ENTREVISTAS
Frango
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· 02 Dez 2005 · 08:00 ·
© Luís Bento
Os Frango são Jorge Martins (guitarra e baixo), Rui Dâmaso (guitarra e bateria) e Vítor Lopes (guitarra e bateria), vêm do Barreiro e são já uma das figuras de proa do rock instrumental / experimental / improvisado em Portugal. Editaram o álbum de estreia pela Test Tube e mais recentemente o EP Whole Hit Bloomer pela Searching Records. E isto é tudo aquilo que de concreto se pode saber acerca dos Frango. Toda a restante informação que resulte de pesquisas na Internet (sobre Frango) é, como se imagina, tudo menos musical. Apontam-se-lhes influências do pós-rock mas, embora as comparações não sejam de todo descabidas, o caminho da banda do Barreiro parece ser bastante mais livre e liberto de dogmas do que o já de si abrangente rótulo do pós-rock. Além de tocarem nos Frango, todos eles fazem parte de um sem número de projectos (Fish & Sheep, Ivone, Barcos, HomemCãoVelhoMorto, entre outros) e Jorge Martins é ainda responsável pela Searching Records, o selo que editou recentemente a compilação Animal Repetitivo - Música do Out.Fest 2005, um conjunto de temas de bandas que participam no certame a decorrer entre Novembro e Dezembro no Barreiro. Há razões, por isso, para um futuro risonho. Os entrevistados do dia são Jorge Martins e Rui Dâmaso, dois dos cúmplices nos Frango.
Como é que surgiu a oportunidade de lançar “Sitting San” pela Test Tube? Foi uma primeira opção editar por uma net label?

Jorge Martins – Conheci a Test Tube através do Afonso Simões, que lançou através deles um EP enquanto Phoebus. Depois saiu o EP de Lanolin e nessa altura mostrei-lhes Frango, eles gostaram e a coisa aconteceu. Foi a nossa primeira opção no contexto de um lançamento em net label mais “oficial”. Na altura entendemos que queríamos dar a conhecer aquelas músicas e que a Test Tube nos poderia oferecer uma exposição maior do que a que tínhamos tido até então, o que aconteceu. De resto temos andado a dar e vender CD-Rs há uns anos.

Como é que os Frango vêem as net labels (e há cada vez mais em Portugal, a Test Tube, a You Are Not Stealing Records, a MiMI, a Merzbau, a Enough Records) e a edição em CD-R? Pretendem continuar a editar nesse formato?

J.M. – Não conheço bem essas net labels, a única com a qual tive um contacto mais directo foi a Test Tube, relativamente às outras sou capaz de ter ouvido um lançamento ou outro. Por enquanto só posso dar os parabéns à Test Tube, têm lançado muita coisa, conheci muitos nomes através deles e gosto muito de algumas coisas que saíram de lá.

Por oposição à edição em disco, que impõe alguns limites de lançamentos e tempo na produção e no próprio lançamento das gravações, este tipo de lançamentos acontece de uma forma muito rápida, tudo se sucede em pouco tempo. Acham que isso acompanha de forma perfeita a própria urgência de todo este fenómeno?

Rui Dâmaso – Acompanha, mas não é necessariamente essencial que assim seja. Gosto de pensar que o formato “tradicional” de edição implica outras exigências, de coerência, intemporalidade, qualidade de som, etc., o que também é bastante estimulante. Neste sentido, pensamos no Sitting San, apesar de ter sido lançado pela net, como o nosso primeiro álbum, no sentido mais tradicional do termo. As músicas que lá estão não são propriamente recentes, e ainda assim enquanto conjunto continua a parecer-me coerente. É tão importante a efemeridade quanto a permanência, ambas traduzem algo significativo. De qualquer forma, como em relação ao resto, depende bastante (ou sobretudo) do momento e das circunstâncias.

Fala-se algo já insistentemente na tal comunidade de bandas como os CAVEIRA, os Gala Drop, os Loosers, os Fish & Sheep, os Dance Damage (embora tenham nascido em Santo Tirso) e os próprios Frango. Como é que vêem os Frango nessa comunidade e o crescimento dessa própria comunidade?

R.D. – A existir uma comunidade, parece-me que ela abrange desde as bandas às pessoas que vão aos concertos e ouvem os discos, que falam neles. No fundo, existem pessoas que têm se calhar gostos comuns, que partilham um universo musical comum, e algumas delas (muitas até) têm bandas. Acho que é mais por aí. Falar de uma comunidade é falar de um certo sentimento de pertença e de uma identidade comum, que talvez até exista, mas que de qualquer forma não está (ainda) presente nas nossas mentes de uma forma quotidiana. Não costumamos andar todos por aí a beber copos e a dissertar, a arcar com tristezas e alegrias uns dos outros e tal. Esse sentimento comunitário traduz-se mesmo é nas noites de concertos, que são sempre noites bem passadas.

Concordam que essa comunidade surge da mais recente facilidade de editar em CD-R ou em net labels, numa espécie de atitude DIY? Além de Lisboa e do Porto, há também outras cidades que começam a mostrar projectos que partilham elementos com as bandas referidas...

