ENTREVISTAS
Mike Watt
Vive-se bem na Califórnia
09 Set 2014 10:27
Há mais de trinta anos que Mike Watt tem ajudado a moldar revolução sonora atrás da outra. A história começou ao lado de D. Boon, companheiro de armas e de vivências nos Minutemen. Foi ele um dos responsáveis por cimentar a cena punk e hardcore no sul da Califórnia, antes de a banda acabar abruptamente com o falecimento de D. Boon. Hiperactivo, superou uma depressão através da música e fundou tantos projectos quantos sentiu serem necessários para se tornar um músico e uma pessoa melhor. Pelo meio, encontrou tempo e espaço para tocar coisas dos outros, dos grandes: J. Mascis, Stooges e Sonic Youth são alguns dos nomes que surgem num currículo invejável e de quem Watt fala não hesita em falar com admiração. Exactamente a mesma admiração com que nos dirigimos a ele aquando da sua passagem por Portugal no início deste ano. O resultado é uma conversa estimulante sobre a carreira, as pessoas e as motivações na vida de Mike Watt.
Li algures na internet que além do baixo, gostas de te dedicar ao desporto, incluindo alguns desportos mais radicais.

Na verdade não sou grande fã de desportos radicais, mas adoro um bom jogo de basket. Infelizmente os meus joelhos estão um desastre e agora já não consigo jogar, só posso ver jogar. O que ainda consigo fazer é andar de caiaque todas as terças, quintas e sextas, em San Pedro, onde vivo – fica perto do porto de Los Angeles, por isso posso remar sem problemas no oceano. De manhã bem cedo costumo andar de bicicleta perto ao longo das docas. San Pedro é uma parte muito especial do sul da Califórnia e sinto-me muito sortudo por viver aqui.

Ainda te lembras quando ou como é que começaste a interessar-te pelo baixo?

A culpa é toda da mãe do D. Boon (falecido vocalista dos Minutemen). Nós tínhamos treze anos e ela disse que devíamos ter uma banda porque vivíamos numa parte perigosa da cidade. Estávamos no início dos anos 70 e apesar de não haver muitos gangues nem armas na rua, havia sempre alguma confusão e ela queria-nos em casa logo a seguir à escola para evitar meter-nos em problemas. Uma vez que todas os discos mostravam um baixista na capa, ela disse-me para eu ficar no baixo porque queria que o D. Boon tocasse guitarra – tal como ela, que tocava guitarra quando era mais nova. Eu nem sabia o que era um baixo, mas como não queria deixar de andar com o D. Boon acabei por começar a tocar e a interessar-me. Como deves calcular, hoje em dia estou muito feliz por ela me ter feito tocar baixo.

Chegaste a experimentar outros instrumentos?

Tentei tocar contrabaixo durante os 90’s e cheguei a ter um durante uns tempos. Até gravei um single com esse contrabaixo, chamado “Li’l Pit”, em conjunto com a Thalia Ferriera e o Steven Perkins [editado pela Kill Rock Stars], mas sempre o achei demasiado para mim… Uma das razões para eu usar baixos mais pequenos em concertos é mesmo as minhas mãos , que já não caminham para novas… Mas quando gravo, uso sempre baixos de escala completa – embora me sente sempre para o fazer.



É verdade que eras fã dos Blue Oyster Cult? Eles influenciaram-te de alguma forma?

Sim, eu era um enorme fã dos Blue Oyster Cult e o D. Boon também. E éramos colados em Creedence Clearwater Revival, T-Rex e The Who… Acabámos o liceu em 1976, e nessa altura o pessoal tocava no quarto e copiava literalmente as músicas que ouvia nos discos. O Nicky Beat, baterista dos The Weirdos, era de San Pedro e disse-nos que em Hollywood é que era, que o pessoal escrevia as suas próprias músicas e letras. Fomos até lá para ver isso por nós mesmos e a primeira coisa que eu disse ao D. Boon foi “nós podemos fazer isto” - e isso mudou as nossas vidas para sempre.

