ENTREVISTAS
César Lacerda
Os porquês de um compositor brasileiro hoje
· 30 Abr 2014 · 15:16 ·
César Lacerda nasceu no interior de Minas Gerais - terra onde o peso da tradição colonial brasileira se mistura com a leveza da vida sem pressa, acarinhada pelo sotaque e pela culinária de alto refinamento popular, afeto sem afetação. Sua música carrega também esse cuidado barroco, esse sabor próprio, uma estranheza sedutora que chama ao mesmo tempo para a atenção silenciosa e para o cantar junto. Seu disco de estreia, um dos mais interessantes lançados no Brasil em 2013, anuncia uma resposta em seu título: “Porquê da voz”. Mas sem fechar conclusões. A resposta que o interessa é sempre a mais simples e a mais ampla. Como ele faz nesta entrevista, ao se referir ao momento musical brasileiro contemporâneo: “A música brasileira feita hoje nada mais é do que a música brasileira feita hoje”.
© Eduardo Cantarino
Por que você começou a tocar? E a compor? Mirava em que?

Nasci em Diamantina, no interior de Minas Gerais, em 1987. Minha mãe, Maria Eunice Ribeiro de Lacerda, pianista, à época diretora do Conservatório de Música da cidade, iniciava o seu processo de aposentadoria e também o seu projeto de abrir uma escola de música na cidade destinada ao ensino de crianças. Não obstante, toda a cidade vivia um ambiente de grande musicalidade com suas bandas marciais, seus grupos de seresta e choro, os grupos de câmara, enfim… Além disso, em casa havia a influência de música ultrapopular vinda do meu pai; sambas, modas de viola, música romântica. Cresci neste ambiente. Estudei, desde muito criança, vários instrumentos. E mais do que isso, estive em contacto com os sons das coisas, das pessoas, das culturas. A música nasceu para mim como um fato, um objeto de necessidade em minha vida muito antes de eu poder imaginar escolhê-la ou não. Muito cedo, ela se manifestou como companheira, e mais profundamente, fonte de expressão. Creio que a vontade de compor, ou mais propriamente o gesto da composição tenha nascido na adolescência, quando eu e minha família já vivíamos em Belo Horizonte, capital do estado. Lembro de ter feito as primeiras peças musicais, os primeiros ajuntamentos de ideias e motivos ao piano. Só mesmo quando me mudei para o Rio de Janeiro, em 2007, decidi usar o violão para compor. Portanto, a composição foi, e é ainda hoje, um misto de formalização da expressão musical com o processo lúdico de ajuntamento dos materiais diversos, das ideais absurdas, dos sons impossíveis. Indo mais além, a composição é o traço único do movimento da voz vibrando no espaço. Ou seja, composição para mim é sempre “voz”. Uma forma de parecer ser, ou de desejar ser único no mundo. E no momento em que conquisto essa unidade seduzo o diálogo com o universal.

© Eduardo Cantarino

Há uma compreensão da música brasileira moderna como vinda de uma linhagem que começa no samba, atravessa a bossa nova, se consolida como linguagem nos anos 1960 e depois meio evolui a partir daí, equilibrando (de forma bem simplista) a precisão formal de um Chico, um Edu, com o desejo de mistura e experimentação (pop ou não) dos tropicalistas. Pensando a partir daí (embarcando ou negando essa leitura), qual o seu lugar na música brasileira hoje? De onde você veio? Onde você está?

Por muito tempo, me dediquei à compreensão da música brasileira através do prisma da cartografia política defendida pelo discurso da linha evolutiva na canção. E quando decidi lançar o meu primeiro disco solo, o “Porquê da Voz”, tentei inscrever um pedaço da minha perspectiva nessa tradição. Mas inscrever-se no tempo, seja lá como isso se dê, risca ranhuras na pele. Percebi em mim a necessidade de um discurso libertário. Um discurso que motivasse em mim uma percepção da música muito mais ampliada. Percebi que o meu quadro de referências para a composição envolvia novas problematizações ainda não previstas. Em suma, percebi que a única via possível de criação de “agoras”, ou seja, a única forma de ocupar a vida em sua totalidade, vivê-la em sua imediatez pungente, era configurando não-lugares para se estar. Explico. Quando você me pergunta onde está a minha música hoje, ou onde estou eu na música de hoje, a minha única resposta possível é: eu e minha música estamos em todos os lugares. A urgência da nossa época cria miragens. Confundimo-nos com os nossos próprios avatares em busca de uma resposta que nos fixe num lugar qualquer. Eis um apontamento aqui. Há uma responsabilidade do “fazedor” de arte na contemporaneidade. Mas há também uma responsabilidade no “percebedor”. E quem são os percebedores senão todos nós? Nós precisamos inaugurar percepções. Devemos erradicar de nossas percepções viciadas esse desejo de “ele se parece com o Caetano, Monet, blá, blá, blá...”. É claro que este discurso pode parecer vazio. E ainda além, ele pode se esvaziar em si próprio pela demasiada vontade de abrigar o sensível. Mas tenho hoje a livre percepção de que numa época tão singular, tão fervilhante, e também, tão repleta de vultos, há uma necessidade de inauguração do pensamento. Um pensamento-escuta que deseje roçar a pele da música feita hoje e busque invadi-la de significados do agora. Um pensamento-escuta que deixe de lado toda preguiça, toda miragem. Digo tudo isso, em suma, por compreender que temos um sintoma historiográfico na vida de nossa sociedade hoje. Um desejo de congelar tudo numa espécie de história do agora. Como se fosse necessário dar um diagnóstico para tudo. Como se houvessem bulas para todas as nossas agruras. A reflexão minha e que divido com você aqui é, portanto, esta. A música brasileira feita hoje nada mais é do que a música brasileira feita hoje. Simples. E ao mesmo tempo, um convite. Venha ver de perto. Venha nos ouvir de dentro.

