ENTREVISTAS
Moullinex
Para dançar mas não só
· 22 Nov 2012 · 00:47 ·
© Nian Canard
Homófono da conhecida marca de electrodomésticos, Moullinex, ou melhor dizendo, Luís Clara Gomes, é um dos principais produtores portugueses de música electrónica alternativa. Nascido numa pequena cidade no interior do país, durante a infância foi crescendo no meio da música e de músicos. Apesar disso, desde cedo tentou procurar as suas sonoridades evitando aderir a um género ou movimento específico. Acaba por enveredar pela música electrónica – disco e house, segundo o próprio por “ser acessível e ser possível”. Pouco tempo passou desde 2007, altura em que Luís criou Moullinex, até ao reconhecimento mundial por remisturas de Sebastien Tellier ou Cut Copy. Em 2009 assina pela Gomma Records e, até 2011, viria a lançar 4 EP’s – Superman, Chocolat, Sunflare e Modular Jam. Em Outubro deste ano editou o seu primeiro longa-duração intitulado Flora. A par de Moullinex, Luís criou, com os amigos da editora portuguesa Discotexas, uma banda que lhe dá a oportunidade de partilhar o palco nas actuações ao vivo. No início não tinha grande noção de fronteiras graças à internet. Hoje divide-se entre Lisboa e Munique, onde diz não sentir grandes diferenças.
Foram vários e distintos os cargos que tens vindo a assumir na música electrónica. O que te traz a este mundo e, particularmente, a este género?

Primeiro atraiu-me a música electrónica em geral pelo aspecto DIY - ser acessível e ser possível, seres tu a fazer tudo - e depois a música de dança numa altura em que finalmente a compreendi. A Discotexas surgiu depois, ingenuamente, de uma vontade conjunta de pôr a música de amigos cá fora, debaixo do mesmo "chapéu".

Foi relativamente curto o tempo entre o teu primeiro trabalho como Moullinex e a remistura de artistas como Sebastien Tellier, Two Door Cinema Club ou Cut Copy. Como surgem estas oportunidades?

Duas palavras: MySpace e Blogs. Naquela altura a dita "indústria" estava perdida, já que o MySpace tinha abalado os alicerces da mesma, os intermediários tinham de repente desaparecido, os artistas chegavam directa e globalmente aos potenciais fãs - os blogs faziam uma recolha activa, uma quase curadoria de coisas novas e os A&R's das editoras estavam bem atentos a um par destes blogs. A minha música foi partilhada nestes blogs e os primeiros interesses para gigs e remisturas surgiram directamente daí. A realidade hoje em dia é infelizmente diferente,. Acho que o Facebook promove a passividade e conferiu de novo um tom "institucional" às banda, o que torna as coisas mais difíceis para quem está a começar.

© Nian Canard

Assinaste pela Gomma Records em 2009. Desde então quais foram as principais vantagens que tens vindo a sentir ao fazer parte de uma editora alargada?

Respeito muito a Gomma por conservar o edge depois de mais de 10 anos de existência. Acho que qualquer editor, Discotexas incluída, tem muito a aprender com uma editora independente que tem alcance global mas que se sente "de família".

Mudaste-te para Munique. Quais foram as principais diferenças que sentiste a nível de produção musical e de receptividade?

Sinceramente poucas. Digamos que o facto de ter vivido na Europa central me permitiu ver mais concertos com mais frequência e, de certo, beneficiei do facto de ter muita gente à minha volta que estava ocupada a fazer trabalho criativo sem necessariamente passar (muita) fome. Essa infra-estrutura faz falta: a capacidade de correr riscos permite que surjam coisas novas e interessantes que inevitavelmente estimulam outros a correr riscos e a criar a sua própria marca.

O minimal e o techno são sub-géneros soberanos na electrónica alemã. De alguma forma nadas contra a corrente ou chegam a influenciar-se mutuamente?

Não creio estar inserido na corrente. Se fores a Berlim hoje só ouves Deep House, como só ouvirias Minimal há 4 anos atrás. Disco? Nunca chegou a acontecer… Procuro absorver o que é interessante mas não me preocupa em demasia estar inserido nesse circuito.

Desde sempre sentiste essa vontade de internacionalização?

Estaria a mentir se dissesse que não. Comecei a mostrar as minhas coisas online e a noção de "território" não existiu de início, o que, pessoalmente, foi bom. Fico profundamente feliz de saber que, algures no outro lado do mundo, alguém pode esboçar um sorriso a ouvir uma linha de baixo minha. Quiçá até se levantar da cadeira e dar um pézinho de dança.

Compôr e tocar com amigos é sempre uma experiência diferente. O que ressalvas da junção dos artistas da Discotexas como banda? Quais foram as principais dificuldades?

Acho que a melhor parte é que sem a banda seríamos todos eremitas de cavernas escuras (também conhecidas por estúdios). A possibilidade de partilharmos um palco a tocar as nossas próprias coisas é um privilégio enorme. Claro que há dificuldades… Se calhar aquela guitarra naquela malha demorou 230459823 takes a fazer e agora tem que ser tocada sem falhas num só, em palco. Esse desafio, e vencê-lo, é a força motriz.

© Nian Canard

A música electrónica não está enraizada na cultura portuguesa e é muitas vezes mencionada de forma pejorativa. Como vês a indústria e público portugueses?

Qual indústria!? Acho que esses estigmas tendem a desaparecer, Tal como globalmente já não há fronteiras claras entre pop, electronica e indie, essa noção heterogénea acaba por chegar cá e fazer-nos igualmente bem. A música feita em Portugal está cada vez melhor e, pela primeira vez desde que me lembro, não tem complexos de inferioridade.

Flora é o teu primeiro álbum. É o culminar de toda a tua experiência até aqui? Em quê que diverge essencialmente dos outros trabalhos?

É, mas não é uma "retrospectiva". É mais diverso, creio, porque não existe uma necessidade imediata de ser "para a pista". Mas tentei que tivesse um fio condutor - que seja Moullinex e que idealmente abra portas para o que Moullinex pode ser a seguir.

A tua sonoridade é inevitavelmente dançável. Nas actuações ao vivo sentes que há algo que acresce à tua música?

Gosto de pensar ao contrário. Apesar de ser feita para dançar e para ser consumida em grupo, também procuro dar-lhe um cariz pessoal - ser detalhista, conferir-lhe várias camadas - para que possa ser consumida intimamente. Esse é o objectivo, pelo menos.

Tocaste num festival sueco 'lado-a-lado' com The Cure, M83 ou Justice. O que mais podes esperar da tua carreira neste momento?

Nesta altura, tocar como DJ ou ao vivo ocupa-me os fins de semana até bem dentro de 2013. Ter acabado o álbum permite-me ocupar o resto do tempo a fazer música nova, seja para mim ou para outros, o que é, de certo, a minha actividade favorita. Isto e preparar os singles e vídeos seguintes do Flora.
Alexandra João Martins
alexandrajoaomartins@gmail.com

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