ENTREVISTAS
The Rapture
Dez vidas depois
· 21 Fev 2013 · 22:49 ·
Foi numa tenda do Primavera Sound em 2012 que se deu o encontro com Luke Jenner, minutos antes de os Rapture subirem a palco para aquele que foi um dos melhores concertos da primeira edição do festival espanhol na cidade do Porto. E foi ali mesmo que o vocalista da banda norte-americana abriu o coração. Pode parecer ilusionismo mas não é. Luke Jenner não alimenta o star system; não vive uma vida que não quer viver; não vê nos Rapture uma saída da rotina. E isso talvez explique a direcção do último discos dos Rapture. É na mesma uma disco de dança mas não é apenas um disco de dança. Das palavras ditas às influências musicais (do gospel, da música soul, entre outras interferências), In the Grace of Your Love é um disco em tudo diferente do primeiro disco dos Rapture que marcou a estreia da DFA em 2003. Esta não é uma segunda vida para os Rapture; é praí a décima. Numa entrevista suculenta, Luke Jenner disse-nos que a banda já fica feliz por ser convidada para a festa. E disse-nos muito mais.
Passaram-se cinco anos desde o lançamento de Pieces of the people we love. Sentiram-se fora de forma quando começaram a trabalhar num disco a partir do zero?

Não, não. Na verdade, a cada vez que vais para estúdio torna-se mais fácil porque tudo se torna mais familiar. Na verdade, ter tempo disponível torna tudo mais fácil porque tens mais tempo… o maior problema no meu trabalho é que eu nunca tenho tempo para processar nada. Estou sempre a ir a algum sítio… Já tive experiências de vida suficientes para 25 existências, sabes? Por isso eu não tenho problemas nenhuns com ter tempo livre. É importante para mim. Eu acho que muitas bandas acabam porque não têm tempo livre. Sou um grande fã dos Deep Purple. No outro dia estava a ver um documentário sobre o Machine Head e eles estavam a dizer que a formação clássica se tinha separado porque eles precisam de ter algum tempo. Como não tinham tempo livre optaram por separar-se. Por isso é importante tirar algum tempo de vez em quando.

Foi difícil encontrar a direcção musical deste novo disco?

Não. Ser um artista é um processo de aceitação. Acho que, mais do que tudo, quando fazes um disco o que tu fazes é criar espaço para o disco aparecer e depois o disco apresenta-se a si mesmo. É assim que a arte funciona para mim. Não sei como funciona com os outros. Mas para mim é assim: limitamo-nos a esperar que as canções apareçam. É como ter um bebé, sabes? Há o processo de concepção, pintas as paredes, preparas tudo e depois o bebé chega quando tem de chegar.

Sem pressas…

Acho que quando tentas apressar as coisas dás cabo de tudo. Essa é a parte mais difícil. Quando estás numa banda toda a gente pergunta quando chega o próximo disco, se estamos a escrever canções, toda a gente quer mais, mais, mais, mais, mais. Mas as coisas não funcionam dessa forma. O processo tem de ser natural.

In the grace of your love é muito mais do que um disco de dance-punk. Sei que se deixaram influenciar por música gospel por exemplo. Era vossa intenção desde o início abrir o vosso som a diferentes influências?

Sim. Acho que a parte mais divertida de ser músico… Eu não comecei a fazer música, eu comecei a ouvir música, por isso. Mesmo quando era criança. Eu fui fã da música primeiro. Costuma ser assim: aqui que ouves passado três anos começa a reflectir-se naquilo que tu fazes. Mesmo que não tentes, sai naturalmente.



In terms of lyrics, this is a very strong and introspective record. But the songs are still very danceable. Were you afraid that the record would sound somehow bipolar?

Acho que isso é algo com que a música do ocidente tem vindo a lutar desde sempre. A ideia que se tens uma batida não podes ter um conteúdo emocional. Mas isso não é verdade. [risos] É obviamente uma ideia errada. Eu não tenho escolha sobre o tipo de arte que faço. Por isso não me preocupo com isso. Não é algo premeditado. Eu podia tentar estar numa banda de grunge, seria OK, mas provavelmente não estaria a falar contigo sobre isso.

