ENTREVISTAS
Mandrax Icon
Blitz, tampax, mama mondrax
∑ 27 Mar 2012 ∑ 01:22 ∑
Muito sucintamente: M√°rcio da Cunha, ou Mandrax Icon, faz can√ß√Ķes. Um bra√ßo nos blues, outro na folk, e duas m√£os cheias de boas influ√™ncias, e assim se faz um M√ļsico a ter em conta. Mary Climbed the Ladder for the Sun √© o disco de estreia e est√° quase a sair, ap√≥s seis anos de planeamento, de trabalho, e de uma necessidade gritante de contar hist√≥rias a quem quer que esteja disposto a ouvi-las. O resultado: dez temas, novos e antigos (isto √©, que se ouviram j√° em concertos e Myspaces), e um objecto que pretende ser de culto, n√£o s√≥ pela m√ļsica como pelo formato. Depois de uma bem-sucedida Videoteca, o Bodyspace foi falar com o homem por detr√°s do projecto e tentar saber o que mais poderemos esperar.
De onde vem a imagina√ß√£o de Mandrax Icon? Qual foi a primeira coisa que te inspirou e te levou a querer compor can√ß√Ķes?

Compor can√ß√Ķes acaba por ser uma necessidade, e sempre esteve presente comigo desde que comecei a tocar, aos 13 anos. J√° na altura tinha mais interesse em fazer os meus pr√≥prios temas, ainda que rudimentares, do que aprender m√ļsicas de outras pessoas. Desde novo estive envolvido em v√°rios projectos e em meados de 2006 comecei a explorar uma tem√°tica mais folkie, que revisitava as bandas que comecei a ouvir quando era novo, como o lado mais pastoral dos Pink Floyd, Neil Young, Crosby, Stills, Nash & Young e Syd Barret. Entretanto, o meu interesse por este tipo de som cresceu e comecei a explorar e a conhecer outros autores como Robbie Basho, John Fahey e Jack Rose que acabaram por me influenciar enquanto guitarrista e compositor. Foram surgindo novas ideias e come√ßou a fazer sentido arranjar um nome. Acabou por surgir ap√≥s um document√°rio que vi sobre a vida do Syd Barret, no qual o David Gilmour descreveu as sess√Ķes do Madcap Laughs como err√°ticas e o Syd constantemente "high on Mandrax". √Č uma homenagem a um dos meus √≠dolos de inf√Ęncia.

Que nos podes dizer acerca de Mary Climbed the Ladder for the Sun que ainda mais ningu√©m saiba? Como correram as grava√ß√Ķes?

As grava√ß√Ķes decorreram de maneira muito espont√Ęnea. O disco foi gravado maioritariamente durante o ver√£o na garagem do Filipe da Gra√ßa, em Albufeira, donde eu venho. O lado bom de n√£o gravar num est√ļdio convencional √© a liberdade com que podes ir fazendo as coisas. Liberta-te do stress de estares enfiado num cub√≠culo, a pagar e a ver as horas a passar, comprometendo muitas vezes o resultado final. Creio que o disco reflecte um bocado esse ambiente descontra√≠do. O Filipe √© o tipo de pessoa com o qual eu gosto de trabalhar e foi mantendo as sess√Ķes a fluir sem serem demasiado cansativas. Os restantes overdubs foram feitos em Lisboa, nos Est√ļdios do Vig√°rio, e em v√°rios locais por Londres, assim como a mistura. O plano inicial de trabalho consistiu em 16 temas, mas √† medida que fomos trabalhando alguns foram sendo eliminados e termin√°mos com 10. O facto de a edi√ß√£o f√≠sica ser em vinil tamb√©m limitou, neste caso de maneira positiva, a dura√ß√£o do disco.


Sendo que alguns dos temas que lá irão estar presentes têm alguns anos, houve a necessidade de os reformular/reinventar ou soam tal qual como foram pensados da primeira vez?

Dos temas mais antigos, apenas dois ficaram no disco e esses levaram uma roupagem nova - ainda assim, n√£o se mexeu na estrutura. Neste caso, a inclus√£o de violinos maximizou o seu potencial. No geral foi relativamente f√°cil fazer com que as m√ļsicas inclu√≠das no disco fizessem sentido juntas, pois houve √† partida uma pr√©-selec√ß√£o das que iam ser gravadas de maneira a termos um √°lbum e n√£o um comp√™ndio de temas soltos. A ideia inicial para Mandrax Icon era a de ser uma banda e muitas das m√ļsicas, que neste momento tenho arquivadas, foram compostas para esse formato. No entanto resolvi limitar-me apenas √† guitarra e √† voz, facilitando assim a direc√ß√£o musical folkie que acabei por seguir, definindo quais os temas a trabalhar e a abandonar.

Mandrax Icon j√° existe desde 2006, mas s√≥ agora lan√ßa um disco. Qual a raz√£o deste tempo de espera? √Č uma reac√ß√£o √† velocidade com que tudo se processa hoje em dia?

