ENTREVISTAS
Ryan Francesconi & Mirabai Peart
Voos paralelos
· 27 Abr 2013 · 18:10 ·
Ryan Francesconi e Mirabai Peart são um guitarrista e uma violinista. Ele é de Portland, nos Estados Unidos da América, ela é australiana, e conheceram-se em 2012 quando trabalhavam com a Joanna Newsom. A sintonia foi imediata e desde então não pararam de tocar juntos. Os passados musicais são distintos e vão desde a música clássica indiana ao experimental. Caminhos que se convergem na paixão à música folk, essencialmente dos Balcãs. Juntos fizeram uma viagem até a uma pequena vila na Grécia, Palios, de onde surge a inspiração para o disco de estreia que lançaram em Dezembro do ano passado pela editora Bella Union, Road To Palios. Quem assume a composição, para já, é Ryan mas não descartam a ideia de um processo colectivo, até porque prometem ter tempo. Ele fartou-se dos computadores e desviou-se da composição electrónica para se dedicar às tradições musicais europeias. Da América não traz grandes influências. Os dois tocam e viajam juntos, são apaixonados por um monte de coisas e renderam-se à cultura grega de forma extraordinária. Para um concerto feliz só precisam de uma audiência com ouvidos abertos. A simplicidade das pequenas coisas da vida traduzida em canções a dez cordas.
Como se conheceram e começaram a tocar juntos?

Ryan Francesconi: Quando a Joanna Newsom e companhia estavam em tour na Austrália, em 2010, mesmo antes do lançamento de Have One On Me, decidimos contratar alguns músicos australianos para aumentar a nossa banda. Mira foi uma das duas violinistas que escolhi. Primeiro conhecemo-nos em Brisbane, e horas mais tarde, estávamos a fazer o primeiro concerto juntos. Não parámos desde aí…

Mirabai Peart: Sim, foi assim que nos conhecemos. Logo depois entrei na banda na Austrália e fiz a minha primeira tour nos Estados Unidos com eles. Sabia que o Ryan era um expert em música búlgara então pedi-lhe para me ensinar algumas melodias nos bastidores. Foi assim que tudo o resto começou.



Têm as mesmas influências e referências musicais?

R.F.: Eu diria que não, definitivamente. O meu background tem origem no rock e na música experimental. Embora gostemos de música folk, através de caminhos muito diferentes, chegamos a um lugar comum.

M.P.: O meu passado foi na música clássica. Antes de descobrir a música folk, sempre prestei atenção aos compositores que usavam influências folk como o Bartok (que sei que inspirou o Ryan também). Também sou muito influenciada pela exposição prematura à música clássica indiana e ao jazz, e também estou ligada a alguma improvisação. Ultimamente cheguei à música balcã atrás do Ryan, ainda que, mesmo antes de o conhecer, já tivesse um interesse crescente por isso.

Ryan, como foi trabalhar com Joanna Newsom? Especialmente trabalhar nos arranjos para as canções dela?

R.F.: Desafiador mas espectacular. As músicas dela são incríveis, então é mesmo fácil fazer os arranjos. É importante lembrar que as canções são muito boas sem nada mais, por isso é importante mantê-las simples e esperançosamente adicionar apenas algumas cores.

Exploraste a música electrónica como RF antes de lançares Parables. Como músico, o que mudou desde esses tempos?

R.F.: Especificamente, eu odiei tocar com um computador em palco. Foi mau. Por isso, não poderia continuar a fazê-lo. Decidi tocar apenas aquilo que é possível na realidade, não algo manufacturado sinteticamente. Trabalhar com computador era muito estático para mim. Criei o meu próprio software para tentar mudar esse feeling mas ultimamente estava deixar-me frio.



É Road to Palios música de fundo para uma roadtrip? Pelo menos, podia ser...

R.F.: Não foi a minha ideia. Na realidade não gosto de conduzir. Talvez uma viagem de bicicleta...