Não seria natural…

Exacto.

Mudando de assunto, o produtor deste disco, Phillipe Zdar, foi de alguma forma crucial para o som deste disco?

Claro. Sempre que tens um produtor eles são cruciais para o som. Ter um produtor é quase como deixares alguém fazer parte da tua banda durante o tempo que estás a fazer o disco e depois nunca mais o vês. [risos] Eu raramente vejo a minha família, sabes. Isto pode ser muito estranho. Tu tornas-te muito próximo das pessoas e depois deixas de as ver durante imenso tempo. Por exemplo, nos primeiros tempos, o Johnny Jewel dos Glasscandy e dos Chromatics, ele era uma pessoa que conhecíamos muito bem quando vivíamos em Seattle. Costumávamos dar concertos em Portland e ele era o único que aparecia. Uma vez avariou-se o nosso teclado quando estávamos prestes a ir em digressão e ele deu-nos literalmente o dele, um que funcionava pelo nosso que estava avariado. E eu já não o vejo há uns… quase dez anos. Vi-o na entrada de um hotel há uns dias atrás na Irlanda e dissemos olá um ao outro mas conhecemo-nos. És um cigano. Conheces pessoas a toda a hora mas não conheces quase ninguém. Para mim é muito importante manter-me em contacto com as poucas pessoas que me conhecem quando eu era criança. É muito muito difícil manter os pés no chão com um emprego como o meu. Porque é muito fácil esquecer que vais morrer, basicamente. [risos]

Sentes-te imortal?

Não me sinto imortal. Estive em algumas igrejas lindas aqui no Porto. E estão a morrer. E fiquei a pensar: independentemente de quão bonito seja, vai morrer. E eu não sou excepção. Não tenho nenhuma formula mágica. Posso fazer algo verdadeiramente bonito e daqui a 500 anos estará destruído. Não tenha ilusões de poder vencer o tempo, sabes. [risos]

Mudando novamente de assunto, como foi regressar à DFA? Alguma vez sentiram que se estavam a separar do som da DFA, da sua filosofia?

Eu estou-me a cagar para a filosofia da DFA. Nós lançamos o primeiro disco na DFA por isso somos, de muitas formas, o som da DFA. O James Murphy de certa forma criou um som, ele criou os LCD, que são algo similar. Ele fez um óptimo trabalho. Mas fizemos isso tudo juntos. Acho que façamos o que fizermos será sempre algo relacionado com a DFA. Acho que não conseguiríamos fazer alguma coisa que não se enquadrasse. [risos]

Como é sobreviver a uma canção tão popular como “House of Jealous Lovers”?

Nunca sentimos que estávamos a sobreviver, de todo. Para mim, tudo o que eu queria fazer na música era escrever uma canção que fosse esse tipo de canção, sabes? E fizemos isso. por isso para mim foi um pouco como: “ok, já terminei”. Para mim foi do género: a pressão terminou.

Sim?

Sim. Provavelmente nunca farei isso de novo. E convivo bem com isso.

Nunca sentiram a pressão de repetir esse sucesso? Foi uma canção com um impacto enorme, como sabem…

Sim. Eu sinto-me feliz que tenha tido um enorme impacto. Ensinou-me que… Acho que me colocou em contacto com a morte também porque… De certa forma, fez-me pensar também nas outras partes da minha vida. Porque tinha chegado ao topo artisticamente. Talvez não em termos de dinheiro, não tenho um jacto privado ou uma mansão, mas artisticamente cheguei ao topo da montanha. E é altura de começar a pensar em ter uma família ou descobrir quem são os meus verdadeiros amigos. Tirou imensa pressão de cima de mim de muitas formas. Porque foi do género: já podes tirar essa da tua lista, pá. Sabes?



Sentem que esse disco e essa canção inspiraram muitas bandas naqueles tempos? sentiram que de certa forma tinham começado alguma coisa que outros continuaram?

