016 · 12:27 ·
Le Parody é o veículo que a espanhola Soledad Sánchez Parody escolheu para dar corpo às suas fantasias musicais mais exóticas. De sample em sample, Sole - como é conhecida para os amigos - construiu um segundo disco que é a soma de todas as partes musicais que quis na sua geografia de proximidade. Hondo, editado em 2015, é uma maravilhosa fundição de influências africanas, do Médio Oriente e de Bollywood, sem esquecer as sonoridades e matizes da sua Espanha natal.

No próximo sábado, a nave espacial Le Parody aterra no Serralves em Festa, em pleno Ténis, pelas 17 horas, num concerto com o selo Bodyspace onde apresentará, em estreia nacional absoluta, o seu mais recente disco de originais. Uma boa altura para viajar pelo mundo todo sem sair do sítio? Estamos certos que sim.
Este teu segundo álbum parece-me uma viagem muito mais ambiciosa...? Pensaste nele desde o início enquanto tal?

Eu não sei se é mais ambicioso, mas foi mais comprometido. CÁSALA era uma colecção de canções soltas que estava a tentar construir no meu tempo livre. Para fazer o Hondo fui para o campo e essa foi a única tarefa durante um ano: compor um disco. Eu queria ver se até onde poderia chegar se dedicasse todo o tempo a uma coisa. Trabalhar assim deu-me a oportunidade de criar de uma forma muito mais profunda, e tentar experimentar e descartar muitas coisas antes de dar o disco por terminado.

Parece-me que este álbum envolveu alguma pesquisa "etnográfica", dentro mas sobretudo fora de Espanha. O que podes dizer sobre a geografia deste álbum?

Eu queria fazer um álbum inteiro de samples, como um grande puzzle, e como essa premissa era tão ampla, decidi centrar-me a samplar músicas da "rota do flamenco", o caminho que fizeram os ciganos da Índia a Espanha, através do Irão, os Balcãs, Marrocos... São "folclores" de que eu gosto muito e que estão na raiz mais evidente da cultura espanhola, mas às quais normalmente costumamos virar as costas por causa do "espelhismo" europeista em que vivemos. Retirei samples de todos os tipos de canções, do folclore tradicional ao pop de Bollywood, que é um género que me tinha fascinada, parece-me um caso muito curioso de apropriação cultural "ao contrário" (do Ocidente pelo Oriente). Mas o álbum não é um estudo etnográfico ou musicologia, ou qualquer coisa que se pareça com a pesquisa académica... Simplesmente decidi que essa seria a minha paleta de sons com os quais trabalhar, e a razão principal está à margem de toda essa nuvem de conceitos; é que são folclores que me emocionam muito.



Tiveste algum tipo de colaboração neste disco ou foi um disco feito de uma forma completamente solitária?

A composição foi um processo de isolamento quase total, porque o fiz no campo, sozinha e sem internet. Mas há muitas mais partes no processo de fazer uma parte do disco para além da composição, e muitas pessoas participaram de muitas maneiras diferentes. Por exemplo, há um grupo de amigos a quem enviei as maquetas e que as ouviram antes de dar o disco por terminado, e os seus conselhos e observações foram muito importantes, porque depois de quase dez meses a compor estava demasiado cansada para ver com claridade como fechar as canções. E na gravação colaboraram vários músicos, na produção trabalhei com o César Berzal, que também é o produtor do meu primeiro disco, a masterização foi feita por um engenheiro muito bom de Berlim. E ainda há o design e as fotografias, que me parecem uma parte essencial do disco. Em geral sinto o disco como um trabalho muito pessoal e ao mesmo tempo muito colectivo.

E como é ser a rainha do techno-flamenco?

[risos] Eu sou a rainha do techno-flamenco? Deve ser um bom reino, esse… Mas eu acho que me confundiste com outra.

Há um disco - entre muitos - que quase representa a mesma ideia de fusão. Chama-se Gypsy Rock, de Las Grecas. Conheces? A fusão pode ser para ti uma forma de inovação?

Sim, conheço as Las Grecas, e gosto. De qualquer forma eu acho que o que eu faço é algo diferente especialmente porque não me relaciono muito com o rock. A questão da fusão, parece-me um rótulo complicado, normalmente define músicas mais comerciais em que os estilos são misturados à força. Mas, em essência, sim, acho que é a evolução natural de qualquer estilo musical. Todos os géneros são uma mistura de géneros anteriores. O estranho é que uma música se conserve e fique isolada, que não se misture com nada. A pureza parece-me artificial e perigosa.

