ENTREVISTAS
Mountains
Um estuário de milagres
· 31 Jan 2010 · 23:28 ·
As maravilhas e os milagres nos discos dos Mountains fazem-nos crer que a música ainda pode ser um estuário, tirando partido dos movimentos das marés para estimular as trocas de matéria orgânica. Ainda que tenham sido nados e criados na escola de Chicago, o ponto de convergência Mountains colhe a fertilidade de várias estâncias, tendo-se expandido na zona sempre agitada de Brooklyn. O glorioso resultado é este Choral, que cria cúpulas a partir de cristais de todas as cores e feitos, e Etching, exercício de imersão, viagem sem retorno a um paraíso de ruído branco. Um valida a óptima impressão deixada pelo outro.

Brendon Anderegg e Koen Holtkamp, amigos de longa data e parceiros artísticos nos Mountains, parecem ter na ponta dos dedos a graça dos abençoados e a alquimia electroacústica de quem já fez escola. Entre o espanto provocado por Choral (um dos nossos discos de 2009) e ganhar fôlego para o que aí vem, o Bodyspace foi saber o que se passa para lá das montanhas, numa preenchida conversa com Koen e Brendon.
Planeiam apresentar uma nova peça na próxima digressão de Janeiro/Fevereiro?

Koen: Iremos apresentar uma variante da peça que tocámos na recente digressão pela Europa. A grande diferença, desta vez, é não usarmos computadores. Basicamente, dependeremos apenas de um monte de instrumentos acústicos e objectos manipulados e samplados através de vários aparelhos electrónicos e pedais, em tempo real.

Já existem novidades quanto aos convidados que gostariam de ter no próximo álbum?

K: Isso ainda está numa fase embrionária, embora tenhamos alguns amigos em mente, com os quais adorávamos colaborar. Mas nada é certo, por esta altura.

Interrogo-me acerca do modo como incorporam na vossa palete de instrumentos algo como um “saco de berlindes”. Habitualmente, costuma ser o instrumento peculiar a encontrar a música ou o contrário?

K: Acontece de ambas as maneiras. Enquanto trabalhamos com melodia e muitos elementos e instrumentos musicais convencionais, tentamos apurar consistentemente a textura na composição e na produção. Por isso, coisas como berlindes, blocos de gelo e folhear as páginas de um livro acrescentam sempre alguma coisa ao som. Creio que o à-vontade com estes elementos resulta também da utilização de gravações de campo, na medida em que ambos são semelhantes a nível sónico e passíveis de serem tocadas como instrumentos. Além disso, ainda que abstracta, a relação familiar entre os sons faz com que desenvolvam associações particulares entre si, que aprecio trabalhar. Ambos frequentámos a escola de Artes e foi aí que nos habituámos a fazer experiências com recurso a rádios, aquele sibilar da fita e tantas outras coisas. Tudo isso aconteceu muito antes de formarmos os Mountains, o que torna a incorporação dos elementos que mencionas numa coisa natural.


Sei que utilizam ocasionalmente vozes sem palavras na mistura de algumas faixas. Acreditam que isso poderá acontecer com maior frequência no futuro? Os resultados têm sido motivadores?
Brendon: Após utilizar vozes no Choral, comecei também a utilizá-las ao vivo. Existe uma certa energia no cantar que funciona muito bem nesse contexto do palco. É possível obter um som muito carregado ao sobrepor as camadas de voz e submetendo-as aos efeitos mais variados. Misturam-se muito graciosamente com o som em geral. A peça que estamos a tocar envolve uma boa quantidade de voz.

K: Nem mais. Temos vindo a utilizar vozes nas actuações desde o Choral e acredito que seja para continuar. Apreciamos a sensação intrinsecamente humana da respiração no canto e em instrumentos como a harmónica e a melódica.

Foi de alguma forma difícil estabelecer a sequência de Choral? Alguma vez equacionaram incluir “Driftwood” e “Ceremony” na versão em CD ou estavam mesmo destinadas a surgir exclusivamente numa face do LP? Parecem ambas cartas fora do baralho.

K: Sim, são, até certo ponto, cartas fora do baralho. Os restantes temas de Choral foram gravados na mesma altura e especificamente para um enquadramento maior. Feitas as contas, todos esses temas ocupavam três faces de LP, e isso fez com que precisássemos de mais material para ocupar uma quarta face. Considerámos diversas opções e decidimo-nos, então, por umas faixas mais velhas, que não encaixavam em lado nenhum, apesar de merecerem ser lançadas. Isso era algo que nos entusiasmava. “Driftwood” era uma improvisação feita num programa de rádio, durante uma digressão pela Europa, uns anos antes de gravarmos Choral. “Ceremony” foi gravada no norte do estado de Nova Iorque, quando começámos a trabalhar no Sewn, mas acabou por não encaixar nesse álbum. É a nossa faixa mais centrada num ritmo.

