ENTREVISTAS
Hurtmold
São Paulo a preto e branco
· 21 Ago 2005 · 08:00 ·
É verdade que só com Mestro é que obtiveram uma exposição superior (estiveram até presentes na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, há pouco tempo), mas os Hurtmold, oriundos de São Paulo, no Brasil, já começaram este trajecto há oito anos. Depois de um par de lançamentos em cassete, Et Cetera, o disco de estreia, surgiu em 2000 no selo Submarine Records, uma editora dedicada aos sons mais marginais da música brasileira (além dos Hurtmold, a Submarine é casa de discos de projectos como M. Takara, membro dos Hurtmold, os Eternals de Chicago, os Diagonal e os Againe). Dois anos depois Cozido foi editado pela mesma Submarine, mas foi com o excelente Mestro que os Hurtmold saíram para fora do Brasil, especialmente na direcção da velha Europa. Pelo meio houve ainda tempo para um split CD com os Eternals (editado em 2003), alterações na formação dos Hurtmold (constituídos por Fernando Cappi (guitarra e bateria), Guilherme Granado (teclados, vibrafone), Marcos Gerez (baixo), Maurício Takara (bateria, guitarra, teclados e trompete e Rogério Martins (clarinete e percussão) e alguns concertos em alguns famosos festivais europeus, certames dedicados às mais variadas linguagens musicais. Na verdade, embora os Hurtmold partam do rock, desdobram-se em viagens pelos mundos do jazz, da electrónica, da música brasileira. Um verdadeiro caleidoscópio musical que urge ser descoberto. Gilherme Granado, a voz dos Hurtmold cuja ausência em Mestro faz com que os Hurtmold se mostrem cada vez mais instrumentais, responde a algumas perguntas de rotina, em jeito de conversa trivial de irmão para irmão. No fim, fica o cheiro de São Paulo no ar e a certeza de que aquilo que os Hurtmold fazem é do melhor que se faz no Brasil.
O que é que recordam do início dos Hurtmold, do tempo dos skates?

Nós éramos todos amigos de longa data... e não através do skate... na verdade, apenas três da banda têm um passado ligado ao skate. Eu ainda ando às vezes... Começámos por afinidades pessoais, e porque outras bandas nas quais todos nós tocávamos estavam acabando ou estavam meio paradas. A coisa deu certo desde o primeiro ensaio, e nisso já se vão oito anos...

Os Hurtmold começaram a tocar punk e harcore, mas com o tempo evoluíram musicalmente e abriram espaço a outras linguagens. Como se deu essa evolução?

Naturalmente. Viemos de uma tradição punk, ainda mantemos muito disso e nada foi pensado com clareza, fomos tocando, crescendo juntos e as coisas deram-se de uma forma orgânica.

Como se deu a ligação com a vossa editora, a Submarine Records? Qual é a posição da editora face à música feita em São Paulo?

Também por vínculo e amizade, o Fred (da Submarine) é nosso amigo de longa data também. Desde o inicio ele está connosco e a nossa relação é óptima...

Como é que vêem a cena musical de São Paulo, especialmente a que diz respeito ao pós-rock?

Não sei dizer nada sobre pós-rock... não acho que esse título muito esclarecedor e não sei exactamente a que tipo de som ele se refere... mas existem muitas bandas fazendo coisas interessantes em São Paulo, de todo tipo de música. Bandas como Discarga, Cidadão Instigado, Nação Zumbi, Space Invaders, gente do hip-hop... é uma cidade gigante, com todo tipo de gente produzindo todo o tipo de arte.

A entrada de Rogério Martins para o clarinete e percussão. A entrada de um novo elemento na banda respondeu a um desejo de evolução dos próprios Hurtmold?

Abriu toda uma nova perspectiva para a gente. O Rogério também é nosso amigo de muito tempo e tê-lo connosco é um prazer. Mais um para a família. E a música tomou outra guinada após a sua entrada. Estamos felizes.

Gravaram um split CD com o trio Eternals de Chicago, disco que foi editado no Brasil em Julho de 2003. Como foi essa experiência?

