ENTREVISTAS
Primitive Reason
A Consolidação da Mutação
· 30 Set 2011 · 10:05 ·
© Mauro Mota
Os Primitive Reason foram das bandas portuguesas mais criativas a emergir em meados da década de 90, e depois da viragem do milénio continuaram a mostrar como é errado reduzi-los a um êxito da dimensão de “Seven Fingered Friend”, fundindo tendências pesadas e ritmos dub ou afro-ska, com coesão e arrojo. Após um período de pousio em termos discográficos (fruto, em boa medida, das várias saídas e entradas de elementos) encontram-se a gravar o sucessor do LP Pictures in the Wall e do EP Cast the Way. Oportunidade para uma conversa aprofundada e descontraída - mesmo quando se abordam temas mais ou menos sensíveis - sobre o percurso da banda de Guillermo de Llera (o único membro fundador que continua na formação) e do guitarrista Abel Beja, na casa do primeiro, com os olhos postos no futuro e vista para a paisagem verdejante de Monte Bom.
Vocês têm vindo a tocar músicas novas nos concertos. Em que fase está a produção do próximo disco?

Guillermo de Llera: Estamos já em fase de gravação do álbum. Já na altura do (EP) Cast the Way, em que estávamos a fugir um bocado ao estilo de Primitive – com composições muito mais experimentais e arrojadas –, tínhamos composto um disco inteiro, se o quiséssemos lançar, mas para Primitive seria um disco demasiado “estrangeiro”. Portanto, decidimos separar as águas: pôr as músicas que soavam a Primitive Reason em Primitive e fazer um novo projecto, que é The Colossus, com os temas mais arrojados. Entretanto, já tínhamos composto outros temas para Primitive, pelo que o próximo disco já está composto. Falta a parte da gravação e da mistura.

Abel Beja: E faltam também outros detalhes, há alguns arranjos por fazer. Como o Guillermo estava a dizer, quase a coincidir com o lançamento do Cast the Way reeditámos o Alternative Prison (nota: por ocasião do 15º aniversário da banda), e nessa tour deparámo-nos com dificuldades em tocar um alinhamento coeso, em que coexistisse o material anterior de Primitive com as músicas do Cast the Way, que não encaixavam bem na nossa sonoridade, embora gostássemos muito desses temas. Dentro da nossa identidade, vamos ter sempre aquela mistura ecléctica, mas sem ir ao extremo do Cast the Way. Vale mais abrir essa nova página, que é The Colossus, onde vamos tocar músicas originais e esses temas que não encaixam tão bem em Primitive – e vamos fazer também um projecto de dub, uma cena mais improvisada, para o lado étnico.

Guillermo: O projecto de dub vai pegar em linhas de baixo de Primitive que são malhas de dub para se improvisar sobre essa base. O projecto antes chamava-se Primitive in Dub e agora vai chamar-se PIDe (Primitive In Dub experience), o que nos vai trazer muitos amigos (risos).

© Mauro Mota

Podem desvendar alguns pormenores sobre o álbum que vai sair? A única música que ouvi – “Rugged” – tem uma sonoridade entre o dub e o ska. O álbum continuará a cruzar outros estilos?

Guillermo: Tens o “Rugged” e o “Walk Inside”, que é outro potencial single, que têm um certo experimentalismo dub, uma versão mais moderna de Primitive, em que em vez de se passar de estilo a estilo se misturam os diferentes estilos musicais. Mas as passagens de estilo a estilo também continuam a ser exploradas neste disco. Temos muitas bases afro-ska, e vamos continuar a ter partes pesadas, que fazem parte da nossa matriz. Em termos de lançamento, queríamos acabar de gravar antes do fim do ano, mas lançar, se calhar só em Janeiro/Fevereiro.

Abel Beja: Mas não queremos esperar para lançar o disco inteiro. Queremos lançar em Setembro ou Outubro umas músicas, possivelmente com videoclip, e quando tivermos o trabalho pronto lançamos o disco. Como largámos tudo, pouco a pouco – editora, management… – estamos sem pressão externa e numa nova fase. Podemos fazer tudo com muito maior tranquilidade.