Presumo que uma peça como “Etching” tenha sofrido um processo de aperfeiçoamento até ser registada no disco homónimo. O que vos levou a pensar que estaria pronta para isso?

K: Gravamos a maioria dos nossos ensaios e, para ser franco, a versão de “Etching” que acabou por sair foi uma das primeiras. Voltámos atrás para avaliar as diferentes fases, e essa pareceu-nos a mais envolvente e consistente. Por isso, foi póstuma a decisão de escolher uma das primeiras versões como a representação final da peça.

Em que ponto se encontram os vossos projectos a solo?

K: Temos estado bastante ocupados com os Mountains ultimamente, por isso tenho abrandado a carreira a solo, embora mantenha vários trabalhos em desenvolvimento e uma série de actuações planeadas para 2010. Fico entusiasmado com a oportunidade de explorar isso este ano. Aprecio mesmo dividir o tempo entre as colaborações e o trabalho a solo. Cada um tem um tipo de energia completamente diferente.

B: Eu tenho estado empenhado na banda-sonora para um documentário de quatro horas acerca da ascensão e queda da Alemanha nazi. É relatado a partir da perspectiva alemã e baseado em muitas cartas escritas por pessoas a viver na Alemanha. Vai passar no Canal História em 2010. Esse tem sido o meu principal projecto, mas também tenho gravado sozinho algum material com vagas semelhanças a Mountains.


Brendon, eras capaz de me falar um pouco sobre como foi compor música para o documentário premiado 102 minutes that change America (sobre o 11 de Setembro)? Trabalhaste a partir da montagem final ou foste obrigado a lidar com todo o material envolvido no documentário? A experiência foi, por assim dizer, catártica?

B: Os produtores reuniram material e organizaram-no durante vários meses, e só mais tarde fui convidado. O editor estava a desenvolver as primeiras montagens, e gravei grande parte da banda-sonora directamente para o documentário. Também passei muito tempo a fazer sons que podiam ser adicionados mais tarde. A principal ideia era usar apenas o áudio desse dia como matéria de recurso para, após várias manipulações, ser transformada em música. Recebi muitas transmissões de rádio e gravações de campo feitas pelas pessoas. Também usei sons incluídos nas gravações do momento. Trabalhar neste documentário foi muito intenso e emocional. Eu não diria catártico, ainda que me tenha obrigado a reviver mentalmente todo aquele dia.

Guardaram alguma lição em particular da digressão europeia partilhada com os Minamo?

K: É difícil dizer ao certo, mas, logo depois de os escutar, senti uma afinidade em termos de andamento e paciência, de permitir que as coisas evoluam naturalmente. Inspiraram-nos também pela forma como tocam em conjunto, ao passo que eu e o Brendon estávamos, nessa altura, mais envolvidos nos projectos a solo. Os Mountains surgiram alguns anos depois.

O que se tem passado em Nova Iorque ultimamente? Que actuações do ano passado destacariam?

K: Na verdade, mudei-me para Filadélfia há algumas semanas e estou mais entusiasmado com o que se passa aqui. Vi uma série de actuações interessantes o ano passado: Yoshi Wada, Chris Forsyth, Ben Vida, Mike Wexler, Emeralds, Lichens, Polvo, Michael Chapman, James Blackshaw e as peças de órgão de Olivier Messiaen.

Tenho a certeza de que a morte de Jack Rose foi um acontecimento profundamente triste para o pessoal da Thrill Jockey. Mantêm alguma memória especial da sua música e espírito?

K: Com esta mudança para Filadélfia, onde ele viveu, verifiquei muito mais a sua ausência nas pessoas que conheci e na forte marca que deixou. Só estive com ele em algumas ocasiões e muito breves, mas era um guitarrista excepcional e uma individualidade verdadeira.

B: Sempre achei que era um músico fantástico. A primeira vez que o vi tocar foi em 1995, com os Pelt, em Portchester, Nova Iorque. Era sempre extremamente cativante e um grande improvisador. Continuar-se-á a escutar a sua música durante muitos anos, o que me faz sentir menos mal com uma perda tão triste.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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