ENTREVISTAS
Nicotine´s Orchestra
Barreiro Rock City
· 09 Nov 2010 · 22:25 ·
O Barreiro Rocks faz dez anos no próximo fim-de-semana. E como é costume num aniversário, tendemos a contemplar o passado, a comentar o presente e a antecipar o futuro. Todos os três são aqui abordados por Nick Nicotine, figura de proa do rock barreirense e português, numa rápida entrevista ao Bodyspace. O mentor da Nicotine's Orchestra, que lançou recentemente Ghosts And Spirits, disco rock imbuído de soul (ou vice-versa), para além de dar uma perninha nos Act-Ups e em muitas outras bandas, é organizador do próprio festival, dirige a Hey, Pachuco!* e é ex-fumador sem que lhe tenha advindo qualquer espécie de stress - como um riff bem puxado, a sua energia é inesgotável.
Esta vai ser a décima edição do Barreiro Rocks. Como olhas para a cena do Barreiro hoje e a do passado, quando ainda dava os primeiros passos?

O tempo tem passado a correr e só agora, nestes últimos meses, é que tenho olhado para trás com mais atenção. Muita coisa mudou no Barreiro, para melhor e para pior, nesse período. Tenho a sensação de que, em 2000, havia mais bandas do que agora mas não havia tantas bandas que eu gostasse como agora. Não sei se tem algo a ver com a Pachuco e com o festival, nem interessa – o que interessa é a qualidade das coisas novas que vão aparecendo.

A cena Barreirense é, como quase todas as “cenas” em Portugal, um pequeno grupo de pessoas apaixonadas por música e que não conseguem parar quietas. Compreendo que, para quem esteja de fora, a coisa pareça coesa e real, mas nós não sentimos nada disso. Isto não é uma cena, é a nossa realidade enquanto artistas e cidadãos. O próprio festival começou sem grandes perspectivas de futuro e agora é um marco na história dos festivais de música nacionais e, por vezes, europeus. No entanto, para quem está envolvido nele, o sentimento é bastante semelhante ao que tínhamos há dez anos: muito orgulho e uma enorme felicidade por poder oferecer às pessoas a música que mais gostamos.


Para além do que vai saindo do Barreiro, tens também a súbita ascensão de Barcelos ou as bandas saídas da Amor Fúria, para dar dois exemplos - que pensas desta nova vaga de produção e consumo de rock em Portugal e como é que isso te tem beneficiado (se é que tem)?

Beneficia quem gosta de música, obviamente. As bandas sempre andaram por aí. O público é um pouco mais volátil mas também sempre existiu. Trata-se apenas da imprensa noticiar ou não noticiar. A Flor Caveira tem a mesma idade que a Hey, Pachuco!. Aliás, tenho a impressão que terão sido a primeira editora com quem troquei discos; na altura eu era fã do Guel, Guillul e o Comboio Fantasma. Sempre fizeram bons discos por aquele lado, eu pelo menos sempre gostei muito da maior parte das coisas que aquela malta fazia. O público também existia – é claro que depois do “boom” a base de fãs cresceu mas nada disso teria tido a repercussão que teve não fosse alguma imprensa, finalmente, ter despertado. Se é bom, noticie-se, promova-se condignamente o que de melhor se faz por cá e quem ganhará é o ouvinte, o consumidor de música. Gostam de ouvir cantar em português? Óptimo: há excelentes bandas portuguesas a fazê-lo. Inglês? Passa-se o mesmo. Instrumentais? A mesma coisa. E não é só no campo do rock – é bom que as pessoas se habituem a dar valor ao que se faz por cá. Isso obriga-nos, artistas, a ser mais profissionais e a tentar fazer melhor.

Quanto à realidade Barreirense, acho que, mesmo sem uma repercussão muito intensa nos media, conseguiu marcar uma posição forte em Portugal e Espanha. E de caminho estabelecemos ligações fortes a todas essas cenas de que falas – isto é um quintalinho e acho que devemo-nos apoiar mutuamente. Mais uma vez, quem ganha é o consumidor de música.