Guillermo: Se reparares, o Alternative Prison foi escrito antes de haver qualquer influência do sistema de negócio da música. Aliás, o primeiro produtor, o Joe Foster, quando ouviu as músicas antes de entrar em estúdio disse: «Não há nada que eu possa fazer aqui. Vocês são o caos total!». E saiu o nosso álbum mais emblemático. As pessoas da indústria sempre fizeram bosta quando tentaram influenciar a nossa carreira, porque tentaram promover um produto de compreensão fácil e consumo imediato. E isso sempre foi uma influência negativa no grupo. Põe-te de mau humor, ficas chateado, tens que ouvir tretas de não sei quantas pessoas que dizem saber o que é melhor para ti, mas, no fundo, a coisa que tem mais sucesso é a única coisa em que não tocaram. Sempre soubemos disso, e agora aproveitámos este momento de pausa – eu tive dois filhos, o Abel também – para acabar de lavar, tirar todas estas influências e começar outra vez a fazer isto como deve ser feito. Como nós queremos.

Entretanto houve rumores de reunião da formação original. Isso esteve mesmo para acontecer?

Guillermo: A ideia era essa. Chegámos a fazer umas jams no Verão passado. Fizemos por isso, a questão é que há elementos em países diferentes… e também bateu a crise, e nesse momento as pessoas já não puderam largar tudo o que tinham e vir para cá começar de novo, que era a vontade deles. A partir desse momento tiveram que se agarrar ao trabalho.

No que toca à actual formação de Primitive, além vocês os dois, temos o Luis Pereira (no baixo), o Rui Travasso (no Saxofone) e o Pepe de Souza na bateria. O Nuno Gomes também participa no disco?

Abel Beja: Não, o Nuno nunca fez parte da formação, embora tenhamos feito um concerto com ele, no Verão de 2009, depois do James (Beja) e do Barrigas terem saído da banda. Na altura pensámos em ter alguém que tocasse baixo e partilhasse vozes com o Guillermo. Houve também a hipótese de o Brian (Jackson) regressar à banda, mas apesar do interesse dele em regressar tal não foi possível, uma vez que vive na Florida e tem família. Como estávamos a compor pensando no Brian nas vozes e no Guillermo no baixo e voz, como na formação original, surgiu a ideia de fazer uns jams com o Nuno.

Guillermo: A ideia era voltar um bocado ao que fazíamos nos primeiros anos, em que eu tocava e depois cantava partes. Então experimentámos vozes, o Alex (Klimovistky) veio fazer um concerto e eu até o convidei a participar nos Primitive – mas o Alex é fiel a Youthless – e o Nuno, com quem experimentámos fazer uns jams e com quem tocámos num concerto.

Ael Beja: Embora tenhamos gostado muito do Nuno, chegámos à conclusão que, se não fosse com o Brian, não valia a pena mudar novamente de vocalista e frontman. Até por uma questão de identidade da banda.

Parecendo que não, já lá vão quase duas décadas, cinco álbuns e muitas mudanças na formação na banda. Olhando pelo retrovisor, como encaram a vossa evolução, a vossa história?

Guillermo: Acho que Primitive representa uma circunstância um pouco rara em Portugal, que é uma banda que teve sorte de estar no mainstream mas sendo uma banda artística e não uma banda de produto. E o meu desejo é poder continuar a sê-lo. Olhando para trás, vejo não sei quantas centenas de concertos. Uma coisa que me deixa contente é fazer parte dum passado de muitas pessoas. Isso para mim é um motivo de orgulho.

Como são os Primitive após tantas mudanças, apenas sobrando o Guillermo dos fundadores originais? Na entrevista dada ao Bodyspace em 2005, a propósito do Pictures in the Wall, o Guillermo dizia que «Os tempos agora são de consolidação em vez de mutação», mas desde 2005 a banda continuou a sofrer várias entradas e saídas.

Guillermo: Às vezes largam-nos com bombas que não estamos à espera e muda tudo (risos). Mas Primitive continua a ser a mesma banda, apesar das mudanças. É um espírito que se criou no princípio e do qual eu sou mais ou menos o guardião. Tem muito a ver com as minhas tendências pessoais, a ecleticidade; o tentar misturar tudo de forma atípica. Os princípios do estilo que se criou naquela altura perduram, apesar de se terem experimentado muitas coisas no caminho. Na realidade, o primeiro disco acaba por ser o mais experimental. Por isso nem se pode dizer que a banda mudou muito. A natureza de experimentar e de misturar é o espírito de Primitive. Pode estar a misturar mais para um lado ou para outro, mas é sempre Primitive.

