ENTREVISTAS
These New Puritans
A arte de renascer
· 25 Nov 2013 · 15:21 ·
Não é fácil mas os These New Puritans conseguiram. Com um novo disco, conseguiram chegar a uma nova pele. Arriscaram. Reinventaram-se. E conseguiram um novo fôlego. Talvez tenham perdido alguns seguidores pelo caminho mas, resumindo, venceram. Field of Reeds é uma gloriosa fusão da música pop com a música erudita. Um disco difícil de dominar mas altamente recompensador depois de explorado na sua totalidade. É certamente um dos melhores discos do ano. A propósito desta nova vida para os These New Puritans, que contam com a cantora portuguesa Elisa Rodrigues nas suas fileiras, fomos falar com Jack Barnett. E ficamos a saber mais sobre o processo de gravação do novo disco e sobre o risco e a arte de renascer. Os britânicos actuam já amanhã no Hard Club e na quarta-feira na Sala TMN ao Vivo. 
O vosso disco parece-me ser o resultado de uma descoberta, de uma mudança "repentina" do caminho. Não me leves a mal, mas parece -me que este novo álbum é o vosso Kid A - e digo-o como um grande elogio. Sentem isso?

Eu acho que foi uma espécie de descoberta de uma forma pessoal, em que a música se tornou mais próxima de mim. Eu vivi cada segundo desta música, cada palavra e cada som, cem por cento. Por vezes, quando passas por certas coisas, chegas a um ponto em que isso entra na tua música, o seu sentimento. Não há nada que possas fazer, acontece simplesmente. No que diz respeito ao meu processo, eu limitei-me a colocar uma nota à frente de outra e a ver onde é que isso me levava.

O que é que nos podes contar acerca do processo de escrita e gravação deste álbum? E sobre as colaborações?

Passamos cerca de um ano a trabalhar no disto, com paragens pelo meio... Sobretudo por causa de coisas como o Graham ter ido para a Argentina durante alguns meses (ele tinha voltado da Argentina, onde ele estava a viver, especificamente para trabalhar neste álbum). Começamos a gravar o disco num estúdio incrível, um complexo de rádio da Alemanha Ocidental do pós-guerra, nuns enormes edifícios onde eles gravavam e produziam peças de rádio, por isso tínhamos imensos espaços diferentes - salas de madeira e pedra salas e quartos com escadas que não iam dar a lugar nenhum, que eles usavam para gravar o som de pessoas que sobem e descem escadas…

Como foi trabalhar com um maestro e com André de Ridder em particular? Quão essencial foi a sua contribuição para este registro?

O André entende a música. Muitas das vezes, nas sessões “pop”, o maestro é uma pessoa anónima que tu nunca conheceste e que não poderia importar-se menos com a música. Mas obviamente o André conhece a música, e levou para a sessão músicos que conhece e em quem confia. É por isso que gravamos em Berlim. Começamos logo no início com a gravação do ensemble de metais e cordas. Geralmente é o contrário, é algo que as bandas polvilham no final. Mas nós construímos o álbum a partir daí. Mas o uso de partituras e falar sobre música clássica é um pouco enganador. As partituras são apenas instruções eficientes para fazer com que bons músicos toquem música, não são qualquer tipo de magnum opus.



Quando ouço uma música como "Eternal Organ" lembra-me a música de Steve Reich , por exemplo. Quais são os compositores que, na tua opinião, influenciaram a escrita deste disco?

Existem pessoas como Bela Bartok, Stravinsky, Louis Andriessen, Miles Davis, das quais eu gosto muito. Mas é difícil dizer se isso passou para o álbum. As pessoas falam sobre música clássica. Mas esta música não é música clássica. Apenas não é música sempre baseada em loops, como muita da música popular é. Em vez disso, existem processos que acontecem ao longo de um longo período de tempo. Quando as pessoas dizem, "é música clássica”, eu acho que é uma maneira de dizer: “eu não entendo isto”. Mas na verdade, este é um álbum melódico. Trata-se de canções. Fico sempre confuso quando as pessoas dizem: “esta música é mesmo dissonante e concisa”.