J.M. – Se as pessoas acham que têm coisas para partilhar devem arranjar maneira de fazê-lo, e se existir pessoal interessado em ouvir, melhor. Esse tipo de suportes funciona como uma referência muito especial de momentos e o que ouço nos CD-Rs que vou ouvindo são coisas muito pessoais e muito únicas. Esses suportes devem existir e multiplicar-se, sinto que individualmente têm vindo a ganhar uma identidade muito própria e isso é bom.

Depois da edição de Sitting San, os Frango deram alguns concertos, inclusive no Passos Manuel com os Dance Damage e com os Loosers, e no Festival Where’s the Love. Como é que correram esses concertos?

J.M. – Os Dance Damage e os Loosers estão no nosso coração.

R.D. – Correram bem. Acho que gostámos sobretudo do concerto do Porto, porque foi o primeiro em que decidimos partir para o improviso puro, isto é, sem qualquer plano definido a priori. Tocámos como costumamos fazer nos ensaios e sessões. Nesse sentido, deu para sentir mais electricidade e pânico, o que é sempre bom. De qualquer maneira, não temos bem a noção de como foi, só as nossas impressões enquanto tocávamos. Já agora, se por acaso alguém tiver gravado alguma coisa, digam-nos, só para termos uma ideia de como soou. De qualquer maneira, nunca temos bem noção de como correm os concertos. Estamos a tocar e é difícil ter a noção de como está a ser para quem está a ouvir. São sempre duas perspectivas incomensuráveis.

© Luís Bento

Que importância atribuem a espaços como a Galeria Zé dos Bois em Lisboa e ao Passos Manuel no Porto para a evolução destas bandas? Que espírito se sentia durante os concertos? Acham que ambas as cidades passaram o teste?

J.M. – Acho que esses espaços têm andado a fazer um bom trabalho e acho que se trabalharem em conjunto, parece-me que andam, ganham força. É porreiro estarem muito atentos e receptivos a coisas que lhes mostram, e fazerem noites em que misturam coisas de todo o lado que, apesar de ocuparem espaços distintos a nível musical, partilham espírito. Enquanto espectador gosto de apanhar com muitas coisas diferentes na mesma noite e isso acontece nesses sítios. E, como podes imaginar, foi uma sensação incrível partilhar noites com os Jackie O’ Motherfucker, o Matt Valentine a Erika Elder, o Manuel Mota, o Sei Miguel, os CAVEIRA, a Margarida Garcia, os Dance Damage, o António Contador, o DJ Olive, os Gala Drop, etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc… Gostamos muito dessas pessoas e da sua música, e é uma honra partilhar esses momentos com elas.

Os Gala Drop, por exemplo, deram alguns concertos (em países como a Espanha) com os Excepter e com os Gang Gang Dance, cenário bastante improvável há uns tempos atrás. Tocar no estrangeiro é uma ideia que agrada aos Frango?

R.D. – É evidente que nos agrada. Tivemos um convite de uma banda espanhola, e talvez possamos lá ir em breve. De qualquer forma, é bom que o facto de tocar no estrangeiro seja uma possibilidade tão natural como ir tocar ao Porto ou ao Alentejo ou whatever. Acho que qualquer um de nós, ao fazer música, pensa de forma universal e não local ou regional, por isso seria bom que os concertos pudessem traduzir essa forma de entender as coisas. É preciso que a música seja interessante, acima de tudo.

As vossas composições parecem resultar de um misto de improvisação com exploração sónica. Como acontece o processo de criação dos Frango?

R.D. - Quando começámos, como ninguém sabia tocar, fazíamos basicamente cacofonia de meia hora ou mais. Entretanto, na altura dos primeiros concertos, em 2003, tivemos o nosso único período de “canções”, mais ou menos ensaiadas e certinhas. A partir daí, voltámos ao antigo processo, que já começou a render mais. Começar a tocar e de preferência a gravar. Depois, vê-se como saiu. No geral, se sair bom, fica para editar. Se não, dificilmente voltamos a tentar tocar a mesma coisa. Às vezes acontece, mas quase tudo funciona à base do improviso puro.

Concordam quando atribuem à música dos Frango influências de Glenn Branca ou dos Sonic Youth?

J.M. – Essa pergunta é fodida.

Quais são os objectivos futuros dos Frango? Há mais algum lançamento pensado para breve?

R.D. – Neste momento andamos a pensar uma edição mais “tradicional”, algo que será o nosso segundo “álbum”. Existem algumas hipóteses, mas precisamos de música nova, que é o que andamos a tentar fazer. Nunca se sabe o que vai sair e quando vai sair. Lá está: de um dia para o outro podemos ter uma sessão que nos corra mesmo bem e lançá-la em CD-R na semana seguinte. Isso é sempre uma possibilidade. Para além disso, temos uns convites para compilações, e vai sair em Novembro pela Searching uma compilação feita por nós dedicada ao Out.Fest deste ano, e aí aparecerá qualquer coisa nova, já.

Pode-se dizer então que é a salvação pelo ruído que vos une?

J.M. – Não.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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