ENTREVISTAS
Holy Nothing
A ambição de um Santo Tudo com Expectativa Nada.
24 Abr 2016 12:32
Os últimos meses têm sido intensos para os Holy Nothing. Depois de lançado Hypertext, em setembro do ano passado, foram a única banda portuguesa a ir à edição deste ano do festival South By Southwest, em Austin, nos Estados Unidos, e têm, desde aí, continuado a promover o disco por Portugal, por exemplo, no novo festival Som Riscado, em Loulé. Pela frente estão já agendados concertos em São João da Madeira (22 de abril), Lisboa (13 de maio), Braga (18 de junho e 30 de julho). Do Texas o trio portuense trouxe contactos e ambição para cruzamentos musicais, mas com os pés assentes na terra, sabendo que o que importa é o resultado e não as expectativas. Ao Bodyspace, Pedro Rodrigues e Nélson Silva contaram como foi a visita a um dos maiores festivais do mundo.
Como é que foi a vossa passagem pelo SXSW? Não poupem detalhes.

Pedro Rodrigues (PR): A primeira impressão que nós temos é que, tendo expectativas muito abstratas do que é que seria o festival, foi uma descoberta. Desde a chegada até à vinda foi um conjunto de situações inusitadas. Começámos logo, por exemplo, por chegar num voo atrasado duas horas e chegar à azáfama de Austin atrasados – atrasadíssimos – para um concerto que tínhamos no dia da chegada. Com duas horas de atraso, tínhamos três horas para chegar ao concerto, tivemos que montar tudo rapidamente para dar o primeiro concerto da forma mais informal e isso deu para perceber qual a mood do festival. O festival é um festival que se assemelha a festivais portugueses como o D’Bandada ou o Vodafone Mexefest, com uma ideia de festival urbano, que vai ocupando vários espaços da cidade, mas avança perante isso, não aproveita só os espaços pequeninos da baixa. Percebes logo à partida que a vertente não oficial do festival é tão grande ou maior do que a versão oficial. Uma das coisas loucas que percebes que há no festival - um dos concertos que nós perdemos - foi o Drake de repente ir tocar no espaço da Fader. Ou seja, há esta quase macroescala das coisas de massas para a microescala em que conheces muita gente, muitos músicos e há uma espécie de ambiente propício a contactares diretamente com eles.

Nélson Silva (NS): É um festival para 800 mil pessoas. Ou seja, logisticamente é o D’Bandada e muito mais para 800 mil pessoas. Duas mil e tal bandas.

PR: Não há atrasos, não há sobreposições, não há PA com má qualidade. São 30 anos de festival, que dá para corrigir muitos erros. Apesar de termos tentado contactar pessoas, artistas, labels, programadores, parecia-nos tudo demasiado inalcançável. Que eram contactos superficiais e que não iam dar em nada, mas a verdade é que deram. E proporcionaram que chegássemos a falar com pessoas que nos reconheceram lá e que levaram a conversas mais sérias.

Holy Nothing @ South by Southwest 2016

Como o quê?

PR: Há o trabalho de agenciamento, de produção, que é feito pela Turbina, e depois o nosso trabalho mais artístico tentámos antecipá-lo. Contactámos com algumas pessoas, nomeadamente o Algodon Egipcio, da Venezuela, que o pessoal conhece (acho que o Bodyspace publicou a última dele). Eu tinha contactado com o Cheky duas semanas antes, foi extremamente recetivo em falarmos durante o festival. De repente, estamos nós à uma da tarde, uma hora depois de acordar, a ver Blanck Mass no Hype Hotel e vejo uma pessoa que me parecia o Cheky. Era mesmo e do nada começamos a falar e a partilhar experiências. Ele já tinha ouvido o nosso álbum, nós já tínhamos ouvido as coisas dele. E acho que naquele momento percebemos que era um festival realmente diferente.

NS: Acho que, como músico, a parte de que mais gostei do festival foi o não haver protagonismo para ninguém. São duas mil e tal bandas e andamos todos misturados. Acabas por conhecer imensos músicos de quem já não te lembras no dia seguinte e o festival tem muito disso. O pessoal vai lá mostrar o trabalho como as pessoas dias antes foram lá nas partes de cinema ou interativa.

PR: Tu estiveste no Hotel Vegas a falar com o vocalista de Thee Oh Sees…

NS: Ele foi a um toy-toy (risos) e comecei a falar com ele. Nem perdeu muito tempo a falar comigo.