Qual o lugar da música na tua vida? Em outras palavras, o que estás a fazer quando não estás a fazer música?

Ocupa um lugar muito principal. Dependendo da época, dedico mais tempo a ensaiar, a compor, ou a estudar coisas novas, mas de uma forma ou de outra estou sempre a fazer música. Isto é o que eu mais gosto e neste momento é o meu trabalho. As coisas que eu faço quando não estou a fazer música também estão muitas vezes relacionadas com a música, como dançar ou ir a concertos ou a clubes, viajar, que também está relacionado porque nos últimos três anos todas as viagens que fiz foram para tocar. Além disso, gosto de escrever, andar de bicicleta e cozinhar. E pouco mais. Agora que eu penso sobre isso, dou conta que a música tem simplificado bastante a minha vida.

No teu perfil de Facebook, percebemos que tens convicções e activistas e feministas. Mas não tenho muita certeza que isso se manifeste na tua música. Estou enganado?

Eu acho que sim, que manifesto, ou pelo menos parecer-me-ia estranho não mostrá-lo, porque as minhas músicas saem directamente da minha experiência. Mas as canções não são panfletos. Parece que apenas se transmitem mensagens se forem colodas em frases, e que uma canção só é política se falar explicitamente de mulheres maltratadas e banqueiros. Ainda que para mim a letra seja muito importante, a música é muito, muito mais do que uma letra. Estão os instrumentos que usas, as melodias que constróis, os ritmos e depois o contexto, os concertos, a imagem... Além disso, embora eu tenha as minhas convicções e não as escondo, também me parece bem que as músicas estejam abertas à interpretação que cada pessoa queira.

© Julio Albarran

A música é cada vez mais um refúgio para estes tempos conturbados em que vivemos? É um refúgio ou arma?

É um belo refúgio.

Como achas que o universo musical espanhol recebeu a tua música?

Pois, não sei avaliar muito bem. Pelo que li e pelo que me dizem creio que gostou. Mas talvez não tenha sequer assim tanto impacto para que os haters gastem o seu tempo para opinar. Em qualquer caso, acho que não é assunto meu. O que as pessoas recebem e como eles o recebem é coisa das próprias pessoas.

Como te parece a Espanha neste momento? Em questões sociais, culturais, políticas… Quão longe está o teu país de ser aquilo que tinhas imaginado?

Estas são coisas das quais não posso falar com muita propriedade porque não tenho assim tantos conhecimentos, mas pelo que tenho estudado e pelo que vejo, parece-me que a Espanha é um país destruído social, cultural e politicamente desde o franquismo, e que a nossa geração enfrenta agora a reconstrução que a geração dos nossos pais ignorou. É um momento muito difícil, porque estão a deixar-nos sem recursos impunemente, mas também muito revolucionário. Não posso dizer que gosto da Espanha agora, mas acho que é importante estar a viver em Espanha agora.

Já tens planos para o teu próximo álbum?

Estou a testar algumas coisas, gostava de ir mais em direcção da música electrónica, fazer sessões para a dança. Mas ultimamente estou a tentar sacar também versões de boleros e coplas com o ukulele e fico com vontade de fazer algo totalmente acústico e folk. Por isso não sei ainda em que me concentrarei. Estou num estado de espírito muito diferente daquele com que gravei o Hondo. Tudo é novo outra vez.

O que sabes tu de Portugal para além do Cristiano Ronaldo, toalhas e mulheres com bigode? Conheces alguma música?

[risos] Nunca tinha ouvido falar de nada acerca de toalhas ou de mulheres com bigode e achava que o Cristiano Ronaldo era brasileiro… Sou absolutamente inculta no que toca a futebol. De Portugal conheço o Algarve, que me parece um dos mais belos lugares em que já estive. E também estive um ano em Paredes de Coura. Mas apenas conheço música de lá, o que me envergonha bastante. Mas espero resolver isso no Serralves em Festa.

Qual é a melhor coisa que te pode acontecer no concerto no Serralves em Festa?

Dar um concerto bonito, que soe muito bem; e, em seguida, conhecer muitas pessoas interessantes para me levarem de festa no Porto.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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