A base da formação inicial da banda era na chamada Linha de Cascais/Estoril, mas desde há uns anos que vocês os dois vivem perto da Ericeira, no Concelho de Mafra. Esta mudança geográfica reflecte-se na vossa criatividade de alguma forma?

Guillermo: Eu acho que sim, porque a Ericeira, que é uma vila de que gosto muito, tem muito a ver com Cascais, ou a Linha em geral, na altura em que vivia lá. É um sítio a entrar em ebulição. Muitas pessoas hão-de achar que é mau, muita construção, uns trinta supermercados. Mas tem uma energia tipo faroeste, a cena da última fronteira, que é boa para a arte – e a Ericeira lembra-me um bocado essa energia que havia em Cascais: “vão acontecer aqui coisas, isto está a mudar, há possibilidades”.

Abel Beja: O resto do pessoal da banda, que vive noutros sítios – Almada, Évora, Leiria –, quando vem aqui ensaiar sente-se bem. Acho que é um espaço que ajuda na criatividade.

© Mauro Mota

Após o Alternative Prison, que teve em “Seven Fingered Friend” um hit inescapável, devem ter sofrido pressões para enveredar por um caminho que vos asseguraria um garantido sucesso comercial, mas seguiram uma via por vezes menos acessível ao grande público. Como lidaram com isso dentro da banda?

Abel Beja: Dentro do Alternative Prison encontras coisas muito diferentes. Muita gente associava só ao “Seven Fingered Friend” e depois ficava um bocado espantada ao ouvir o resto; basta ouvir as músicas que estão logo antes e logo depois daquela. Mas a editora não se queixava porque tinha aquela música a bater, também tinha o “Hipócrita”. Era do tipo «Ok, isto já dá para o próximo». Só a partir do segundo ou terceiro álbum é que se começam a queixar e a dizer «Mas a malta está à espera de…» - mas está à espera de quê?! Vocês é que fizeram estar à espera disso, não fomos nós.

Guillermo: Em termos de impacto na banda, isso criou muitas dúvidas, mais do que qualquer coisa. As editoras pressionam para se repetir uma fórmula de sucesso, mas não podes obrigar um artista a fazer o mesmo single de sucesso outra vez. A dúvida interna é o que faz realmente mal, as discussões sobre o caminho a seguir. Essa música foi feita duma maneira orgânica… saiu e pronto! Não havia muito pensamento por trás. A partir da altura em que se tenta repetir com um pensamento por trás, não vai sair igual. Houve tentativas, todas elas falhadas – não gostávamos ou não saía bem –, até que decidimos deixar de fazer essa parvoíce, porque esses momentos e todas as circunstâncias à volta não se repetem.

Abel Beja: Muitas das saídas também têm a ver com isso. O trabalho do pessoal da indústria passa um bocado por criar pequenos conflitos dentro da banda porque depois é mais fácil controlar.

Vocês têm bastantes fãs em países como Espanha ou os EUA. Uma carreira internacional esteve à beira de acontecer com uma dimensão mais alargada?

Guillermo: Sim, em boa parte isso não se concretizou com mais força devido às saídas de membros em alturas importantes. A meu ver, uma das grandes riquezas dos primeiros discos era a diferença de natureza das duas vozes: a voz melódica do Brian, mais lenta e cantada, e o meu estilo com rap rápido e berros. A partir do terceiro disco já era só eu e já era tudo diferente. E uma coisa que define uma banda é a voz, por ser algo muito pessoal. Perdendo o vocalista principal, perdeu-se grande parte da identidade nesse momento. E isso foi numa altura em que criávamos novos contactos lá fora. O que não quer dizer que não tenhamos conseguido, porque a partir daí fizemos uma dupla tournée pelos Estados Unidos e voltámos a Portugal com um sucesso enorme. Mas já era diferente porque a banda tinha mudado muito entretanto.

Abel Beja: E com os diferentes estilos que cruzamos, não é fácil substituir, por exemplo, um baterista. É preciso serem músicos que tenham feeling para entrar nesses vários campos. Já tivemos grandes craques do jazz ou do rock a sair daqui de cabeça baixa, tipo «Não consigo; olha, esquece». São grandes músicos à mesma, só que a cena não entra no formato do que estudaram. Tudo isso prejudicou, mas agora ainda queremos mais ir pelo mundo fora e mostrar a nossa música. Porque onde estamos mais à vontade é em cima do palco, a tocar.

