ENTREVISTAS
Fire! Orchestra
O sax não corta o fogo
31 Jul 2015 16:49
Com dois discos já editados - três se contarmos com Second Exit, o registo possível de um concerto em Nantes - os Fire! Orchestra assumiram-se desde logo como um dos nomes mais interessantes do panorama jazz actual. Feéricos, imprevisíveis, capazes de aglomerar elementos oriundos de cada quadrante musical, a Orchestra conquistou não só os "cabeças" do género como também aqueles que, regra geral, não dedicam o seu tempo a esta coisa chamada jazz. Ao Bodyspace, no mesmo dia em que se apresenta com os Fire! na edição deste ano do Jazz Em Agosto, o saxofonista Mats Gustafsson falou do fogo, de música, e da infelizmente persistente estupidez humana.
Que esteve na génese dos Fire! Orchestra? Que tentaste alcançar com este projecto que não conseguiste a solo, ou num trio como os The Thing?

Bem, foi simplesmente a vontade de tentar tocar música do "trio" num ambiente maior [risos]. Foi uma decisão tomada às 3h da manhã, após uma digressão dos Fire!. Decidimos juntar todos os nossos amigos em Estocolmo para um concerto único, em que nos iríamos divertir e tocar, simplesmente. Pessoas de todos os géneros e origens. Amigos nossos. Mas a paixão e a música que se fez mostrar nesse concerto foi algo que não esperávamos, ou em que pudéssemos acreditar. Foi magia pura, misteriosa. E então decidimos começar a trabalhar numa Fire! Orchestra, juntamente com as nossas actividades enquanto trio nos Fire!. Até agora, existiram três versões diferentes da orquestra. De momento somos dezanove músicos, um som, um técnico de luzes. Um balanço perfeito. O que estamos a fazer agora, com a peça "Ritual", não poderia ser feito só por um trio ou um quinteto; precisamos dessas vozes extra, dessas cores extra. Tudo o que podíamos fazer ou não fazer alterou-se bastante - agora as possibilidades são infinitas. Só agora começámos a descobrir tudo isto. Essas possibilidades nunca pararão, o mistério expandir-se-à...

No ano passado editaram Second Exit, disco que documenta um dos espectáculos da Fire! Orchestra, na altura em que estavam a apresentar o vosso primeiro disco, Exit!. E, apesar de apenas treze dos trinta membros do conjunto terem participado neste espectáculo em particular, parece-me que o som é ainda mais feroz e fascinante que na versão de estúdio... Consideras que a Orchestra é um prato melhor servido ao vivo?

Os Fire! não são um prato. São um monstro! O primeiro Exit! é, na verdade, também uma gravação ao vivo. O Second Exit teve a felicidade de ter como convidados especiais os grandes australianos Oren Ambarchi e Will Guthrie. "Feroz" é o nome do meio deles... Já o Enter é uma gravação em estúdio, com a qual ficámos bastante satisfeitos. Também faremos uma versão de estúdio do "Ritual", já que dessa forma conseguiremos um maior controlo do som e da música. A energia pura de um concerto ao vivo nunca poderá ser capturada... É assim que funciona, é impossível. A música acontece no instante, com uma audiência a escutá-la. Só daquela vez e nunca mais. É essa a beleza de tudo isto. Às vezes uma gravação de um concerto pode aproximar-se desta sensação, mas... Nunca acontece realmente. Adoramos gravar em estúdio, já que o Johan [Berthling] e o Andreas [Werliin], bem como o Mikael Werliin, o nosso técnico de som, são algumas das melhores pessoas com quem já trabalhei num estúdio. E adoramos tocar ao vivo... Precisamos de ambas as coisas. Uma alimenta a outra e vice-versa. São ambas parte do jogo.



Virão ao Jazz Em Agosto apresentar Enter!, o vosso segundo disco, editado em 2014. As sessões para este disco tiveram alguma coisa de diferente, em relação ao Exit!?

Sim, porque foi tudo feito em estúdio. Tendo sido o Exit! gravado ao vivo, foi completamente diferente. E não vamos tocar o Enter! Vamos tocar uma peça nova, intitulada "Ritual". Música dos Fire! e da Mariam Walentin, letras minhas e do Erik Lindegren. Um poeta sueco mau e outro muito bom... O Lindegren é a génese da poesia sueca moderna. Fazia coisas arrasadoras! Mas, como mencionei, o Enter! é uma gravação em estúdio, durante a qual conseguimos enfiar a orquestra inteira em cinco salas diferentes... Foi selvagem! Mas resultou de forma incrível. Esse dia em particular teve bem mais que 24 horas, de certeza... [risos]

É curioso que o vosso primeiro álbum se chame Exit! e o que lhe sucede Enter! - não deveria ter sido ao contrário? Um título como Enter! faz muito mais sentido numa estreia, como se estivessem a convidar o público a entrar, sentar-se e escutar...

[risos] Se estivéssemos a fazer música cujo propósito é entreter e ir de encontro àquilo que o público espera... Faríamos música muito diferente, e isso não me interessa. A música é quem dita tudo. O que surge, surge. Temos de fazer aquilo que a música nos manda fazer. Desculpa se achas estranho, mas não tínhamos qualquer plano traçado. Precisámos, simplesmente, de criar essa música em particular nesse tempo em particular. E agora o "Ritual"... Não sei quão lógico será esse título comparado com o Exit! e o Enter!, mas essa peça é aquilo que precisamos de fazer agora. Da forma como vejo as coisas, e acho que posso falar pelo Andreas e pelo Johan, e por todos os outros, gostamos de alimentar o mistério. Nem tudo na música e na arte é lógica. Nem tudo o que se cria faz sentido. Pelo contrário. Para nós, isto é essencial e importante: manter o mistério. Que é o quê? E porquê? E como? E quem se importa? Gosto de saídas, de entradas, de rituais - quem não gosta?