PR: Estou a ver Blanck Mass de novo e olho para o lado e estão os Foals, ao nosso lado, como se estivéssemos ali no Plano B e tu percebes que não há estrelato.

NS: A energia boa do festival é precisamente essa, em que não há euforias porque “ih, é aquela banda”. Estás ao lado de uma pessoa que aqui é vista como um super-homem e é como tu, como outra pessoa qualquer.

PR: Nós percebemos que é aquela Terra Prometida, percebes que é uma colmeia que pode gerar oportunidades. As máquinas bem oleadas conseguem gerar fenómenos ali a partir daquele festival. A label dos Sunflower Bean, uma banda que praticamente ninguém conhece ainda, mas que temos a certeza de que daqui a um ano vão estar na ribalta pelo número de concertos e azáfama que se criou em volta deles.

NS: Não digas que tens a certeza, diz que tens quase a certeza, senão ainda vão dizer “aquele gajo não percebe nada de música”.

PR: (risos) A verdade é que há um investimento grande de apostar numa banda que vai tendo hype. Nós tentámos incentivar essa vertente desse lado. Fizemos esforços de contactar o máximo possível com pessoas de festivais, sobretudo, localizados aqui na Europa. De alguma forma o que nos interessa agora investir é em espalhar um pouco pelo agenciamento cá na Europa. Sabemos que o Bruno [Rocha, da Turbina] fez esses contactos, muito ligado ao input da WHY Portugal, por ter lá o stand. Foi uma ajuda imensa. Coisas que levaram a que o nosso concerto oficial no Hideout Theatre tivesse sido uma coisa interessante: a banda que tocou antes de nós tocou para seis pessoas, nós com esses contactos conseguimos compor a sala de uma forma como nunca esteve durante a noite. Percebemos que, apesar de a nossa logística ser muito pequena, gerou-se ali uma coisa interessante. Houve malta que foi convidada no WHY Portugal que veio ver o concerto. Houve malta de um blogue de Brooklyn que tinha feito uma crítica ao nosso álbum em outubro, uma coisa que nos apareceu no Facebook e nós achámos que era spam e depois fomos ver e era um artigo bem estruturado, conheciam as músicas. Contactaram-nos a perguntar onde é que íamos tocar no SXSW e depois estavam lá no concerto.

NS: E levaram amigos.

PR: À nossa escala foi uma superação das expectativas, mas à escala do que o festival potencia há um mar de oportunidades.

Há a sensação de que é que é pouco provável que tenham a oportunidade de voltar para causar uma boa primeira impressão.

PR: Isso sim. Tens que ser muito respeitoso com o rigor. Depois de criares essa boa impressão e de criares um bom feedback na própria organização não é impossível o regresso. Há imensas bandas que têm por hábito ir ao SXSW, principalmente da América do Norte e Latina. Obviamente que é mais fácil, mas não veem aquilo como um festival inalcançável a que só vais uma vez na vida e nunca mais vais. Mas sentes isso, que se falhares uma vez não tens a oportunidade de voltar.



A nível artístico o que é que trazem do SXSW?

NS: A meu ver, como banda, acho que não fomos para lá com expectativas nenhumas e até trouxemos. Pensava que não íamos trazer tanto. Acho que nos inspirou a trabalhar e o facto de não haver aquela competição de que te falei foi mesmo bom porque ajuda a imaginar. Não estou a dizer isto pelo destaque de termos sido a banda portuguesa, pelo contrário. Ou seja, o que me fez ver é que isto da música é muito mais simples do que pode parecer. Uma pessoa tem é que trabalhar, continuar a trabalhar e estar com essa ambição. Na realidade, as coisas podem acontecer… Claro que é preciso teres sorte, acima de tudo, nunca nenhuma banda, estando no nosso panorama e aos anos que nós existimos, consegue imaginar que vai ao SXSW. É uma coisa estranha. Ainda é estranho agora.

PR: Coisas concretas: há uma relativização do que é andar em estrada e do que é levar o concerto – o nosso concerto – para fora. Aquela coisa de compactar toda a complexidade que achamos que tem que viajar sempre numa Kangoo e não: é possível ir em três malas e depois de as malas serem todas revistadas, todas chegaram.

NS: Mas foram confiscadas porque foi no dia do atentado em Bruxelas.