Quando os Primitive apareceram foram um bocado pedrada no charco do panorama musical português – nessa altura ninguém fundia estilos como vocês. Pensam que abriram portas para outras bandas?

Guillermo: Quanto a termos aberto portas, sem dúvidas, porque não se fazia isso cá, em termos de cruzar géneros musicais. Qualquer banda que toque na rádio passa a ser uma influência.

Abel Beja: Num concerto que demos em Peniche, o pessoal de Linda Martini veio ter ao nosso camarim depois de terem acabado de tocar e eu dei-lhes os parabéns pelo concerto; e eles «Eh pá! Não queremos falar de nós, queremos falar de vocês. Vocês foram uma granda marca e não sei quê…».

Guillermo: Eles foram contratados para tocar em último, mas recusaram-se, disseram que tínhamos que tocar nós em último.

Ao longo da discografia, vocês foram aprofundando uma certa temática espiritual. O que conduziu a isso?

Guillermo: Isso já vinha desde o princípio. O Alternative Prison é mais adolescente, e esse questionamento evoluiu para um lado mais filosófico-espiritual. Porque se viu um bocado além da superficialidade de ser revolucionário sem passar a acções radicais. Houve uma evolução de pensamento, em que te apercebes que não é necessariamente a sociedade que nos prende, mas que somos nós que nos prendemos a nós próprios, mentalmente. É mais uma questão pessoal do que algo que esteja a tentar impor ou ensinar às pessoas. E quando escreves letras, tens que escrever sobre o que tu sabes e aquilo que vives.

Além de teres admiração pela filosofia oriental, existe um certo fascínio pelos povos nativos americanos, com presença no vosso som desde o Firescroll. Isso resultou duma materialização do fascínio por esse tipo de cultura ou houve algum tipo de contacto mais próximo?

Guillermo: A admiração pessoal pelas filosofias orientais também vem de trás. Tentava ler muito sobre as primeiras religiões, o animismo e o holismo, para as quais não há muito espaço no pensamento moderno. E o nativo americano é aquela coisa romântica do belo selvagem. Havia ali violência a dar com um pau, não eram hippies! mas a sua visão era de harmonia com a natureza – eu mato o búfalo, mas uso todas as partes do búfalo, que é uma dádiva. Foi uma coisa que me interessou: o respeito pelo mundo onde vives, pelas pessoas, por ti próprio. A vida não é uma coisa que tu consomes e atiras fora. E as coisas também não. O que vai um bocado contra o consumismo actual.

No site Kaminari Sama, o Guillermo escreve «They said I should not give people my music for free (…) and leave me empty handed. I say giving IS receiving and letting go of things frees my heart, hands and mind to go on doing what I Love; which is to create». O que te leva a sustentar isto, para mais numa época de crise da indústria musical?

Guillermo: O facto de as pessoas fazerem o download das músicas é uma batalha perdida, e eu não acho que isso seja uma coisa má, desde que se consiga fazer suficiente dinheiro com a profissão para viver. Eu prefiro dar a minha música, porque é isso que faço com prazer, mas gostava de ver uma situação a longo prazo em que as pessoas investissem em mim, em vez de ser uma editora a investir em mim. De momento a ideia é oferecer as músicas, oferecer também a possibilidade de pagar o que se pode ou acha que deve, ou comprar as músicas a um preço convencional. Ainda há muito boa gente que prefere pagar e ficar com a sensação de ser honesto e apoiar o artista. O que eu quero descobrir é uma forma de que o que essa pessoa pagar vá mesmo para o artista na sua maior parte e não a intermediários, e que haja uma maior comunicação e recompensa entre o artista e quem o apoia; o patrocinador ou investidor a título individual.

Abel Beja: Lutar contra isso é perder energia, e não vale a pena. Em vez de focar atenção naqueles que te estão a roubar ou seja o que for, mais vale concentrar energia naqueles que te estão a apoiar. Quando gosto duma banda, quero que ela dure, por isso compro o disco ou o bilhete para o concerto. E há muita gente assim. Porquê obrigar alguém que não tem dinheiro, ou não sabe se gosta, a pagar? O mp3 é agora o que eram as cassetes para mim. Em puto não tinha dinheiro para comprar discos; ouvia cassetes gravadas por amigos. E só se gostava muito da banda é que juntava dinheiro para comprar o disco.
Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net

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