Os principais motivos desta demora s√£o dois: o primeiro √© n√£o ter conseguido arranjar uma forma√ß√£o est√°vel para o projecto - n√£o foi f√°cil, numa cidade como Albufeira, arranjar m√ļsicos que quisessem tocar este tipo de som. Outro problema √© tamb√©m a falta de espa√ßos onde apresentar o teu trabalho e a escassez de p√ļblico, fazendo com que as coisas n√£o fluam. O segundo deve-se ao facto de desde 2007 ter andado a saltitar entre Albufeira, Lisboa e Porto. Os habituais processos de adapta√ß√£o a uma cidade nova fazem-te pensar em coisas triviais como arranjar um trabalho merdoso, teres dinheiro para comer e pagar o teu T0 a tempo. Isto atrasou um bocado o processo, mas vendo bem at√© foi ben√©fico pois permitiu-me perceber o que queria fazer enquanto Mandrax Icon. Penso que √© bom deixar as coisas amadurecer um bocado antes de as lan√ßar para perceber se realmente est√°s satisfeito com o que fizeste, para que daqui a uns anos continuem a fazer sentido para ti enquanto autor e continues a gostar delas.

Ser a primeira edição oficial da Nostril Records configura-lhe um estatuto maior, ou essa situação não foi mais do que um acaso fortuito?

Acho que a maior parte das pessoas não sabe mas a Nostril Records foi criada por mim e pela minha namorada. Desde 2006 que tenho vindo a receber algumas propostas para editar; no entanto, nenhuma proposta me pareceu viável o suficiente para que a coisa se concretizasse. Para mim, que cresci a ouvir Punk Hardcore, o DIY ainda está bem presente na minha maneira de fazer as coisas. Embora haja muito boa vontade por aí, acho que estar completamente independente e fazer as coisas à minha maneira é o que resulta melhor; assim sendo, resolvi criar uma plataforma para lançar, numa primeira fase, projectos no qual eu esteja envolvido, e num futuro próximo editar projectos no qual eu acredito. Também tenho marcado os concertos através da Nostril e é engraçado que o tipo de resposta que se recebe é diferente do que se for uma banda a contactar em nome próprio, mas sim, para mim configura-lhe um estatuto maior.

A ideia de o editar somente em vinil √© uma tentativa de o tornar num objecto de culto? Se n√£o me engano, ainda est√° a ser masterizado. Qual prev√™s que ser√° a tua reac√ß√£o quando pegares numa c√≥pia? √Č como ter um fiho?

Ora, a ideia de o editar em Vinil tem tudo a ver com o culto do Disco enquanto objecto e o prazer que retiras em adquiri-lo. O primeiro disco que comprei na vida foi o In Utero de Nirvana, tinha eu 12 anos. Na minha colecção já tinha alguns, mas tinham sido oferecidos. Lembro-me de ver o videoclip da "Heart Shaped Box" e de ter pensado para mim "quero aquele disco!". Acabei por ir a uma loja na baixa de Albufeira chamada Stop buscá-lo e, desde aí, todo o dinheiro que tinha disponível ia para discos que mandava vir da Carbono de Lisboa. Aquela cena de escolher discos por catálogo e esperar uma semana, às vezes mais, conferia um gosto especial à coisa. Hoje em dia só compro Vinil pois tenciono aumentar a colecção que herdei do meu Pai e é definitivamente o meu formato de eleição. Também tenho vindo a notar um crescente desinteresse no formato CD, e tendo em conta que o download será gratuito, prefiro lançá-lo no meu formato de eleição... verdade seja dita, ter um LP na mão não é o mesmo que um CD, e a ideia de permanecer somente em MP3 dentro de um computador é um bocado deprimente.


J√° tiveste can√ß√Ķes tuas numa curta-metragem. Imaginas que possam um dia ser adoptadas noutras obras da s√©tima-arte? Que filmes gostarias de musicar?

Essa pequena colabora√ß√£o surgiu atrav√©s do convite do Andr√© P√≠faro, amigo meu tamb√©m de Albufeira, que me pediu para fazer um tema instrumental para uma curta realizada por ele chamada "The Apology". J√° antes tinha colaborado com ele em "We Are The Animal", numa abordagem mais electr√≥nica, sob outro nome. Neste caso foi f√°cil fazer algo, pois quando conheces bem a pessoa com quem trabalhas, tens no√ß√£o do que √© pretendido, e tendo n√≥s mais ou menos a mesma vis√£o est√©tica das coisas, a coisa faz-se r√°pido. Quanto √† ideia de ter temas de Mandrax Icon de futuro em filmes, √© poss√≠vel e agrada-me imenso tamb√©m a ideia de fazer bandas sonoras em espec√≠fico; contudo, apenas se o projecto me agradar esteticamente. Gostava de fazer coisas como os Popol Vuh fizeram para o Herzog. √Č a minha ch√°vena de ch√°. Bonito era fazer algo para o Jonas Mekas.

Está prevista uma tour de apresentação do disco ou por agora vais limitar-te a saborear o momento?

Estou a pensar fazer uma mini tour, em princípio menor do que a do ano passado, mas irá depender. No ano passado tive datas que valeram a pena e outras em que tinha ganho mais em estar quieto. Se calhar, tendo um disco cá fora poderão aumentar os convites para tocar, mas para já penso que 4-6 datas para este próximo ano será o mínimo a assegurar.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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