Como é que olhas para os anos que passaste a tocar com os Minutemen?

Se não fossem os Minutemen, eu nunca teria começado a tocar baixo – eu devo-lhes tudo. Às vezes, quando tenho dúvidas sobre o significado do mundo ou o que é a vida para mim, limito-me a pensar nesses tempos e em tocar com o D. Boon, e de repente tudo faz sentido e eu fico mais calmo. Fico sempre um pouco triste por pensar no D. Boon e por ter saudades dele, mas ao mesmo tempo sinto-me confiante e focado porque ele era uma força positiva muito grande na minha vida… Tocar com ele ajudou-me a ser o que sou hoje.

Como é que te sentes quando dizem que os Minutemen deixaram um legado que ainda hoje inspira músicos por esse mundo fora?

Isso é uma coisa muito simpática de se ouvir. Os Minutemen surgiram de um legado que junta dadaísmo, Woody Guthrie, Little Richard, por isso sinto que somos como que pequenas ligações numa corrente, onde as mudanças ou acções passadas vão sempre influenciar o futuro.

Com o passar dos anos, foste-te envolvendo com uma série de bandas e projectos diferentes também.

Quando os Minutemen acabaram[após a morte de D. Boon], tentei fazer nos fIREHOSE aquilo que fazia nos Minutemen – que basicamente era juntar todas as minhas ideias na a mesma banda. Mas os fIREHOSE não eram os Minutemen e depois de algum tempo a tocar com eles, percebi que o melhorera fazer uma banda nova para cada projecto em que estivesse envolvido. Fazia mais sentido para mim… O que eu acho é que se mantiver a mente aberta, toda a gente tem algo para ensinar, por isso todos estes projectos são como pequenas salas de aulas onde posso aprender mais sobre música e sobre o meu baixo. Às vezes escrevo a música toda e dirijo a banda (como faço nos Secondmen ou nos Missingmen), às vezes é totalmente o contrário (como quando toco com os Stooges) ou acaba por ser uma espécie de colaboração, mais na onda de Minutemen ou Dos. Há muitas formas de estar em bandas com outras pessoas! É tudo uma questão de encontrar a oportunidade certa e envolver-me apenas naquilo que me interessa.

Falaste nos Dos e, se não estou em erro, foi o teu primeiro side-project.

Sim, Dos foi efectivamente o meu primeiro side-project e por acaso começou durante aqueles que seriam os últimos meses dos Minutemen. A Kira Roessler até trabalhou e colaborou em músicas que acabaram por entrar não num disco de Dos, mas no último disco que os Minutemen gravaram. Adiante, a ideia para os Dos era bastante simples: uma banda que tivesse dois baixos – e só isso. Muitas das músicas dos fIREHOSE começaram por ser músicas para Dos, por exemplo. Esta banda tem sido uma parte muito importante do meu mundo desde há muito tempo, eu e a Kira já tocamos há vinte e nove anos! Aliás, estou a responder às tuas perguntas num avião com um destino a Houston, onde toco amanhã à noite com os Dos e onde vamos dar um workshop para um acampamento de verão.



Pelo meio ainda conseguiste arranjar tempo para alinhar nos Banyan…

Os Banyan são a banda do Steve Perkin, não minha, e tive a sorte de ter feito muitos concertos e ainda ter gravado três discos com ele. Havia muita liberdade na forma como ele geria a banda, mas ele ainda me pediu para escrever uma série temas para a banda. Outra coisa incrível de estar nos Banyan, era que o Nels Cline tocava na guitarra, era soberbo. Eu adoro o Steve Perkins… A primeira vez que toquei com ele foi nos Porno for Pyros e adorei essa experiência! Foi a primeira vez que toquei como colaborador e não como líder. A segunda vez foi com o J. Mascis e os The Fog e a Terceira com os Stooges. Eu não faço muito trabalho como colaborador, mas o que fiz foi sempre muito importante para minha vida.

