ENTREVISTAS
Marching Church
Contra os canhões, marchar
27 Fev 2016 16:19
Elias Rønnenfelt é um homem de poucas palavras. Talvez seja pelos seus genes nórdicos, ou talvez seja pelo seu completo desinteresse por estas coisas das "entrevistas". Mas o que o músico dinamarquês não diz em conversa, fá-lo nas suas canções. Depois de encantar com a boémia amargurada do terceiro disco da banda que o deu a conhecer ao mundo, os Iceage, decidiu "reavivar" os Marching Church e fazer um disco notável, algures entre os Birthday Party e a chanson, que virá agora apresentar a Portugal em duas datas. Foi esse o mote do nosso parlapié com o próprio, que passou também por questões de "gótico", sexualidade e Serge Gainsbourg. Eis os Marching Church, em discurso directo ao Bodyspace.
Esta é a quarta vez que vens a Portugal, depois de aqui dares três concertos com os Iceage. Que mais te agrada neste país?

As suas ruas estreitas com degraus de pedra entortados.

Os Marching Church existem desde 2010, mas só lançaram o vosso álbum de estreia no ano passado. Foi porque te encontravas mais focado nos Iceage, ou houve outra razão? A tua presença nos Iceage também ajudou a influenciar este disco? Se o tivesses lançado há alguns anos, as canções seriam muito diferentes daquilo que são agora?

A natureza do projecto era diferente, à altura. Quando comecei a utilizar o nome Marching Church foi puramente pela necessidade de um nome para gravações que faria a solo. Mais tarde, concordei em dar um concerto enquanto Marching Church, e não estava muito contente por tocar ao vivo qualquer uma das canções que já tinha gravado. Por isso, convidei - alcoolicamente - algumas pessoas para tocarem comigo e, subitamente, tudo começou a parecer uma banda digna desse nome. O concerto foi um sucesso tal, a nível pessoal, que tive vontade de explorar as possibilidades oferecidas por esta constelação. E foi assim que começámos a preparar o álbum de estreia.



O Elias de Marching Church é radicalmente diferente do Elias dos Iceage? Criativamente falando, como é que pensas um e outro?

É uma confusão fragmentada - mas creio que só existe um Elias. Todas as canções começam da mesma forma, com uma ideia. As ideias surgem com várias formas e feitios, e quando sei que tenho algo começo a trabalhá-lo. Mais tarde, quando a natureza da ideia se encontra assente, tomo uma decisão sobre qual dos veículos apresentá-la-à da melhor forma.

Tens alguma aversão à palavra "gótico" no que toca a descrever a tua música? Sentes alguma ligação a este género e subcultura?

Não, não creio que façamos parte de alguma categoria cliché, apesar dos Marching Church estarem encharcados em cliché. Somos nós próprios. Se tivesse de categorizar aquilo que faço, chamar-lhe-ia soul.

O This World Is Not Enough é, creio, um disco muito sexual - especialmente em canções como "Hungry For Love". Mas é uma sexualidade negra, com classe, ao contrário da atitude in your face que existe em muita da música pop mainstream. Crês que a subtileza e o romance se têm perdido na música de hoje?

Falta romance, de um modo geral, ao mundo ocidental. Seja ele subtil ou in your face. O poder sexual não se opõe à sensibilidade, à subtileza e ao romance. A acção gera reacção e é assim que avançamos e nos desenvolvemos.

Disseste numa entrevista que gostavas de pessoas "arrogantes, irritantes, sem qualquer conexão com a realidade, que não se consiga ver pelos olhos dos outros". Quer isso dizer que és um enorme fã do Kanye West?

Parece-me ser uma figura pública bastante interessante, mas não conheço bem a sua música.



À parte o disco de Marching Church, gravaste uma versão da "Achy Breaky Heart", do Billy Ray Cyrus. Como é que isto aconteceu? Foi um modo de mostrares o teu sentido de humor após tantos artigos em que és descrito como "amargurado" - ou pior?

A nossa versão da "Achy Breaky Heart" não foi uma tentativa de humor. A letra dessa canção tem um peso que não notas à partida devido à alegria com que é cantada no original. Lembro-me que não dormi durante muito tempo, quando a gravei com o meu amigo ZZ. Fizemo-lo para uma compilação de canções que o FBI pôs a tocar em colunas gigantes enquanto forma de tortura, durante o cerco a Waco, no Texas.

Sei que és fã do Serge Gainsbourg. Este mês, passarão 25 anos desde a sua morte. Ainda te lembras da primeira vez que o ouviste? De que forma o seu trabalho te influenciou?

Não me lembro da primeira vez que me cruzei com o Serge Gainsbourg, mas ele foi sempre uma figura com a qual sinto alguma ligação. Há algo na atitude dele que mexe comigo, a um nível reptiliano.

Tens lançado discos de forma estável, desde 2009. Em que consiste o futuro próximo do Elias Rønnenfelt?

Acabámos agora de gravar um novo disco de Marching Church, que deverá sair mais para o final do ano. E está incrivelmente bom.

Para lá da música, que te inspira? Qual foi o último filme que viste, e que livro tens de momento na cabeceira?

Compilo e junto informação de tudo, e toda a informação fica a contorcer-se e a rodopiar numa nuvem gigante no meu cérebro. Alguma dessa informação torna-se inspiração, mas raramente sei qual a sua fonte. O último filme que vi foi o A Juventude [2015], achei-o bom. O último livro que terminei foi um guia algo sociopata para a manipulação humana intitulado How To Use Your Enemies, escrito por um padre do século XVI, Baltasar Gracián.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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