ENTREVISTAS
Mind da Gap
Militantes do Hip-Hop
· 12 Nov 2012 · 17:05 ·
© Nuno Lopes
Já lá vão dezanove anos desde que Ace, Presto e Serial se juntaram, pela ruas da cidade Invicta, ainda sob o nome de Da Wreckaz. É com este projecto que se recusam a participar no disco Rapública, primeira compilação de Hip-Hop nacional, bem sucedida a nível de vendas e da qual fizeram parte nomes como Boss AC ou Black Company. Depois de alguns concertos pelo Porto conseguem receitas suficientes para a compra de equipamentos musicais e mudam o nome para Mind da Gap, como viriam a ficar conhecidos até hoje. Lançam o seu primeiro EP, homónimo, em 1995, pela editora Norte Sul e, pouco tempo mais tarde, colaboram com bandas como Blind Zero e Cool Hipnoise. O primeiro LP, Sem Cerimónias que sai em 1997 é misturado por Troy Hightower, figura reconhecida no Hip-Hop a nível mundial. Três anos mais tarde foi a vez de A Verdade mas é com Suspeitos do Costume, editado em 2002 e considerado uma obra maior do Hip-Hop nacional, que saltam para as luzes da ribalta – são vendidos mais de 10.000 exemplares. Seguem-se Edição Limitada, uma nomeação para os MTV EUROPEAN MUSIC AWARDS, uma compilação dos dez anos de carreira - Matéria Prima (1997-2007), e, já em 2010, A Essência. Ainda assim Ace (foi ele quem respondeu às nossas perguntas) recusa o rótulo de dinossauros, argumentando de forma veemente que os Mind da Gap não estão extintos. Desta duas décadas de trabalho ressalva fundamentalmente a resistência, embora assuma o populismo, e a fidelidade.
São quase 20 anos de carreira de Mind da Gap. O que mudou no Hip-Hop português ao longo destas décadas?

Praticamente tudo. Algumas coisas para melhor, outras nem por isso. Quando começámos, o vinil ainda era um suporte "considerado", talvez, o suporte por excelência para a música rap. No entanto, nunca lançámos nenhum álbum em vinil - o CD passou a ser o principal suporte - e hoje em dia já nem o CD tem grande importância junto do público mais jovem. Sinais dos tempos, evolução tecnológica, acessibilidade à e propagação da informação de uma forma incrível. Tudo isto mudou o panorama musical internacional e Portugal, nomeadamente no meio Hip-Hop, não foi excepção. De poucos artistas passámos a ser muitos e agora só há os resistentes; de poucos contractos para concertos passámos a ter bastantes e agora os que há não são suficientes; de vendas inexistentes a disco de prata (no caso particular de Mind Da Gap) e passámos, agora, para a quase inexistência de novo... Passámos de underground ao quase-mainstream e agora estamos, de certa forma, a voltar ao underground. A história tem demonstrado que as coisas funcionam por ciclos. Talvez a partir de agora, com mais consciência do que aconteceu no passado, com mais maturidade e informação de forma generalizada, se consiga fundamentar a existência de algo permanente, que resista (sobreviva) à passagem dos ciclos.

O que guardam de melhor e de pior em termos profissionais?

O melhor está sempre a acontecer, felizmente. Alguém que te mostra uma letra tua tatuada no seu corpo, alguém que nos diz que os "ajudamos a ser melhores humanos", expressões de pessoas a assistir aos concertos, ouvir refrões cantados por muita gente, ouvir carros na rua com Mind Da Gap nas alturas… Isso, felizmente, repito, continua a acontecer. São os maiores incentivos de coragem que podemos ter. A nossa resistência vai beber muita energia a estes pequenos Grandes momentos. O pior é a relação com a indústria, com os media e a percepção (amargurante) de que aquilo que é a nossa vida é para quase todos os outros, um mero negócio.

© Nuno Lopes

O Porto esteve sempre intrinsecamente ligado à vossa música, nem que seja pelo sotaque. Sentem que há diferenças entre o Hip-Hop feito no norte e no sul do país? A cidade ofereceu-vos experiências particulares?

Presumo que sim. Acredito até haver um estilo quase definido daquilo que é o Rap do Porto. O Porto é uma cidade meio cinza, quase obscura. É preciso mergulhar nela para se ver para lá da paisagem. A cidade sobreviveu a invasões durante anos a fio, a viver entre muralhas. Isso marcou o ADN do portuense para sempre. E todos os portuenses, sejam músicos ou picheleiros, sentem isso e são isso. E a sua vida e o que fazem é marcado por esse elemento.

São verdadeiros dinossauros da cena portuguesa, a par de outros nomes. Perante a vossa experiência, como assistiram à “mainstreamização” do género em Portugal e não só?

Antes de mais, queria ressalvar aqui um aspecto: há algo que nos distingue dos dinossauros de forma absolutamente peremptória - não estarmos extintos. Posto isto... Somos três indivíduos de mente aberta e com bastante compreensão pelas escolhas dos outros. Para além disso, somos quase estudiosos da cena Hip-Hop de há muitos anos a esta parte. Isso faz-nos perceber como se chegou até aqui e porque é que foi aqui que se chegou. Por outro lado, a achar que cada um faz aquilo que achar melhor para si. O que sabemos é que o Rap como nós o vemos e sentimos não está morto - quanto mais não seja porque ainda há dinossauros vivos cuja paixão é mesmo esta.