Existe o Nick músico, existe o Nick produtor, existe o Nick organizador de festivais... como consegues conciliar tudo isto? Que pensas fazer se a energia se esgotar?

Tento ser o mais organizado possível. Se num nível terreno não o sou – a minha secretária daria um bom cenário para um filme de guerra – tento sê-lo com os horários e as planificações. Ultimamente tem sido demais, mesmo, porque entre o festival, o estúdio King, a promoção do novo disco, as aulas e a vida pessoal não sobram muitas horas num dia; ontem tive 14 horas no estúdio, por exemplo. Mas vale a pena porque os resultados do meu trabalho, pelo menos os imediatos, são bastante compensatórios. É um prazer ver as bandas que gravam comigo saírem felizes, ver o festival a crescer de ano para ano e fazer a música que gosto... Sou um ex-fumador recente graças a tudo isto. E tem resultado, sinto-me com mais energia. Também não sou tão velho quanto pareço, portanto acho que ainda tenho mais uma década de energia para esbanjar, pelo menos.

Ghosts And Spirits saiu no mês passado. Que reacções destacas, tanto dos fãs como das pessoas mais chegadas?

Melhores do que o que eu esperava. Tenho recebido mensagens muito positivas e críticas muito boas de pessoas que nem me conhecem muito bem. Os amigos podem ser traiçoeiros nisso das avaliações...

Quem teve a ideia do vídeo para "Oh Night!"?

A Joana Linda teve as ideias todas. Ela é genial. De início queria muito fazer um vídeo que, de certa forma, lembrasse o tipo de ambientes que eu havia visto nos vídeos da Joana. A Vera Marmelo, que tirou as fotos do disco, ouviu-me a falar nisto e disse-me que conhecia a Joana e que podia passar-lhe a música para ver se ela estava interessada em trabalhar comigo, e dias depois encontrava-me com a Joana para ouvir as ideias dela. Adorei o resultado final, fiquei mesmo muito satisfeito.


Também recentemente foi disponibilizada pela Optimus Discos uma compilação com vários nomes da cena do Barreiro. Encara-la como um prémio para a cidade, ou como algo que já devia ter sido feito há muito, ou como apenas mais um ponto de passagem?...

É um prémio para o festival, para a cidade, para os artistas desta cidade. O timing foi perfeito: no último ano gravou-se muita música por aqui. Apareceram mais projectos, a cena diversificou-se. Para nós foi mais um motivo de orgulho. E aquilo que ali está foi algo que ainda demorou alguns meses a preparar – embora já soubesse que bandas queria que entrassem nessa compilação, era importante que cada uma contribuísse com o melhor que tinha. Neste festival vamos lançar uma outra compilação, esta só com temas inéditos, comemorativa dos dez anos de Hey, Pachuco!. É a melhor edição de sempre!

Olhando para trás, seja com a Orchestra, seja com os Act-Ups, seja com Ballyhoos, há alguma coisa que achas que tenha ficado por fazer ou que te arrependas de ter feito?

Por fazer ficam sempre muitas coisas mas normalmente as mais importantes são feitas. Não sou pessoa de me arrepender; se não houvesse um lado positivo nas opções, não as tomávamos. Por vezes as coisas não correm de feição mas a única maneira de sabermos isso é arriscando.

Li uma frase tua em que dizias que "a existência de personagens é uma das marcas do Barreiro". Que novas personagens têm surgido no Barreiro a quem auguras coisas de bom?

Mike Styles, sem dúvida. Ninguém, aos 14 anos, em 2008, começa a tocar guitarra porque adora o Bob Dylan. O Mike é fora de série. Agora começa a compor os seus próprios temas, a descobrir a sua própria voz, e é genial. Comprovem-no na compilação dos dez anos da Pachuco. É o contraste perfeito à personagem-mor da nossa turma: o Crooner Vieira. São as duas pontas, o mais novo e o mais velho. Ambos talentosos.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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