ENTREVISTAS
Arab Strap
A derradeira ironia
· 01 Out 2005 · 08:00 ·
Depois do casanova problemático, que mais não consegue descodificar os sinais do alvo do seu desejo, acusar algum cansaço, sobra a esperança de que uma próxima ocasião resultará por obra de ensinamentos acumulados. Os Arab Strap empilharam fantasias soft-core num Cavalo de Tróia com a altura de cinco andares e elegeram - deliberadamente ou não - The Last Romance como momento oportuno a um consumar orgiástico que resolve as pontas soltas aos flirts e desgraças acumuladas nos capítulos anteriores. Tudo isso se processa sem nunca permitir que o cristal lírico derrape na banalidade da literatura de Jackie Collins ou no Abrunhosismo dos cinzeiros que se apagam, tempo que tem asas, sentimentos que se amargam, almas que procuram casas. O personagem verosimilmente ficcionado por Aidan Moffat – a metade dos Arab Strap que se ocupa das vocalizações e alguns teclados – trocou as voltas a um fado que, entre um pint e outra noite frustrada, sempre o remetia para a posição do miserável, aquele a que sono demora a serenar, tal é a comichão na nuca. Chegou agora a sua vez de tomar um patamar cimeiro que o permite ditar as regras do jogo, arquitectar as armadilhas ao labirinto cerebral e, claro está, ironizar quando o rumo dos acontecimentos aponta para um regresso solitário ao apartamento. A idade adulta aguça o sentido de ironia, que, ao contrário do que alguns alegam, não se encontra morta ou datada. O Bodyspace caiu na esparrela de Aidan Moffat.
Tendo em conta a sua abrangência de registos emocionais, The Last Romance parece-me ser o primeiro disco de Arab Strap a arriscar a súmula da discografia. Concorda?

Não, acho que todos os nossos discos incluem diversos estilos. Talvez este seja um pouco mais dramático, mas isso parece-nos perfeitamente natural.

The Last Romance surpreendeu-me por incluir algumas faixas assumidamente up-tempo. Alguma circunstância em especial levou a que resultasse desta forma?

Queríamos tentar algo de novo, e as duas regras impostas eram: canções mais curtas e mais rápidas. Não queríamos de forma alguma fazer mais um disco longo e melancólico. Já existem cinco discos assim!

Não há sombra de caixa de ritmos no novo disco. É um elemento descartado no universo Arab Strap?

Sim, usámos a caixa de ritmos em duas músicas que acabaram por não ser incluídas no álbum. Eis outra das alterações impostas – nada de caixa de ritmos!

Incluir palavras como “retirer” [n.r.: neologismo relacionado com a reforma ou retiro] e “last” nos títulos dos vossos últimos lançamentos pode semear o pânico entre os fãs de longa data. Podemos esperar por mais Arab Strap?

Não faço a mínima ideia do que acontecerá no futuro, mas ainda não é nossa intenção separarmo-nos.

Ainda em relação a isso, “There is no Ending” [n.r.: o tema que fecha o novo disco] encerra uma grande pompa de despedida. Era capaz de me esclarecer sobre o porquê de toda aquela glória?

Queria que o álbum tivesse um final feliz. A faixa começa de uma forma taciturna e vai crescendo até atingir aquele tom de fanfarra desmesurada na sua alegria. Terminamos invariavelmente com um andamento vagaroso. Por isso, achei que esta a altura ideal para animar as coisas.

Qual acha ser o disco anterior mais favorável a posicionar-se ao lado de The Last Romances nos concertos?

Acho que podemos combinar tudo com o novo disco. As velhas músicas ganham sempre uma nova vida a cada vez que as tocamos, e isso faz com que se enquadrem à nova banda.

Agora que músicas como “Pack of Threes” ou “Here We Go” gozam do estatuto de clássicos, parece-me que um universo por si só nostálgico se torna “duplamente nostálgico”. Nos concertos recentes, acha que as nostalgias se anulam e toda a gente aproveita o concerto como uma excelente oportunidade para curtir?

Não entendo muito bem a questão, mas adoro tocar as velhas canções em regime acústico. Acho que as velhas canções acabam por soar muito melhor agora, já que quase as consigo cantar como desejava na altura em que as escrevi.


Quando assisto aos vossos telediscos, fico com a sensação de que não se sentem plenamente confortáveis com o formato. É por isso que os Arab Strap ainda não contam com um antologia de telediscos como todas as outras bandas? Ponderam gravar telediscos para este novo disco? Se sim, fala-me disso.

Irão ser gravados pelo menos dois telediscos a partir de The Last Romance, e nós participaremos em ambos. Não sou grande entusiasta dos telediscos. Sinto-me alienado em relação a eles. O nosso meio de trabalho é o som. Não me parece que sejamos uma banda muito visual. Mas quem sabe se com um esforço adicional não o seríamos? Temos de nos esforçar um pouco mais...

O trabalho mantido sob o desígnio de Lucky Pierre [n.r.: que já conta com dois álbuns na mancuniana Melodic] exerce algum tipo de efeito terapêutico ou refrescante na sua actividade? Como se dá com o David [n.r.: patrão da supramencionada label]?

As experiências são distintas, e é certamente saudável distanciar-me de Arab Strap de vez em quando. É algo terapêutico, sim. Creio que me ajuda a relaxar. O Dave é um tipo brilhante, e agora também é o nosso agente no Reino Unido.

Associei imediatamente a imagem na capa de Touchpool (n.r.: o segundo disco de Lucky Pierre já abordado por aqui) a Elephant Shoe (n.r.: aquele que é, para mim, o melhor disco de Arab Strap), muito por força do verso "Cause all I can see is his hand grabbing a tit" da faixa “One Four Seven One”. Existe alguma relação entre os dois?

Não existe qualquer relação, devo confessar. A capa de Touchpool representava uma referência a todos aqueles velhos discos de easy listening que continham fotografias sensuais por razões indefinidas, mas nesse disco ambicionava explorar o “tacto” como tema. Não tinha pensado nessa faixa até a ter mencionado...

Fizeram uma interessante versão de “You Shook me All Night Long” dos AC/DC, no EP The Shy Retirer. O Mark Kozelek foi mais longe e fez um disco baseado no legado dos AC/DC. Seriam capazes de um dia fazer um disco centrado na música de um artista alheio? Se sim, quem seria?

Não me parece. A maioria dos discos de versões surgem apenas porque o artista não tem nada de novo a acrescentar à carreira e esgotou as suas ideias. As versões funcionam muitas vezes como curiosidades divertidas e podem até surpreender se uma banda as adaptar à sua sonoridade, mas nunca faríamos um disco nesses moldes.

Um pouco como vocês, bandas como os Belle & Sebastian ou os Sons and Daughters parecem cultivar um modo peculiar de abordar uma faceta sexy através da ironia e exploração narrativa. Existe aqui um padrão? Se reunirmos as bandas mencionadas, torna-se possível avaliar um pouco que seja da psique escocesa?

Não acho os Belle & Sebastian ou Sons and Daughters assim tão sexys, daí que não entenda onde quer chegar...

Agora que a Escócia se encontra arredada do Mundial da Alemanha, acredita que numa próxima edição a sua selecção ainda possa vir a fazer uma boa campanha?

Não. Nunca!
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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