ENTREVISTAS
Jacinta
Canções de Liberdade
· 28 Dez 2009 · 23:56 ·
No segundo encontro com a Blue Note, Jacinta quis rodear-se de canções que fazem parte do imaginário pop de milhões de pessoas. Uma tarefa difícil depois de outra tarefa não menos complicada: pegar na obra de Zeca Afonso e trazê-la para o lado do jazz. A carreira de Jacinta vai-se fazendo de desafios: parece ser esse o seu vício sensório, o seu métier. Em Songs of Freedom, o álbum que nasceu de um espectáculo apresentado várias noites (e com lotação esgotada) no Teatro São Luiz, Jacinta explora confortavelmente as décadas de 60, 70 e 80 e passeia-se pelos temas de Ray Charles, Stevie Wonder, James Brown, Nina Simone, Bob Marley, Prince, The Beatles, U2, entre outros. Esta é a sua forma de, ao encontro da pop, desvendar uma nova liberdade, personificada aqui pelo êxito de Bob Marley que é a cara deste novo disco. Em entrevista ao Bodyspace, Jacinta tratou de contar os pormenores que envolvem o seu novo projecto, que está visivelmente a trazer-lhe uma liberdade há muito desejada.
Tem um novo disco nas lojas, de novo com o selo da Blue Note, intitulado Songs of Freedom, onde interpreta músicas dos Beatles, Prince, Beach Boys, U2, entre outros. O que é que nos pode contar acerca do nascimento deste projecto?

A Joana (Maria Joana Pereira, minha manager) lançou-me um grande desafio: re-interpretar grandes êxitos Pop dos anos 60, 70 e 80. O São Luiz acolheu-nos no início de 2009 com 9 noites esgotadas, onde estreámos este Songs of Freedom que tem um formato jazzístico minimalista: Voz, Saxofones e piano. A estas canções de origem muito variada retirámos o elemento mais marcante das interpretações originais: a Bateria. Com isso “puxámos o tapete de segurança” e a parte estrutural da canção veio ao de cima. Tive boas surpresas nesse processo, pois ao piano, só com a melodia e as cifras dos acordes, descobri porque é que estes temas são eternos – têm uma forma e estrutura harmónica, melódica e de mensagem, fortíssimas. A partir daí é fácil ganhar asas e recriar cada canção num contexto jazzístico. Estas canções apresentam qualidades igualmente indispensáveis num grande standard de jazz.

A passagem dos concertos ao vivo para a gravação em disco, foi complicada? Como foi esse processo?

Resolvemos fazer abordagens completamente diferentes para a gravação em estúdio. Não só a música vive de diferente maneira quando estamos em casa a ouvir o disco, como achámos interessante reinventarmo-nos mais uma vez, colocando mais desafios sobre o mesmo repertório. Estas novas interpretações foram estreadas aquando da minha residência de 10 dias na inauguração do espaço BES Arte e Finança onde fizemos workshops, ensaios abertos, jam sessions e dois concertos do Songs of Freedom que “atulharam” o que parecia ser um novo clube de jazz, com 500 e 700 pessoas em cada um dos concertos.

Nos primeiros tempos, quando começou a cantar, tinha colocado como objectivo algo tão prestigiante como chegar à Blue Note? Como se renova agora essa relação?

Nunca me tinha passado pela cabeça tal coisa. Conscientemente não seria nunca um tipo de pensamento meu enquanto estudante de música (que sou desde os 4 anos de idade). Na minha mente de artista/músico não havia espaço para muito mais além de querer estudar, aprender, praticar cada vez mais; cantar e sentir-me cada vez mais realizada com isso. Creio que essa consciência de ter objectivos de carreira, só veio mais tarde, quando percebi que este iria ser o meu ganha-pão, a minha profissão, a minha vida. Agora sei que para evoluir no jazz, vocalmente e como artista de palco, é necessária a outra parte de planeamento e desenvolvimento de carreira, que implica audiências cada vez maiores e diversificadas, e uma grande e prestigiada editora a abrir-nos caminho para que esse processo de desenvolvimento não pare mais.


Alguma vez pensou em continuar o seu trabalho num país como, por exemplo, os Estados Unidos? É uma insistência fazer carreira em Portugal apesar de o mercado e o público serem notoriamente inferiores aos de outros países?

É uma insistência fazer uma carreira sólida em Portugal e no mundo. Isso só se consegue picando pedra, devagar, e dando os passos certos na hora certa, aproveitando as oportunidades que nos vão surgindo, e que nós próprios vamos conseguindo. Em Portugal, a minha equipa de produção tem conseguido o que até agora mais nenhum artista de jazz conseguiu. Por exemplo uma tournée de norte a sul do país com 20 salas, que fizemos com o Convexo, ou um projecto no São Luiz com 9 salas esgotadas. O público tem aderido de forma entusiasta e tem-nos procurado, mostrando grande apreço pela descentralização e pela nossa missão de levar música de qualidade a todos os pontos do país. Estes públicos mostram-se cada vez mais conhecedores e apreciadores de jazz – sendo este tradicional americano ou com maiores influências portuguesas. No estrangeiro temos conseguido cada vez mais público em festivais de jazz já com grande tradição, onde me tenho sentido muito bem acolhida e apreciada.