Alguma vez tiveram dúvidas enquanto faziam este disco? Tiveram alguma vez medo de se perderem algures a meio deste disco?

Não. Eu acho que essa é a nossa força enquanto banda. Temos uma crença total e quase imprudente no que estamos a fazer. Entramos num estado mental muito focado e eu realmente não penso sobre o mundo exterior nesse momento. Por algum motivo estes discos necessitam e criam essa reacção.

Imaginas a reação dos "velhos" fãs de These New Puritans? Achas que eles estavam à espera disto?

Tenho certeza que perdemos alguns fãs, e isso é apenas uma parte de ser uma banda que exige muito de si mesma e que aceita a mudança, mas eu acho que a maior parte dos nossos fãs gostam disso em nós. Eles gostam do facto de seguirmos a criatividade, penso eu.

Este é o vosso primeiro disco com selo da Infectious Music. Como foi a reacção deles a este disco?

Eles gostaram muito e apostaram muito nele. Existem muito poucas pessoas têm a liberdade de fazer um álbum como este nos dias que correm, a maioria das editoras não faria isso, por isso temos tido muita sorte. Deve haver apenas um punhado de bandas no mundo que têm essa sorte.

É muito cedo para perguntar como é vão escrever novas músicas depois de um disco como este? Se pensarem sobre isso, não é um pouco assustador?

Eu tenho certeza que vamos encontrar um caminho. Por isso não, não é assustador.



Devo admitir que não sei a história de como conheceram a Elisa Rodrigues. Podes contar-me? Como é que ela acaba a fazer parte da banda?

Eu sabia que tinha de haver uma perspectiva feminina neste álbum. E eu tinha escrito imensas melodias para voz feminina e era simplesmente óbvio que algumas canções eram para outras vozes – é difícil analisar mas musicalmente era importante que houvesse um diálogo entre vozes masculinas e femininas e que deveria haver uma perspectiva feminina. Então depois tive que definir como encontrar a voz certa. Eu encontrei a Elisa por meio de pesquisa, uma vez que gosto muito de música portuguesa e do idioma português. É por isso que eu estava a procurar cantoras portuguesas. E deparei-me com ela e ela parecia fantástica, uma voz e uma presença incríveis. Pedimos-lhe para vir a Inglaterra para cantar no disco e ela disse que sim, felizmente. Foi um pouco um “salto de fé” para nós e para ela também. Mas o risco valeu a pena, eu adoro a voz dela. Tem uma suavidade e uma pureza, mas também uma alma. Mesmo quando ela está a cantar de uma forma linear há expressão na voz dela. Ela dedicou-se realmente à música, e aturou-nos imenso quando lhe pedimos que cantasse a mesma coisa mil vezes. É música muito contra-intuitiva. É algo muito diferente de como ela está habituada a gravar com o jazz, ou seja, cantando algo uma data de vezes, por isso o facto de ela se ter adaptado é fantástico. Ela está a cantar connosco ao vivo agora. Eu costumava brincar sobre retirar-me para fora da música, para poder apenas sentar-me do palco e ouvi-la, mas trabalhar com alguém como a Elisa significa que eu posso deixá-la especializar-se e vê-la continuar com aquilo que ela é boa. A forma como as nossas vozes trabalham em conjunto é muito boa, significa que posso concentrar-me nos meus pontos fortes em termos vocais.

Vão star em Portugal para dois concertos. Como vêm o desafio de apresentar este novo disco ao vivo? O que é que nos podes dizer sobre isso?

É muito divertido na verdade. Tivemos algumas das melhores reacções de sempre ao vivo na digressão que tivemos no Reino Unido. Temos uma banda com sete membros. É bom - não é muito grande, nem muito pequena. É ágil mas mesmo assim podemos fazer um som enorme. É perfeito. Eu estou ansioso para chegar a Portugal, é um país bonito e a mentalidade do país tem algumas coisas em comum com a mentalidade inglesa. Talvez seja uma coisa própria do mar ou da Costa Atlântica.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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