ENTREVISTAS
Lou Barlow
Mi casa es Lou casa
· 09 Nov 2005 · 08:00 ·
It’s what they call switching lanes (que, traduzido, significaria:”É a isto que chamam trocar de vias.”). Era assim que, numa “Drag Down” a encerrar The Sebadoh, os Sebadoh colocavam – até ver – termo a uma discografia que nada deverá a tantas outras florescidas da putrefacta semente Sub Pop. Ao abrigo da situação actual, soa agora a premonitória a referida frase quando associada a dois brilhantes escritores de canções que se voltam a cruzar por cá no próximo sábado, 12 de Novembro (após terem estado a Sudoeste): Devendra Banhart e Lou Barlow. O primeiro tem meio mundo rendido à sua ideal noção de comunidade após ter revalidado a condição de iluminado com o impressionante Cripple Crow. O segundo viu meio mundo (será a mesma metade?) virar as costas aos seus discos assim que mergulhou os Sebadoh em interregno (sem que pesasse na decisão dos evasores a excelência caseira do recente Emoh). Devendra convence cada vez mais gente a abraçar o seu nomadismo de pé descalço, enquanto Lou Barlow parece decidido a fazer com que os seus fãs de sempre se rendam aos prazeres do lar e família. Contudo, o conjunto de divergências não impede Lou Barlow de reconhecer o génio ao músico de barbas que Michael Gira apresentou ao mundo. Tal como nada o impede de assumir alguma simpatia pelo EMO, a relação mantida com a cidade dos anjos e com os gatos. Mesmo que lacónico (por vezes, quase incomodativamente telegráfico), Lou Barlow não deixa de ser confessional. Assim o permite o conforto do lar.
Acredita que Emoh possa funcionar em paralelo aos diários publicados no site (http://www.loobiecore.com)? As duas coisas completam-se numa só?

Sim. A vida é um puzzle.

Tendo em conta que a gravação do disco passou por uma série de localidades (Nashville e Massachusetts, mais concretamente), parece-lhe provável que o disco fosse completamente diferente caso tivesse sido inteiramente gravado em Los Angeles?


Moro em Los Angeles e grande parte do disco foi gravado em minha casa.

Permita-me citá-lo:”Los Angeles atrai os conformistas. Nova Iorque atrai os iconoclastas”. Agora que se encontra sedeado em Los Angeles, podemos esperar uma produção mais estável?


Nova Iorque atrai os filhos dos ricos. Los Angeles atrai todas as outras pessoas. Por vezes, há até quem enriqueça em Nova Iorque e, depois, parta para Los Angeles. Eu não suportaria o custo de vida em Nova Iorque. Los Angeles promove a conformidade. Embora isso não signifique necessariamente que a atraia.

Gravou este disco como uma espécie de resposta pessoal a todo aquele emo monótono e plástico?


Nem por isso, e nem sequer acho que o emo seja plástico. Grande parte dele pode até sê-lo, mas diverte-me imenso. Toda a boa música é emocional.

Tem trabalhado em algo de novo?


Acho que sim. Uma filha. Ela é nova. Existe sempre uma série de canções a surgir. Muitas mais para breve, espero eu.

Agora que lançou o disco pela Merge, como tem sido lidar com Mac McCaughan (n.r.: que gere a editora ao lado de Laura Ballance, que também faz parte dos saudosos Superchunk)? Atendendo a que actualmente os Superchunk também atravessam um hiato indeterminado, revê-se na situação do Mac?


O Mac e eu temos praticamente a mesma idade, adoramos o mesmo tipo de música, ambos temos pequenas filhas. Sim, revejo-me na situação dele. O Mac tem lançado discos sob o nome de Portastatic (incluindo o recente Bright Ideas) constantemente. Tal como eu tenho tocado sem e com os Sebadoh.

Com quem estaria interessado em colaborar da mesma forma que o fez com Rudy Trouvé (n.r.: que em 1995 abandonou os dEUS para se dedicar ao projecto Kiss My Jazz)?


Na verdade, não cheguei a colaborar directamente com o Rudy. Enviámos músicas para o mesmo disco (n.r.: o meramente curioso Subsonic 6), mas não chegámos a gravar juntos.

Chega a ser difícil acompanhar a sua produtividade imparável. Será cedo demais para equacionar antologias ou box sets? Ou faz mais sentido que algumas das suas faixas pertençam à obscuridade?



Sim, à obscuridade. A dissiparem-se com o tempo. Não há qualquer interesse em reeditar material dos Sebadoh ou Lou Barlow.

Chegou a ser o mentor da banda sonora do Kids e recentemente participou como actor (n.r.: num breve cameo) em Laurel Canyon (n.r.: tenho um brinde para quem descobrir o nome em português). Estaria em interessado em voltar a trabalhar nessa área?


Existe uma quantidade incrível de dinheiro para músicos interessados em compor música para cinema. No entanto, não tenho recebido quaisquer convites desde Kids. Ou seja, desde há onze anos.

Surpreende-me que aponte o insucesso parcial de The Sebadoh nos Estados Unidos como razão para considerar a continuidade dos Sebadoh. Para mim e tantos outros admiradores, esse disco está ao nível do melhor dos Sebadoh. Não acredita que o disco possa ter sido vítima de um mal-entendido?


Sim, mas isso pouco importa. Existem milhares de bandas mal-entendidas com discos fantásticos que acabaram esquecidos. Os Sebadoh serão apenas mais um caso. Tenho imenso orgulho no que fizemos, mas tenho vindo a aceitar o falhanço.

Tenho um excelente bootleg seu com o nome de Waterfront (1995). Parece-me francamente íntimo e familiar. Lembra-se disso? Como aconteceu?


Foi um concerto acústico numa loja de discos. Toco em lojas de discos sempre que sou requisitado. Acontece que alguém o gravou e acabou por se tornar em algo especial.

Sei que assistia regularmente à série Sete Palmos de Terra (n.r.: que, nos Estados Unidos, já terminou a título definitivo). Acha que uma das suas músicas se enquadraria na série?


Andava por aí um rumor que destacava a probabilidade de “Pearl” – pertencente ao disco dos New Folk Implosion (n.r.: a segunda vida dos Folk Implosion que, após um só disco homónimo, conheceu um fim)– vir a fazer parte do Sete Palmos de Terra. As minhas músicas enquadram-se no que cada um achar melhor. Ofereço-as gratuitamente. Sem qualquer custo.

O que pode esperar o público dos seus concertos agendados para Portugal? Visto que atende a pedidos, é frequente tentar espontaneamente uma qualquer música dos Sebadoh que, à partida, pudesse ser demasiado eléctrica para um concerto acústico?


Sim, claro. Tento um monte de coisas que não funcionam e tantas outras que resultam.

O seu interesse por gatos (n.r.: consultar http://www.loobiecore.com/cat.html) abrange Cat Power?


Não sei se a Chan Marshall representará uma extensão da espécie felina. Gosto de Cat Power. Não é frequente escutá-la, mas aprecio a sua música quando o faço.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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