O Hip-Hop foi várias vezes alvo de estigma e preconceito por vários comportamentos que lhe são associados, por exemplo o grafitti. Sentem que tem havido alguma evolução no sentido de desconstruir essa ideia?

Em termos aparentes, sim. Ou seja, aparentemente, há uma maior abertura geral ao graffiti, por exemplo. Se essa atitude vai para lá do aparente, do "deixa-me fazer de conta que percebo e até gosto de...", só o futuro o dirá. Vejo com muito bons olhos a evolução artística de alguns nomes grandes do nosso graffiti para outras áreas e, nalguns casos, com bastante sucesso. As pessoas que sejam reais "soldados" do Hip-Hop têm uma vantagem muito grande sobre os demais. Pertencemos a uma cultura de adaptação, de transformação. Todos os elementos desta cultura têm isto como referência. No DJing, MCing, no Graffiti, no Breakdance, na produção.... Partimos de algo já existente, adaptamos, transformamos, recriamos. Isso dá-nos vantagens no que toca à sobrevivência. E para esses reais "soldados", a sobrevivência (física e/ou não só) é bastante mais importante do que a sensação de mais aceitação. Como disse o DJ Premier: "we're like roaches, we never die, we multiply".

Em "Dedicatória" escrevem 'Ninguém toca quase nada, ou até mesmo nada./ Temos um sampler p'ra sacar o que mais nos agrada / Rimas ricas ou pobres, que não obedecem à métrica, / Sem estrutura convencional de quem especifica'. De alguma forma privilegiam a letra ao instrumental?

Não, de forma alguma. Cada um dos três dá o seu melhor no que lhe diz respeito, obviamente. E claro que os MC têm o cuidado de escrever boas letras, com bom português e ricas em conteúdo e/ou estilo. Mas sem os beats, as letras não têm suporte. E são esses beats que inspiram os MC a escrever o que escrevem e a rimarem da forma que o fazem. beats, rhymes and life.

© Nuno Lopes

Em todo o vosso trabalho tanto falam de coisas banais do dia-a-dia como criticam fortemente a sociedade em que vivemos. Nestes dias que correm o Hip-Hop tem alguma função social extra, por assim dizer?

Antes de mais, quero dizer que não concordo com esse lugar comum de afirmar que o rapper é por natureza panfletário. Não creio ser obrigatório. Se é costume? Se "fica bem"? Se é "útil" à sociedade? Sim, acho que sim. Mas o Rap deve ser aquilo que quem o fizer, quer que ele seja. Nestes dias que correm, deviam ser os outros artistas, os mais mediáticos, a assumirem alguma função social extra. Os do Hip-Hop pouco podem fazer ao nível que se desejaria que acontecessem coisas. Os artistas de Hip-Hop, nomeadamente os Mind Da Gap, têm vindo a alertar para estas coisas há anos. Enquanto houver Tonys a encher concertos com milhares de pessoas (pessoas essas que dizem que a crise está muito pesada, mas que para isto há sempre dinheiro) e a não terem coragem de comunicar algo de realmente importante para esse público imenso... Enquanto for este o nosso jardim à beira mar plantado, os artistas de Hip-Hop terão o seu lugar garantido no "fundo da sala" - podem fazer barulho à vontade que não incomodam ninguém.

Ao sexto álbum, o que há de novo para mostrar? O que é que muda com este Regresso ao Futuro, se é que muda alguma coisa significativa? Este disco pode ser de alguma forma um virar página?

Às vezes, aquilo que vemos de mais agradável não é nada de novo. Não acho que mude nada de especial, se é que muda alguma coisa. Pelo menos não fizemos nada consciente para mudar o que quer que fosse. Fizemos música. Música que continua (depois do A Essência) a soar-nos algo reminiscente do passado do Rap que fizemos e ouvimos. Desta feita, mais virados para o Futuro do que no álbum anterior. Estamos bastante satisfeitos com este trabalho. Soa-nos coeso, como um todo. Gostamos de discos assim.

Dealema, Sam the Kid, Berna, Mundo e Rey fazem parte do cardápio de convidados de luxo do vosso álbum. De que forma é que estas colaborações enriquecem a vossa música?

Os convidados, são, como sempre, pessoas que pertencem à nossa família musical (e não só) - directamente ou por "adopção". São artistas com quem nos identificamos, em quem acreditamos enquanto músicos e que por serem pessoas diferentes de nós (ou da "pessoa Mind Da Gap"), trazem uma perspectiva diferente das coisas e melhor dizendo, das músicas. Os temas foram todos propostos por nós, mas ainda que os MC convidados tenham esse tema como base, a forma como o abordam, será sempre a sua e é aí que reside o interesse das participações. Para nós, é uma espécie de escape de nós próprios. Durante uns segundos largos ouve-se uma voz diferente da nossa, com uma abordagem distinta da nossa. Saímos da "redoma".

Mind da Gap, 19 anos, 6 álbuns, uma palavra.

Sempre.
Alexandra João Martins
alexandrajoaomartins@gmail.com

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