O seu projecto anterior, Convexo, marcou a homenagem a Zeca Afonso. Como nasceu essa empreitada?

Aquando da preparação do meu segundo disco Day Dream, Greg Osby, o produtor, arranjador e saxofonista no projecto, sugeriu que incluíssemos uma canção de embalar que fosse muito popular em Portugal. Eu escolhi a ‘Canção de Embalar’ do Zeca Afonso. Mais tarde quando apresentámos esse disco na tournée em Portugal, escolhemos essa canção para Encore, pela sua popularidade e reparámos que, apesar de ser uma balada sossegada, era o ponto alto de cada concerto, com toda a gente a participar na minha improvisação final, cantando o refrão. Tocava de facto as pessoas de forma diferente, provavelmente pelas suas raízes fortemente portuguesas. A essa tournée seguiu-se 20º aniversário da morte do Zeca, sendo essa uma óptima “desculpa” para eu poder dedicar um projecto inteiro àquele compositor que marcou a minha adolescência e que eu admirava profundamente.

Aproximou-se necessariamente da música do cantautor com aquele álbum. O que lhe oferece dizer acerca da música de Zeca Afonso?

Foi uma redescoberta. Fui buscar os temas mais interessantes a nível musical, e com o mínimo de associações políticas. Descobri alguns que desconhecia por completo e fiquei fascinada com a qualidade estrutural de outros. De facto, várias destas canções são geniais e têm uma forma perfeita a nível de composição e de mensagem. Talvez a maior genialidade do Zeca seja na simplicidade aparente das melodias e dos ritmos que são sobrepostos de forma bastante complexa aos acompanhamentos e ao ritmo base da secção rítmica. Por exemplo na canção Que Amor Não Me Engana, a melodia é cantada num compasso simples de 4 por 4 mas o acompanhamento da harpa está em 6 por 4, formando uma estrutura composta. Se ouvirmos apenas a melodia e lhe pusermos um acompanhamento simples em 4 por 4, estamos a perder uma boa parte da sua riqueza rítmica, e da sua tensão global na transmissão da mensagem.


Foi complicado construir esse disco? Que dificuldades encontrou no processo, no making of?

O projecto começou por ser uma simples homenagem ao Zeca, que seria apresentada meia dúzia de vezes e depois seria arrumada. Mas, no processo de descoberta e construção do material, percebi que cada uma das canções que estávamos a trabalhar eram pequenas pérolas e que seria um desperdício deixar o projecto ter vida tão curta. Decidimos avançar para disco, partindo do formato do concerto e, estando as 11 canções alinhadas, foi muito fácil dar a volta à maioria delas. Deixámos que cada canção nos «inspirasse» no caminho a tomar. As características próprias de cada canção foram a base para um seu maior desenvolvimento, apontando a abordagem que se integraria melhor com o original. Foi muito interessante explorar o lado jazzístico do Zeca, bem presente em alguns destes temas.

A digressão de 2008, com esse disco, foi apresentada como sendo a maior de sempre no que diz respeito ao jazz em Portugal. É um motivo de orgulho para si este título?

É motivo de orgulho sobretudo na minha equipa de management e produção. Fazer a “maior tournée de jazz de sempre em Portugal” foi uma opção nossa, bem ponderada. Foi uma aposta muito forte, com sérios riscos. Por ser uma tournée tivemos uma adesão enorme e apoio incondicional por parte de alguns meios de comunicação. Nomeadamente a RTP, a Antena1, a Nova Gente, e a SIBS Multibancos, apoiaram-nos com publicidade a nível nacional, e, a nível local, tivemos adesão total dos meios de cada cidade onde tocámos. Isso permitiu uma grande visibilidade e um maior reconhecimento do jazz em Portugal.

Por falar em jazz em Portugal, recentemente têm surgido algumas novas vozes na área do jazz em Portugal, nomes como a Sara Serpa e a Joana Machado. Que retrato faz do jazz vocal em Portugal?

É curioso referir essas duas cantoras que aprecio e que têm de alguma forma imenso em comum com a minha fase “pré Estados Unidos”. Acredito que com estas e outras vozes, o jazz vocal em Portugal e no mundo comece a ganhar uma força e uma seriedade que não existiam desde as grandes Divas dos anos 60, 70. Vejo cada vez mais os cantores a levarem o jazz tão a sério como os instrumentistas e isso é excelente para o crescimento e aceitação deste estilo de música por audiências cada vez maiores e mais abrangentes.

Usar a voz como instrumento tem com certeza necessidades diferentes de outros instrumentos. Quais são os seus cuidados e exigências?

Usar a voz como instrumento tem com certeza necessidades diferentes de outros instrumentos. Quais são os seus cuidados e exigências? São sem dúvida maiores do que quando estava mais focada no piano. Começando pelas horas de sono e pela alimentação, a voz torna-se uma “harsh Mistress” (uma “amante exigente”) como dizia um amigo negro americano cantor de ópera…
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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