PR: Também é por serem os Estados Unidos, mas isso é a questão logística. A questão artística, como falavas, fizemos esses contactos prévios que depois efetivámos lá e para nosso espanto houve bastantes pessoas recetivas. Há a possibilidade porventura de fazermos colaborações com esses artistas. Todos aceitaram como uma mais-valia a possibilidade de essa colaboração ser audiovisual. Isso para nós interessa-nos muito. Porque todos com quem íamos falando eram bandas bastante especificas que tinham essa componente visual bastante marcada. Trouxemos isso, são coisas em desenvolvimento, que tentámos deslocalizar o máximo possível, não queríamos só Norte da América, ou Europa, queríamos ir buscar o máximo de influências possíveis, voltar a esta linguagem hipertextual do álbum e agora ser hipergeográfico. Pode vir daqui a uns tempos a levar a edições de singles, um EP, o que seja. Não podemos revelar agora nomes.

NS: Acho que não somos nem mais nem menos do que qualquer banda que tenha vindo do SXSW. Vimos com essa pica toda para fazer coisas novas, para mostrar. É estranho porque nós próprios ficamos sem saber o que vamos fazer daqui para a frente.

Os contactos feitos lá têm sido fomentados agora que já voltaram?

PR: Tem havido diálogo, temos dado o follow-up. Muito Facebook, muitos e-mails. Há maquetes, há ideias a ser cozinhadas que podem levar a alguma coisa, mas são coisas que a distância permite que seja marinado de forma muito mais lenta. Mas acredito que sim, a vontade das pessoas é muito genuína. Nós também somos estranhos para eles, Portugal para muita gente nos Estados Unidos é no Brasil.

NS: É Espanha mesmo.

PR: Estava a certa altura a falar com uma senhora do Mississípi e ela: “Ai és de Portugal? Já foste ao Rio de Janeiro, então?” Ela achava que Portugal era no Brasil. Ou seja, nós para eles também somos um bocado extraterrestres. Muito provavelmente vai levar a uma edição muito especial de Holy Nothing para 2017, dependendo de quanto isto se arraste.

Estavam a falar de aumentar o interesse aqui na Europa. Para o ano há Eurosonic com destaque para Portugal. Vão candidatar-se?

PR: É daquelas coisas em que nós tendemos a ser muito comedidos. Isso são estratégias que definimos com a nossa agência. Obviamente que há sempre interesse em poder fazer a candidatura, mas tem que se ver se é viável ou não é viável. Já há imensos contactos e muito provavelmente poderá vir a ser uma coisa…

NS: Nós gostávamos, claro.

PR: Tanto que acho que já fizemos a candidatura no ano passado…

NS: Vamos fazer a candidatura todos os anos até lá irmos! (risos)

PR: Provavelmente vamos fazer a candidatura para ir ao SXSW para o ano.

NS: Se o leque vai ser maior, ainda por cima, claro que vamos tentar a nossa sorte.

PR: O Eurosonic é mais feliz para bandas portuguesas. Temos o caso exemplar dos Throes + The Shine que conseguiram, a partir de uma certa mostra no Eurosonic, o que nós queremos, esse agenciamento internacional. São casos excecionais e são casos que esperamos que possamos vir a ser nós.

NS: Não vou para um festival desses a pensar… Pensas sempre um bocado, desde que tens uma banda, que queres mostrar a tua música ao maior número de pessoas.

PR: Só o futuro dirá.

NS: Trabalhar! Temos três álbuns para o ano! (risos)

Isso é a sério ou a brincar?

NS: A brincar! Quem nos dera ter vida para isso. Já respiramos, já começámos a dar concertos cá e voltámos àquele processo do trabalho. Focar-nos nisso que é interessante como experiência musical, mas também no projeto em si, de Holy Nothing, com uma história pela frente.



Para o resto do ano o que é que têm planeado?

PR: Gostávamos muito que alguma dessas colaborações se efetivasse até ao final do verão. Para de alguma forma dar o mote e poder atrair os interessados ao projeto e com isso falo de imensas coisas, do próprio público até possíveis parceiros. Tendemos a não ter muitas expectativas. Obviamente gostávamos muito de ir ao Eurosonic, mas em termos de processo artístico era isso: tentar iniciar isso ainda este ano, com um pequeno single, talvez, acompanhado de um pequeno vídeo que desse andamento a uma coisa maior em 2017. Já estamos a magicar algumas coisas, tentar cativar alguma malta de quem nós gostamos, mais daqui da Europa, mais especificamente em Berlim e agora não posso dizer mais.
Tiago Dias
tdiasferreira@gmail.com

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