Óptima. Os Eternals são uma das nossas bandas favoritas e dividir qualquer coisa com eles é uma honra. Já éramos fãs dos Trenchmouth (outra banda de Wayne e Damon, dos Eternals). Ter um registo com uma de suas bandas favoritas é sempre muito inspirador. Acabámos virando bons amigos e eles devem voltar ao Brasil para tocar connosco em breve.

Para promover o lançamento desse disco andaram em tour pelo Brasil com os Eternal e tocaram em três cidades: São Paulo, Campinas e Belo Horizonte. Como reagem as pessoas de outras cidades à música feita pelos Hurtmold, tendo em comparação as diferenças óbvias entre todas elas?

Nessa tour especialmente foi tudo extremamente bem... todas as cidades tiveram bom número de público e as pessoas reagiram muito bem à nossa música. Já tínhamos tocado antes nas três cidades também... mas geralmente o publico é caloroso. Com raras excepções.


Em Mestro cruzam linguagens pós-rock com jazz, mas deixam sempre transparecer alguma brasilidade nas vossas composições. Como acontece o processo de criação nos Hurtmold?

Ouvimos de tudo, temos vivências diferentes, e tudo isso entra na hora de compor. Tentamos deixar tudo fluir de uma maneira orgânica. Cada música tem uma história. Tentamos deixar cada uma respirar e tomar vida própria. Não temos uma fórmula de composição. A brasilidade entra, afinal nascemos e vivemos aqui. Mas também nada é pensado antes.

O vosso último disco, Mestro, trouxe aos Hurtmold uma exposição bastante maior do que aquela proporcionada por registos anteriores. Estavam à espera de uma reacção desse género?

Nunca esperamos nada. É óptimo ser reconhecido pelo seu trabalho e ter gente indo aos shows e comprando os discos. Ficamos muito felizes, mas realmente não pensamos nisso. Vamos tocando, do mesmo jeito que fazemos há oito anos... Tudo isso tem sido muito bom mesmo.

Estiveram há pouco tempo a promover Mestro na Europa. Como é que tudo correu? Como é que a reacção das pessoas difere tendo como comparação o Brasil e a Europa?

Tudo correu incrivelmente bem. A resposta das pessoas foi muito melhor do que esperávamos. Em todos os shows. A diferença básica é que na Europa ninguém nos conhecia, e aqui já temos um certo público... em todos os shows pela Europa fomos recebidos de forma bastante calorosa. Foi muito bom e esperamos voltar em breve.

Curiosamente, os Hurtmold estiveram já presentes em festivais como o Sònar e o Electronika, certames com ligações à música electrónica. Actuaram também no Londrina Jazz Festival. Sendo os Hurtmold uma formação com base no pós-rock, como é que reagem quando tocam nesse tipo de festivais?

Como já disse antes, não acho que nos encaixamos em nenhum rótulo. Fazemos música, com base nas nossas experiências. Temos uma formação de rock e acho que temos até hoje muito disso na maneira de tocar. Gosto de dizer que somos uma banda de rock. E festivais de todo tipo de música se interessarem pelo nosso som é muito bom, prova que não estamos limitando-nos a um tipo de música ou atitude especifica, o que me soa muito positivo.

Como é que olham para a música feita no Brasil nos dias de hoje? Quais são os projectos aos quais reconhecem validade e qualidade musical?

Muita gente faz e vem fazendo coisas boas no Brasil, há muito tempo. Já citei alguns como Nação Zumbi, Cidadão Instigado, Discarga, Space Invaders... temos o Racionais MCs também, Hermeto Pascoal, Ratos de Porão e muitos outros... o Brasil tem sempre gente boa fazendo música.

Tendo em conta que os Hurtmold são um colectivo de músicos em constante evolução musical, onde é a próxima paragem em termos sonoros? Têm planos para um novo disco?

Estamos devagar compondo coisas novas, não temos ideia de datas para começar a gravar ainda. Está tudo no começo... para onde iremos? Não sei dizer, mas estou confiante na nossa direcção daqui para a frente, tudo está mais livre e empolgante. Esperem mais música em breve...
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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