M.P.: Sinto que a música do Ryan provoca uma sensação bonita de flow e de viajar através dos espaços, no interior, ou viajar em paisagens naturais terrestres, ou mesmo em paisagens abstractas noutras dimensões. Depende do ouvinte! Assim, nesse sentido, é uma boa banda sonora para uma roadtrip. Sem dúvida, viajar é o tema para o videoclip de “Parallel Fights”.

Como foi chegar a Road to Palios? Foi fácil descobrir a música entre a guitarra e o violino?

R.F.: Foi justamente natural escrever, porque a Mira é uma dotada violinista que se interessa por música, bem como em perceber as nuances estilísticas subjacentes. Se fosse outra pessoa, então não – não penso que teria sido fácil.

M.P.: Quanto mais tocamos juntos, melhor percebo o estilo do Ryan e como tocar a sua música. Parece-me muito natural agora.

Continuam com a Grécia nas vossas cabeças?

R.P.: Claro. Mas o sítio não é assim tão importante. São os feelings de lá. Isso não é específico da Grécia para mim.

M.P.: Estive lá duas vezes, e definitivamente apanhei o bichinho da Grécia. Estou um bocado nostálgica pelo lugar. Apaixonei-me, primeiro, pela música, mas como a música folk faz tão parte da cultura de onde provém, agora estou apaixonada por vários aspectos da cultura helénica.

Apaixonarem-se pela música da Europa fez-vos olhar para a americana de outra maneira?

R.F.: Não, de todo. Apenas me foco na música original, assim diria que todas as músicas externas me fazem olhar para a minha própria música de maneira diferente. A música americana nunca foi uma grande influência para mim. Adoro bluegrass em particular, mas não o suficiente para perder tempo para dominar ou para estar pronto a trabalhar dentro desse género – pelo menos até agora. Tenho, no entanto, dedicado o tempo necessário para tocar diferentes tipo de música folk dos Balcãs. A minha relação com esse género é muito mais profunda.



Continuam a ter tempo na vossa tour para um pouco de turismo? Para se apaixonarem por um lugar?

R.F.: Viajar com a Mira é maravilhoso. Ajuda tê-la comigo para investigar as coisas turísticas melhor. Não tem tanta piada se estiveres sozinho. É mais como férias do que como um emprego.

M.P.: Sim, e também ajuda que nos divirtamos tanto com as mesmas coisas. Gostamos de coisas históricas e naturais, e uma das nossas formas preferidas de ver uma cidade é passear de bicicleta. Queremos tentar e ficar em forma durante a tour, por isso é bom quando conseguimos fazer algum exercício e apreciar as vistas ao mesmo tempo.

Como compõem? É um processo colectivo?

R.F.: Não. A música que tocamos actualmente é a minha música pessoal. É escrita, nota a nota, por mim. Isto não é dizer que no futuro não colaboremos de forma diferente. Temos tempo.

M.P.: Como o Ryan disse, neste momento estamos a tocar as músicas que ele escreve (apesar de em alguns momentos haver curtas partes com improvisos). O Ryan é muito peculiar também na forma como toca música! Mas sim, há muito espaços para trabalharmos juntos de maneiras diferentes no futuro.

Têm planos para gravar um álbum novo juntos no futuro?

R.F.: Claro. Vamos ter muitos momentos musicais juntos no futuro!

M.P.: Já estou ansiosa. Vai ser uma nova aventura.

Quais são as memórias que têm de Portugal? O que esperam do concerto no Porto?

R.F.: A última vez que estive no Porto, vi um homem, só com uma perna, a andar de bicicleta pela estrada. Isso foi uma das coisas mais inspiradoras que já vi. Bem, espero que tenhamos uma audiência fixe com ouvidos abertos. Isto faz-nos tocar alegres. É tudo o que precisamos para dar um bom concerto.

M.P.: A única vez que estive em Portugal foi em tour com a Joanna, e lembro-me de ter passeado pela cidade de Aveiro. Estava surpreendida com a beleza das casas com azulejos, as ruas antigas, pontes e canais com muitas cores e com os moliceiros pintados com piada. Estou ansiosa pelo concerto mas não sei o que esperar!
Alexandra João Martins
alexandrajoaomartins@gmail.com

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