A maioria dos críticos coloca-vos a etiqueta free jazz, mas a mim parece-me muito mais free music - porque há tantas influências e sons retirados de cada espectro musical... Crês que o trabalho da Fire! Orchestra é jazz, ou será algo que não pode ser rotulado ou domado, tal como um fogo?

Sim! Estás a perceber o conceito. Não acredito em etiquetas, seja na música, na arte ou na vida. As pesoas deviam descobrir por elas mesmas. A única verdade só tu a podes encontrar, com a ajuda das experiências que outros tiveram. Ninguém deverá dizer-te o que experienciar, só poderás tu fazê-lo. Do it yourself! Quando aprenderes a ouvir livremente, poderás pensar livremente, e agir livremente... Isto é lógico. Os velhos situacionistas já falavam disto. E faz muito sentido, para mim. Isto é música política. O que quer que as pessoas pensem que é o free é com elas. As crianças são livres [free], nós não o somos. Free jazz, o que é isso? Para mim é só uma expressão... Que permite muita gente ouvir a música de forma livre. Acho que a Fire! Orchestra é um bom exemplo daquilo que a cena internacional é hoje em dia, muito diversificada, pelo menos a que lida com música experimental (outro rótulo [risos]). Os músicos vêm de sítios diferentes, musicalmente, geograficamente, culturalmente, no que ao género diz respeito... É tudo muito misturado. E isso é, para mim, muito, muito bom. Só precisas de ter os ouvidos abertos, a mente aberta, e as coisas - o mistério como o conhecemos - abrir-se-à e expandirá o teu universo. Free your mind and your ass will follow - já o sabíamos antes... A história estará sempre lá para nos ajudar e também para nos foder. Precisamos que assim seja.

Havendo tantos músicos de tantas cidades diferentes, não existe praticamente nenhuma hipótese de ensaiar, e tu já o confirmaste numa entrevista. Quando tocam ao vivo, a improvisação tem um papel-chave na música? Não ensaiar ajuda no que diz respeito à improvisação?

Na verdade, os ensaios [quando acontecem] ajudam: a controlar o caos, a abrirmo-nos às ideias, às formas, às estruturas. Com o "Ritual" conseguimos juntar-nos por três dias, em Estocolmo, em Abril deste ano. E completámos a peça juntos. Foram dias muito intensos... Já tocámos esta peça na Eslovénia, Suécia, Noruega e Dinamarca durante o verão, havendo mais concertos a caminho. Na verdade, esta é uma banda que não deveria conseguir trabalhar, se a olharmos de um ponto de vista logístico e económico. Mas fazemo-lo porque acreditamos nela. E acreditamos em revelar o mistério. Acreditamos em descobrir mais sobre nós, sobre ti, sobre a nossa música, temos de o fazer. Garantimo-nos sempre que os nossos soundchecks são extensos, para que possamos ir variando dentro da peça. É um trabalho que muda constantemente. Temos a estrutura, as canções, os riffs, mas há muito que ainda está em aberto. Qualquer pessoa pode chegar-se à frente e fazer um solo ou uma afirmação. Nunca sabes o que na realidade irá acontecer. E existem ainda muitas secções abertas na peça... É para quem as agarrar! Eu consigo controlar algumas partes, por vezes controlo muito pouco, por vezes mais, mas ninguém sabe realmente o que vai acontecer, tem tudo de acontecer no momento. Isso faz com que a música seja muito mais interessante para nós e, espero, também para o público.



Que se segue na vida dos Fire! Orchestra?

A gravação do "Ritual" está marcada para Dezembro, em Estocolmo. Está ligada à nossa festa anual de Natal, a Extacy! Acontecem-nos sempre coisas muito importantes todos os Dezembros, num restaurante (alemão!) em Estocolmo... Haverá um novo álbum para o ano, portanto, e andaremos em digressão com essa peça. Se houver necessidade de outra peça... O que acontecer, acontece.

Agora que o Estado Islâmico é um problema internacional gravíssimo, a Grécia parece estar a caminho da sarjeta, indivíduos de raça negra continuam a ser mortos pela polícia dos EUA e as taxas de desemprego estão cada vez mais a subir, crês que é altura, mais do que nunca, de combater a estupidez global?

Nós fazemo-lo, a toda a hora. De outra forma não criaríamos esta música. A música é uma afirmação política em si mesma. De outra forma não faria isto. É sobre partilha. Partilha e comunicação: merdas essenciais. E sim, temos uma situação urgente em mãos... O que se passa, globalmente, não é bom. De todo. Tanta estupidez que chega a ser inacreditável... Os mercados mandam, as decisões políticas são feitas com vistas curtas... a falta de um debate ideológico a sério deixa-me louco, por vezes. Seja como for, gostamos de nos manter optimistas em relação ao futuro. Temos de o fazer, tudo pode ser mudado, quer acredites quer não. Chamem-nos ingénuos, queremos lá saber - acreditamos na partilha e na música. Há que colocar algo de positivo na mistura, no mistério. Mas mais urgente do que isso, olhando com mais profundidade, é o ambiente - temos de fazer algo radical muito em breve ou será demasiado tarde. Nada de vinis, nada de concertos, nada de boa comida, nada de vinho(s) do Porto... Nada que seja "bom", nada de nada. Tudo o que possamos fazer para ajudar o planeta será de valor. E SIM, PORRA, temos de combater a estupidez - a local, a global, e a nossa. Mergulhemos no mistério: que será que encontraremos?
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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