ENTREVISTAS
Jozef van Wissem
Alaúde de boa saúde
25 Out 2012 14:34
Nos últimos anos, o holandês Josef van Wissem tem vindo a construir um corpo de trabalho impressionante á volta do alaúde, ora na bonita solidão da auto-suficiência, ora em colaboração com gente boa como James Blackshaw, Keiji Haino, Tetuzi Akiyama, Jim Jarmusch ou mais recentemente Loren Conners. Sem muita concorrência pela frente, Josef van Wissem tem mudado a forma como vemos o alaúde, ao colocá-lo ao serviço da música avant-garde e do experimentalismo. Com excelentes resultados práticos. Aproveitando o regresso de Jozef van Wissem a Portugal para dois concertos (no Amplifest 2012, no Porto, e na festa de encerramento do doclisboa 2012, em Lisboa), lançamos algumas perguntas que o músico holandês respondeu com economia de meios (andar em digressão não deve ser fácil) mas sem deixar nada por dizer. Feitas bem as contas, apetece dizer que o alaúde está definitivamente de boa saúde.
Antes de mais, uma pergunta muito importante apesar de típica. Como é que começaste a tocar o alaúde?

Comecei a tocar alaúde quando me mudei para Nova Iorque vindo da Holanda. Naquela altura estava farto do estilo de vida rock & roll. Por isso foi parte de um processo introspectivo. Tomei contacto com o repertório para alaúde quando era mais novo, há que dizê-lo, com onze anos, quando comecei os meus estudos clássicos na guitarra.

Podes descrever-nos a maneira como a tua forma de tocar alaúde evoluiu ao longo de todos estes anos?

Bem, no início tocava muitas peças clássicas e ainda toco mas tinha uma espécie de obsessão com o instrumento e com o seu repertório quando comecei por isso encontrei todas as gravações. Depois de algum tempo comecei a tocar as peças ao contrário e esse tornou-se no meu primeiro CD, Retrograde. Depois destas imagens de espelho veio o meu sistema de composição em palíndromos e sampling medieval. Mas as peças tornaram-se igualmente mais minimais. O meu material a solo hoje em dia consiste em palíndromos em camadas.



Conheces mais músicos que toquem o alaude com uma abordagem diferente do instrumento tal como acontece contigo?

Não, apenas aqueles a quem ensinei a tocar alaúde. A maior parte dos músicos que tocam alaúde não ouvem música avant-garde e por isso não têm uma abordagem experimental quando chega à altura de comporem novas peças para o instrumento.

Que percentagem da tua música é criada a partir da improvisão pura e dura? Consideras-te antes de mais um compositor?

Sou um compositor antes de mais. Eu abro caminho a melodias. A improvisação exploro muito mais com os outros, em colaborações. Mais recentemente com o Loren Conners.

Sentes-te parte de alguma realidade musical específica? Musicalmente, em termos culturais, em termos sociais…

Culturalmente eu pertenço a Brooklyn.

Tenho de te perguntar acera dos títulos bíblicos de algumas das tuas composições. Como é que encontras um tema religioso nos teus temas instrumentais, como é que trabalhas nessa perspectiva?

Através da leitura de livros maioritariamente de misticismos cristão femininos como Mechthild of Magdenburg, Marguerite Porete, Julian of Norwich, etc. Elas escrevem sobre a viagem até se tornarem mais próximas do Senhor. É verdadeiramente intenso.

Voltando às colaborações, como foi fazê-lo com o Jim Jarmush? Foi fácil encontrar uma empatia musical entre ambos?

A colaboração com o Jim Jarmush cresceu de uma forma natural. Ele era fã do meu trabalho e eu era fã do trabalho dele. Além disso, tocamos ambos em bandas de new wave nos anos oitenta. Por isso temos passados musicais muito similares.

O que é que nos podes dizer acerca deste segundo disco, The Mystery of Heaven ? Quão diferente é comparado com o primeiro?

É mais pesado. E tornamo-nos melhores também.

Li algures que a tua música foi incluída no videojogo Sims Medieval. como é que isso aconteceu?

Fui convidado a compor doze peças pelos responsáveis do Sims, escreveram-me e pagaram-me a viagem de avião para São Francisco. Tive total liberdade.



Saindo da música um pouco, como vês o colapso da Europa? Tens uma visão politica de tudo isto?

A Holanda tal como a conhecia está morta e isso é triste. Prefiro a Europa de leste neste momento.

Vais tocar em breve no Porto, no âmbito do Amplifest, na catedral da cidade. O que é que esperas deste concerto?

Gostava de entrar na audiência na Catedral.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

Parceiros