ENTREVISTAS
Noiserv
Partitura em aberto
· 01 Set 2013 · 23:17 ·
© Vera Marmelo
Passaram-se cinco anos desde o disco de estreia de Noiserv, One Hundred Miles from Thoughtlessness. Mas isso não significa que David Santos tenha estado ausente. Os concertos foram mais do que muitos, houve EPs, a participação na banda-sonora do documentário José & Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, o filme Noiserv {Sessão Dupla}, de Paulo Dias, um 7" na LebensStrasse Records, entre outros. Mas houve sobretudo um processo longo e complexo de escrita do novo disco, intitulado Almost Visible Orchestra. David Santos admite: fazer um disco para ele não é algo que se possa resolver num par de semanas. Sobretudo quando se pode quase ouvir o trabalho de uma orquestra invisível. O segundo disco de Noiserv tem 30 minutos e chega às lojas no dia 7 de Outubro. Em entrevista com David Santos, quisemos saber mais acerca de Almost Visible Orchestra e de como correu o tempo desde que se estreou com selo vespertino da Merzbau.
O teu novo disco chega depois de três anos de trabalho e tem “apenas” 30 minutos. Escrever e gravar música é para ti um processo necessariamente moroso e pausado?

Não é necessariamente, mas costuma ser. Para dar por terminada cada música o processo é longo, longe da habitual semana ou duas de estúdio que hoje em dia se fala ser suficiente para gravar um disco. No meu caso particular, toda a composição é longa, a busca pelo arranjo que mais me agrada nem sempre é assertiva pelo que é um processo que demora muito tempo. Vejo os discos como um todo, e neste caso foram estas músicas, independentemente de perfazerem “apenas” trinta minutos, que senti serem suficiente para aquilo que queria transmitir com este disco.

O que é que é preciso toda a gente saiba acerca deste novo disco?

Acima de tudo é preciso que as pessoas o oiçam e que o tentem compreender. Não é um disco de segredos, é um disco de vivências, e de tudo aquilo pelo que passei nestes últimos 3 anos. É o melhor disco que consegui fazer, e o que mais gosto de tudo o que fiz até hoje, e isso deixa-me feliz.

© Vera Marmelo

O que é que tu próprio ainda nem sabes acerca deste disco?

Não sei o que as pessoas vão achar dele.

Ouvi dizer que a “I Was Trying to Sleep When Everyone Woke Up” é uma espécie de reunião de amigos. O que nos podes contar acerca dela?

É a única música deste disco em que não estou sozinho. Tenho uma série de amigos a cantá-la comigo, a Rita Red Shoes, a Luísa Sobral, a Francisca Cortesão (minta), o Luís Nunes (Walter Benjamin), o Afonso Cabral e Salvador Menezes (You Can't Win, Charlie Brown), e um amigo meu escocês que assina como Esperi.

Entre os dois discos iniciaste uma experiência certamente diferente com os You Can’t Win Charlie Brown. O que é que aprendeste com a banda?

A experiência em banda é diferente pelo que existe muito a aprender. Acima de tudo acho que são duas coisas diferentes e que se complementam. Mas claramente o que mais aprendes é a conseguir chegar a um consenso entre todos, nem sempre fácil.

Como é que pensas levar este novo disco para a estrada? Vai mudar alguma coisa substancial?

Existem algumas diferenças em termos dos instrumentos utilizados, mas o conceito de base, de estar sozinho em palco mantém-se. Foi assim que tudo começou há 8 anos atrás e só assim me faz sentido que continue.

Parece-me que o título do disco fala por si. Mas pergunto na mesma: o que significa?

Na minha opinião, este é o meu disco mais denso e complexo até hoje, com o título quis traduzir precisamente isso. Como se cada uma das 60/70 pistas que cada música tem, fosse um dos elementos de uma orquestra imaginária, dessa forma “Quase Visível”.

© Vera Marmelo

Parece-me que o público português é bastante generoso contigo. Nunca estive num concerto teu que não estivesse cheio ou perto disso. Sentes-te agradecido?

Sinto-me bastante agradecido. Não há melhor sentimento do que sentir que as pessoas gostam daquilo que mais gosto de fazer. Isso faz-me terminar cada dia com um sorriso na cara, e pensar que ainda bem que um dia acreditei que isto podia ser possível.

Da Merzbau até este novo disco, achas que foi tudo demasiado rápido?

Passaram oito anos, é muito tempo, mas não senti o tempo passar. Sinto tudo isto como um caminho, como subir uma escadaria, e felizmente no meu caso tem sido sempre uma caminhada ascendente. Penso algumas vezes nisto que perguntaste, e acho que tudo tem acontecido na altura certa. Nem demasiado depressa não me sentindo preparado, nem demasiado lento para não desmotivar.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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