Andaste na estrada com o J. Mascis no início do milénio. Guardas boas memórias dessas alturas?

No total, fiz três tournées a tocar baixo para o J. Mascis + The Fog entre 2000 e 2001, pouco depois de uma doença quase me ter morto. Também partilhei o palco com o Lou Barlow, enquanto ele tocava como Sebadoh e também quando ele tinha os Missingmen como banda de apoio. O Lou é um dos meus vocalistas favoritos de sempre… Também aprendi imenso com o J. Mascis, ele é um músico incrível! E na minha opinião, é um dos principais responsáveis pelo regresso dos Stooges, mas ele é demasiado tímido para o admitir. Tanto o J. como o Lou são duas pessoas incríveis na minha vida, muito importantes.

Teres tocado com os Sonic Youth faz de ti uma espécie de elo de ligação entre gerações?

Eu conheci os Sonic Youth num dos primeiros concertos que eles deram no sul da Califórnia. Eu achava que eu e o Boon andávamos a ser muito aventureiros musicalmente, mas depois vi-os em palco… Fiquei a sentir que eu e o D. Boon éramos mais tipo Chuck Berry em comparação com aquilo que eles estavam a fazer, fiquei completamente estupefacto! Mas respondendo à tua pergunta, eu acho que pertencemos todos à mesma geração. O Thurston é seis meses mais novo que eu, a Kim e o Lee é que são um pouco mais velhos. A questão é que há tanta gente nova constantemente a chegar aos Sonic Youth que é quase como se eles não envelhecessem ou não fossem de outra época.

Costumas ouvir música para além daquela que compões e gravas?

Sim, há muita coisa boa por aí. Este ano fiz uma digressão pela Europa com duas grandes bandas, os L’Oeillere e os Guess What. Sou um grande fã do Thomas Fec, seja enquanto Tobacco ou Black Moth Super Rainbow, ou dos Mi-Gu e dos Lite, ambos de Tóquio. Também aconselho Sistas in the Pit e Chicano Batman, que são daqui da zona de SoCal. Os 2ne1 da Coreia, os Gummy Stumps da Escócia e claro, o Adebisi Shank são coisas de que gosto muito. Há muita coisa boa a acontecer estes dias, como o Dirty Beaches, que esteve em Lisboa e de quem sou um enorme fã! Tenho um respeito e orgulho enormes pelo meu “sobrinho” Alex.

Alguma vez vamos ler um livro com histórias sobre os teus tempos de estrada?

Tenho montes de histórias com as bandas com que partilhei a estrada! Guardo memórias muito bonitas ao lado dos Black Flag, Huskers, Meat Puppets - são muitas as pessoas com quem partilhei bons momentos, mas escrever um livro sobre isso? Bom, nos últimos quinze anos fui escrevendo vários diários e isso talvez seja o mais próximo que vou estar de escrever um livro. Tenho imensas histórias de estrada, mesmo de tempos mais recentes, e claro que algumas delas me fazem lembrar e pensar no passado…Mas tenho tanto com que me ocupar hoje em dia, que é difícil dedicar tempo ao que já passou. Agora uma coisa é verdade, o passado ajudou a moldar-me, fez de mim o que sou hoje e ensinou-me valores que ainda hoje defendo. Mas vou-te contar uma história engraçada relacionada com os Black Fla: eles andavam a distribuir flyers para um dos primeiros concertos que deram e quando eu e o Boon vimos aquilo passámo-nos, porque eles iam tocar numa sala da nossa cidade natal! Eles perguntaram-nos porque é que estávamos passados e nós respondemos que os Minutemen eram a única banda punk em San Pedro. Eles nem queriam acreditar que havia outra banda punk ali, por isso perguntaram-nos logo se podíamos abrir… Pouco mais de um ano depois, éramos o segundo lançamento da SST Recordings.
António M. Silva
ant.matos.silva@gmail.com

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