Sim, os LCD. O James Murphy começou a banda dele para abrir para nós. Ele costumava fazer-nos o som, sabes. Ele continuou. E muitos outros. É óptimo, sabes. Não és pago por esse tipo de coisas mas acho que és pago de outras formas. O facto de ainda estarmos no activo… queria fazer alguma coisa importante e queria andar aí durante muito tempo. Penso que se ficares por cá durante muito tempo as pessoas são forçadas a ouvir-te. Eu não gostava dos ZZ Top há cinco anos atrás mas estava tão farto de ver os ZZ Top em todo o lado que pensei: OK, vou arranjar todos os discos dos ZZ Top e vou tentar perceber o que gosto deles. Nem que seja apenas uma canção ou um disco, vou encontrar. Não me preocupo que as pessoas gostem de nós. Apenas quero que as pessoas tenham de formar uma opinião acerca de nós. E acho que conseguimos isso. eu sei que nem toda a gente vai gostar de nós e da nossa música e isso não é importante para mim. É bom estar aqui ainda. Quando tocamos para pessoas mais jovens, eles nem conhecem a “House of Jealous Lovers”. Em grandes festivais costuma haver muitos miúdos e dá para perceber que eles não conhecem a canção.

A sério?

Sim, porque tem dez anos. E há dez anos quando tens vinte, tinhas dez anos na altura. E era uma canção bem conhecida. Por isso a malta com dez anos não estava a ouvir isso há dez anos atrás. É porreiro. A “How deep is your love” é uma canção mais conhecida. É bom poder aparecer e aidna fazer parte das coisas de alguma forma. Não precisamos de ter um enorme sucesso mas é bom sermos convidados para a festa. Ainda.

Sentem que esta é uma espécie de segunda vida para os Rapture? Imaginam-se a lançar mais discos no futuro?

Esta é para aí a nossa décima vida. Eu tenho 37 anos e a maior parte das pessoas com quem comecei a tocar música têm todos empregos a sério. São advogados, ou trabalham em supermercados. Sentimo-nos para lá de abençoados por termos a oportunidade… Todos os discos que lançamos, desde os dois EPs, passando pelos três discos, em qualquer um desses pontos podia ter sido a nossa última oportunidade. Nenhum dos nossos discos falhou redondamente. Tivemos sempre críticas mistas. No geral foram positivas. Nunca disseram numa crítica: nunca mais façam um disco de novo. Ou: odiámos-vos, vão embora. Mas isso acontece. Bastantes vezes. [risos]

Então imaginam-se a lançar um novo disco…

Eu não sei o que mais fazer. Eu não tenho um plano b, sabes. [risos] Eu não quero ser secretamente outra coisa qualquer. Sou muito bom a escrever canções e a cantar. E gosto disso. Às vezes sinto que o faço em demasia e preciso de tirar um tempo. Estamos em digressão quase há um ano seguido. E gostava de estar com o meu filho. E cozinhar algo que eu próprio tivesse cozinhado, sabes? As pessoas estão sempre a perguntar-me: qual é o teu tipo de comida favorita? Sabes? Quando estás em digressão não tens controlo de nada. Tens de estar num determinado sítio a uma determinada hora. E tens de comer o que lá estiver. Quer queiras comer ou não. Tens opções muito limitadas. Por isso para mim o luxo é o oposto do que a maior parte das pessoas pensam. É ir ao supermercado, comprar comida para mim mesmo…

Isso vai totalmente contra o rock n roll…

Mas eu tenho 37 anos. Um homem não pode viver só de ser cool, sabes? [risos] A certa altura tens de crescer ou morres. Quando te tornares mais velho, enquanto um tipo do rock, tens de ir muito decididamente numa direcção. Ou entrar na paródia rock n roll tipo Spinal Tap, ou entras nesse modo, ou então tornas-te tipo super normal. Essas são as duas únicas opções. Não podes ficar no meio.

E tu escolheste ser normal…

Sim, sou um pai. Isso é o que eu faço. Os meus empregos mais importantes são ser pai, marido, e numa percentagem mais pequena, tipo 15%, ser um gajo do rock n roll. Sabes? [risos]
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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