Que artistas mais te interessam hoje na música brasileira? E fora do país? E porquê?

A lista é muito grande! Ela é enorme! Dentro do Brasil há tanta coisa que me interessa... Em São Paulo, tem o gênio Paulo Monarco. Tem o Vinícius Calderoni, que pra mim lançou o disco mais impactante de 2013. Tem o Tó Brandileone que produziu o disco do Vinícius e lançou um disco lindo este ano. Tem o Flávio Tris, o Rodrigo Campos, o Emicida e o Criolo, a diva Tulipa, tem o Dani Black, o Cérebro Eletrônico (o último disco é uma diversão!), tem O Terno. No Rio tem o Letuce e o tem o Lucas Vasconcellos. Tem o Cícero, o Fernando Temporão, o Castello Branco, o Pedro Dias Carneiro, o Posada, o Tono (ouvi sem parar o “Aquário”!), o Negro Leo (que mudou muita coisa na minha vida!). Tem a Baleia!! Em Minas Gerais tem a Luiza Brina. E tem a Jennifer Souza (que lançou um dos discos mais lindos de 2013). Tem o Luiz Gabriel Lopes e o Graveola e o Lixo Polifônico. Tem Kristoff Silva e Pedro Morais (puta disco que ele fez!!). Tem o Luiz Rocha, meu parceiro. Achei interessante as propostas dos discos do Boogarins e do Apanhador Só. O disco do Rodrigo Amarante é soberbo! “Indizível” do Wisnik é pérola aos poucos. Ná “pra embalar”. “Gilbertos samba lindo! Fora do Brasil, tenho profunda admiração e interesse pela “cena do Brooklyn”. Adoro o Grizzly Bear, Dirty Projectors, Fleet Foxes, DM Stith. Também da cena underground novaiorquina, a tal “cena Chillwave”, gosto muitíssimo do Toro Y Moi. Adoro o último e estranho disco do James Blake. Amo muito aquela turma argentina do Aca Seca, do Edgardo Cardozo. Acho super bonitas as novas incursões da Mayra Andrade e do Jorge Drexler. Porra, Lichote! Eu gosto de coisa pra caralho! [risos]

© Eduardo Cantarino

Sua canção "Porquê da voz" atribui um papel à canção, ao cantor dentro da vida brasileira, em versos como "Sou a nação", "Sou o eco de um povo feliz", "Sou a geração" etc. Gostaria que você desenvolvesse essa ideia, falasse mais de como pensa esse papel da música na cultura brasileira, a partir dessa perscpectiva do "Porquê da voz"...

Na primeira página do encarte do disco há um texto que escrevi que responde bastante bem à sua pergunta: “... quando penso na voz, penso no povo. penso na forma rica como essa gente, em suas distintas destinações, esteve sempre inclinada a cantar e a carregar nesta expressão segredos muito profundos de sua natureza mais íntima e formadora. gosto da forma como no Brasil nosso jeito de cantar se desenvolveu; tenho admiração profunda pelo canto sofisticado nascido de manifestações muito nossas. àquilo que ocupou casas, ganhou terras, inventou gerações, devoto meu arrebatamento e entusiasmo. gosto sobretudo de pensar que cantamos de forma feminina e desta forma nos aproximamos de nosso desejo de uma nova humanidade. gosto, por fim, do gosto pelo exercício de cantar e da aptidão de nossas vozes soando por aí. Porquê da Voz, este disco, quer se situar neste espaço onde um povo canta. quer soar canções como soam cantos pelo país...”.
Leonardo Lichote

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